Prophecy: redes sociais, violência e terrorismo

Dando uma olhada na banca a capa de Prophecy (ou Yokokuhan no original) chamou minha atenção logo de cara. O homem com uma máscara de jornal e um dedo inquisidor apontado para mim me fizeram parar e dar uma olhada mais aprofundada. Infelizmente o mangá vem shrinkado, mas como fazia tempo que não lia um mangá resolvi arriscar R$13,90 e ver no que ia dar.

De autoria de Tetsuya Tsutsui, Prophecy é um thriller policial que gira em torno dos crimes cometidos por e perseguição ao Homem-Jornal, o homem da capa. Simples assim.

Mas o que torna Prophecy digno de ser lido não é tanto a trama. Afinal quantas perseguições a serial killers ou terroristas nós já vimos? Inúmeras. Não, o que torna o mangá interessante é menos o crime ou a investigação e mais o modo como o Homem-Jornal divulga seus crimes via internet e a repercussão de seus atos nas redes sociais.

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Montagem das capas por Diogo Prado

Um fabricante de alimentos processados responsável por uma intoxicação alimentar em massa tem a sede da empresa incendiada. Um jovem estudante que fez um comentário do gênero estupra mas não mata é violentado com um vibrador. Um homem que fazia comentários em redes sociais humilhando pessoas que passavam por entrevistas de emprego com ele é espancado. Esses são alguns crimes cometidos e transmitidos pela internet pelo Homem-Jornal.

Os atos são divulgados a uma velocidade vertiginosa em redes sociais e o apoio das pessoas ao homem então classificado como terrorista aumenta. De alguma forma e por algum motivo as pessoas se identificam com o Homem-Jornal, veem nele um Justiceiro. E ele reivindica isso para si:

“O que eu mais odeio nesse mundo são aqueles que tentam tomar a autoestima de vocês. E ‘eles’ se escondem em todos os cantos da sociedade. No olhar das pessoas que passam por nós na rua… Na conversa que ouvimos na copa… Nos itens incompreensíveis da nossa folha de pagamento… Nos policiais que enquadram de maneira arrogante… Não posso ajudar vocês nisso. Mas posso aliviar um pouco… Esse sentimento preso na garganta de vocês. Se no futuro… Aparecer alguém que os insulte sem motivo nenhum, falem comigo. Eu mato. E juro que mato. Por isso não fiquem guardando”.  

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O primeiro volume se encerra contando a origem do tal Homem-Jornal e explicando suas motivações. O mangá tem apenas 3 edições, mais um motivo para dar uma chance a ele se você ainda tem dúvidas.

O que é relevante em Prophecy é abordar esse fenômeno da propagação fora de controle dos mais variados fatos – a tal da viralização de um conteúdo – e suas consequências. Tudo tem potencial de viralização: desde um vídeo de um cachorro fazendo gracinhas no youtube, provas de Filosofia que abordam Valeska Popozuda e as várias notícias de cyberbulling que circulam todos os dias pela internet, para ficarmos com exemplos mais recentes.

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Ao ler o mangá fiquei me perguntando o que leva as pessoas a tal comportamento e lembrei de um pequeno texto chamado O perdedor radical – ensaio sobre os homens do terror, escrito por Hans Magnus Enzensberger. No ensaio, Enzensberger argumenta que aqueles que partem para atos terroristas e/ou violentos aparentemente sem explicação têm algumas características comuns, e o conjunto dessas características foi o que ele batizou de perdedor radical. É interessante notar como muitas dessas características estão presentes no Homem-Jornal.

Para Enzensberger a desigualdade social gerada pelo capitalismo é uma máquina de criar perdedores, mas o perdedor radical só se reconhece como tal quando olha para os “ganhadores” e percebe o que não é um deles – mas gostaria de sê-lo.

Toda vez que se compara com alguém chega à conclusão que é inferior, porém ele experimenta – ou já experimentou – alguma sensação de poder, sofre de uma certa arrogância e procura desesperadamente por um bode expiatório para sua condição de perdedor, que sempre é procurada em alguém (a sociedade, um grupo étnico, etc.) e nunca em si mesmo (reparem no discurso do Homem-Jornal acima transcrito).

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O perdedor radical não possui nenhum respeito pela própria vida ou dos outros. E quando supera seu isolamento e se encontra com outros perdedores radicais explode a mais brutal ausência de escrúpulos, um amálgama de desejo de morte e delírio de grandeza. Porém, para superar o isolamento é necessário um “detonador ideológico”, ou, em termos mais simples uma causa. Pode ser qualquer coisa, um Partido, uma Religião ou algo tão nebuloso quanto um sentimento de que se deve fazer Justiça. Dito em outras palavras: massacrado de várias maneiras pela sociedade em que vive o perdedor radical explode em atitudes violentas que buscam uma compensação pelo seu sofrimento. Qualquer semelhança com o Homem-Jornal ou recentes linchamentos aqui no Brasil não é mera coincidência.

Por trazer essas questões à tona, problemas que talvez sejam mais urgentes do que nunca, Prophecy é um mangá que merece não apenas ser lido, mas também pensado e debatido. Parabéns à JBC por trazer ao Brasil uma obra tão interessante.

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Sobre Nerdbully

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3 respostas para Prophecy: redes sociais, violência e terrorismo

  1. Li o primeiro e gostei bastante também! A JBC estava precisando inovar, pois perdeu muito espaço pra Panini.

  2. Diogo Prado disse:

    Olá, não deixe de dar crédito de onde você tirou as imagens, amiche. Quem fez essa imagem dos comparativos de capa fui eu.

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