Só sei que foi assim: quadrinhos, cordel e Suassuna

Falar de Ariano Suassuna. Tá aí uma tarefa difícil de encarar. Como falar de um cara tão grande,grandioso e engrandecedor. Um cara que trouxe vida à seca. Um cara que deu cores pro sertão. Não foi o primeiro e acho que não será o último. Mas com certeza foi um dos que realizou tal ação com o maior bom humor. Se preocupou em contar para as ruas (e não apenas para os livros) as história e invencionices. Uma referência atemporal.

Queria que o “Pulo da Gaita” funcionasse a gente pudesse trazê-lo de volta. Tocar algumas notas e termos Ariano saltitando a nossa volta. Mas isso não será possível.

Sua menção aqui neste blog é em função da sua aproximação com uma das culturas mais bonitas do Brasil, mas por muitos relegada. O Cordel nada mais é do que um quadrinho, uma arte sequencial pendurada nos varais. Escreve-se um texto, uma poesia ou uma canção para que seja assim complementado por uma imagem. Assim como o quadrinho, o cordel é seu irmão mais simples. Não mais simples de inferior, mas mais simples de preocupações.

O Cordel, assim como o teatro de Suassuna, se preocupa em ser entendido. Ele está preocupado em contar algo. Não está tão ligado ao quantos detalhes e cores ele tem, mas sim o quão claro ele é. Tradicionalmente o cordel é feito a partir de uma técnica que foi por muitos deixada de lado, a xilogravura. Porém, ao contrário do que parece, esse método é muito mais artístico e artesanal do que o que é usado nos quadrinhos. Aquilo é arte sequencial da mais pura. Ela ainda guarda um valor ainda mais precioso, uma vez que cada impresso tem suas características próprias, suas falhas e marcas.

Viu, como se faz!

Viu, como se faz!

Suassuna escrevia para estar nas ruas. O Auto, um tipo específico de teatro pensado para ser apresentado da maneira mais popular, foi o gênero mais utilizado por ele. Talvez esteja aí que está a sua maior grandeza. Uma vez que a sua representação depende das reações do seu público e de um certo nível de interação, esse tipo de peça (assim como o cordel) a cada vez que é apresentada tem as suas marcas próprias.

A dureza árida é contada de um jeito alegre. E cada ator que representa acaba assimilando um pouco disso em si. Assim como o papel que aceita a impressão da xilogravura, o ator que passou por essa experiência, fica marcado. Isso fica claro na carta de Matheus Nachtergaele, publicada no Diário de Pernambuco, no dia do falecimento de Ariano (íntegra aqui):

O Grilo colocou em mim rédeas de sisal, sem forçar com ferros minha boca cansada. Sentou-se sem cela e estribo, à pelo e sem chicote, no lombo dolorido de mim e nele descansou. Não corria em cavalgada. Buscava sem fim uma paragem de bom pasto, uma várzea verde entre a secura dos nossos caminhos. Me fazia sorrir tanto que eu, cavalo, não notava a aridez da caminhada. Eu era feliz e magro e desdentado e inteligente. Eu deixava o cavaleiro guiar a marcha e mal percebia a beleza da dor dele. O tamanho da dor dele. O amor que já sentia por ele, e por você, Ariano.

Selton Mello como Chicó e Nachtergaele como Grilo na versão cinematográfica do Auto

Selton Mello como Chicó e Nachtergaele como Grilo na versão cinematográfica do Auto

Tomei um tempo lendo o discurso de posse de Suassuna, na Academia Brasileira de Letras. E que aula … (leia aqui na íntegra). Poderia tirar diversos trechos para tentar explicar um pouco mais dessa grandeza. A grandeza de alguém que transformou uma situação em cenário das suas obras. Que compreendeu a questão artesanal de um cordel e soube transformá-lo em teatro. Uma delicadeza tosca. Mas aqui uso tosco como a definição do dicionário, aliás a primeira: “Que não é lapidado, polido, nem lavrado; tal como a natureza o produziu”.

Suassuna via dois “Brasis”. Um oficial, que é pomposo e lustroso. E o real, que é tal como a natureza produziu. Este segundo ele mantinha tosco, por que era e é assim que as coisas são. Ele mesmo diz no seu discurso de posse que foi assim que ele aprendeu. Dizia isso da seguinte maneira:

O que importa assinalar aqui, porém, é que, depois da distinção feita por Machado de Assis, Euclides da Cunha identificou nossos dois países diferentes através de dois emblemas. O Brasil oficial, ele o viu na Rua do Ouvidor, centro da civilização cosmopolita e falsificada. E o Brasil real, no emblema bruto e poderoso do sertão.

[…]

O Brasil real teria, na verdade, não um, mas dois emblemas, pois o arraial do sertão tinha seu equivalente urbano na favela da cidade. Se o Brasil real era aquele que habita o arraial e a favela, o Brasil oficial tinha seu símbolo mais expressivo nas federações das indústrias, nas associações comerciais, nos bancos e no palácio onde reinam o presidente e seus ministros.

[…]

É que, como no tempo de Antônio Conselheiro, o Brasil continua dividido e dilacerado naqueles dois países diferentes, o oficial e o real. Qualquer que tenha sido o resultado da mestiçagem, na linha do que tentaram explicar Silvio Romero, Araripe Júnior, Euclides da Cunha e Gilberto Freyre, ainda hoje o Brasil oficial, o dos poderosos, do presidente e de seus ministros, é integrado por brasileiros de pele mais clara. E o de Antônio Conselheiro e Mocinha de Passira, pelos descendentes mais escuros de negros, índios, europeus pobres e asiáticos pobres.

Suassuna e seu panteão

Suassuna e seu panteão

Poderia ainda continuar divagando horas e horas sobre esse personagem/autor/personalidade/personificação, mas acho que, para compreendê-lo de verdade, é preciso ler o que ele escreveu. Assim como disse Nachtergaele, Suassuna é a sua própria obra. Não é possível dissociá-los . Um depende totalmente do outro. E entendo que é por isso que por mais que em corpo Ariano não esteja mais conosco, em obra ele nunca deixará de estar.

Toda vez que nos lembrarmos das imagens e das histórias, Ariano estará presente. Assim como muito bem desenhou Maurício de Sousa e assim como Carlos Ruas soube fazer bem a piada, não tenho mais por que falar. Afinal “Só sei que foi assim…”

Suassuna

deve ter sido esse o caminho

deve ter sido esse o caminho

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2 respostas para Só sei que foi assim: quadrinhos, cordel e Suassuna

  1. Stefano disse:

    assistam ao filme !

  2. Pingback: Vida e linguagem no Diomedes de Lourenço Mutarelli | Quadrinheiros

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