O CREPÚSCULO DA S.H.I.E.L.D.

Agents of SHIELD banner ABC

Twilight saga capa livrosCrepúsculo é uma palavra que só recentemente entrou para o vocabulário corrente de quem tem menos que 25 anos. A maioria de nós vê isso como um fato lamentável, até porque muitos tivemos a oportunidade de entrar em contato com a palavra graças a Além da Imaginação (primeiro nome que deram para Twilight Zone por aqui), Crepúsculo de Aço (Steel Dawn, o título foi mal-traduzido, mas continua sendo legal), Crepúsculo Esmeralda (Emerald Twilight, a queda de Hal Jordan — tá, não é uma história tão boa assim, mas ainda é muito melhor do que os vampiros purpurinados de Stephanie Meyer). E tem os clássicos Crepúsculo dos Deuses (1950), Crepúsculo Sangrento (1943), Crepúsculo Vermelho (1959), Crepúsculo de Uma Raça (1963)… No acervo da Biblioteca Nacional, o número de coletâneas poéticas com o título Crepúsculo é enorme. Uma palavra muito legal, cheia de sentido, mas que hoje provoca reações de nariz torcido para a esmagadora maioria das pessoas que você considera dignas de alguma atenção intelectual.
11518751515_81ea44c22fDesde a saga Crepúsculo, quando os cânones de qualquer coisa são quebrados e se tornam um fenômeno do consumo cultural de massa, dizemos que isso é o crepúsculo da tal coisa. Historiadores gamers não têm dúvida de que Assassin’s Creed se tornou o crepúsculo das sociedades de assassinos e ladrões européias da transição medievo-modernidade. (O jogo é legal, mas tenta explicar pra molecada que aquilo tem tanta fundamentação histórico-científica quanto documentários e livros que afirmam que as pirâmides foram construídos com tecnologia alienígena). Os filmes-solo do Wolverine são o crepúsculo dos super-heróis no cinema (ou só do Wolverine, depende da perspectiva). O crepúsculo de alguma coisa vende milhões, se torna febre entre adolescentes e ofende profundamente quem já gostava e entendia muito do assunto. Cultura-de-massa é assim mesmo: as ondas vêm e vão, deixando maior ou menor estrago, re-escrevem o imaginário coletivo. O mercado tem muito menos apreço pelos fãs antigos e envelhecidos, com gastos mais seletivos, do que pela enorme onda de novos fãs que compram qualquer coisa identificada com a franquia do momento. Se isso exige crepusculizar, que seja.

Abraham_51a03f_1213151

Mas mudanças nos cânones são inevitáveis e, goste você ou não, importantes. São elas que permitem que as franquias de que tanto gostamos continuem existindo. O nosso Batman desagrada quem gostava dele nos anos 60, que também não era mais interessante para quem tinha conhecido o original. Turma da Mônica Jovem destruiu a infância de muita gente, há uma clara relação de ame ou odeie entre fãs mais velhos. Bram Stoker se contorce em desespero no túmulo diante do que os descendentes de seu Drácula se tornaram, mas ele mesmo inseriu uma série de idéias próprias no folclore sobre vampiros. Quando essas mudanças ocorrem, suas opções são: (a) sentir-se traído e abandonar de vez a coisa; (b) entender que a versão nova não é pra você e cultivar a memória do que já foi; (c) desencanar e abraçar a mudança, esperando que as novas estradas tenham uma paisagem agradável; (d) continuar acompanhando só para poder provar que a nova versão é um lixo e que a antiga era perfeita — você pode perder alguns amigos no processo —; ou (e) fazer um esforço e, sem abandonar suas convicções, dar uma chance para a mudança convencer que ela tem mérito.
images

ALERTA DE SPOILER!!!

Quando Agents of SHIELD estreou, muita gente teve certeza de que seria o crepúsculo das séries de espionagem. E isso já seria uma façanha e tanto, dado o número de séries fracas de espionagem que alcançam sucesso. Mas o que tornava AoS tão ruim?

133229_6967r1_pre-710x400Comecemos pelo elenco, cheio de moleques que aqui estariam mais para Malhação do que para a novela das 8 (que não é mais às 8 há muito tempo, mas você entende o que quero dizer — a não ser que você tenha menos de 20 anos). Chloe Bennet (Skye), Elizabeth Henstridge (Simmons) e Iain De Castecker (Fitz) atuam bem, mas suas personagens fazem com que a série tenha uma cara de Barrados no Baile with bullets. Estamos falando de uma equipe de elite da elite da espionagem internacional. Que essa equipe tenha uma dupla de adolescentes-prodígio já é um tanto difícil de engolir. (Tá, não são exatamente adolescentes, mas você também nunca acharia que eles poderiam fazer parte da equipe de segurança de uma festa infantil, quanto menos uma equipe de elite da SHIELD). Que essa equipe recrute uma outra adolescente-prodígio sem treinamento algum, que consegue hackear sistemas de altíssima segurança usando um smartphone ou um laptop comuns e que quer usar os computadores da agência para encontrar os pais é uma forçação de barra das grandes. (Se bem que Item 47 já mostrou que os critérios de seleção da agência são bem amplos).
BRETT DALTON, CLARK GREGG, MING-NA WEN, JAIMIE ALEXANDERO segundo problema era a dificuldade de se perceber a linha da série. A única coisa óbvia era que AoS faria o trabalho de rescaldo dos filmes. Mas qual seria o foco? Ação? Quebra-cabeças? Humanização? Tecnocracia? Tudo junto e misturado, com um toquezinho de tensão romântica para prender o interesse feminino? E qual seria o grau de integração com os filmes? Apenas referências? Amarrar o que tinha ficado solto? Tramas paralelas? Redefinição do que tínhamos visto no cinema? Dar espaço para personagens menores? Introduzir personagens que entrarão em evidência mais tarde no cinema? Tudo junto e misturado e mais uma batelada de easter eggs para prender o interesse dos fanérdicos?
MAOS_Ep9_MayWardHotel_smSem definir quais desses caminhos seriam percorridos, os primeiros episódios foram muito inconsistentes, não só no enredo, mas também na elaboração de personagens. A dupla May (Ming-Na Wen) e Ward (Brett Dalton) é a campeã de inconsistências. Verdade que eles têm sua própria agenda, mas as mudanças de personalidade são muito bruscas. May é fria e calculista o tempo todo, mas não consegue esconder a frustração diante da desconfiança de Coulson (Clark Gregg) e tem problemas com a mãe. Ward é treinado para agir em missões solitárias, mas se mostra extremamente dependente de comando externo. E o que dizer da falsa missão suicida de Ward e Fitz? Victoria Hand (Saffron Burrows) só precisava ter dito a Coulson que sua equipe faria a extração dos dois agentes. Teria um efeito prático muito melhor do que simplesmente deixar todos pensando que eles eram descartáveis para a agência. (Episódio 7, The Hub).

TrainRideThroughItaly1

Mas AoS não é o crepúsculo das séries de espionagem. Também não é um primor, mas conseguiu se mostrar interessante o suficiente para continuar sua existência. A partir de T.R.A.C.K.S. (episódio 13), a série adquiriu uma dinâmica mais definida e tudo o que parecia desconexo começou a ser amarrado, sem dar um ar de que tudo seria resolvido em poucos episódios. (Ainda tivemos que ver Yes Men, episódio 15, um resquício da fase inconsistente da série, mas pelo menos tinha Elena Satine como Lorelei). Ver Skye, a queridinha da série, levar dois tiros foi muito interessante. Embora fosse óbvio que ela não morreria ali — porque é a Marvel e ninguém realmente importante morre tão cedo, nem fica morto por muito tempo —, era inevitável pensar “e se ela morrer?”. A quase morte de Skye nos apresentou uma realidade muito mais dura do que o clima de Scooby-Doo with bullets and no dog que tínhamos até então.

Agents-of-SHIELD-Skye-near-death

image25Outro ponto forte na fase final da série foi o modo como o diálogo com Capitão América 2: O Soldado Invernal foi conduzido. Assisti Turn, Turn, Turn (episódio 17) antes de ver o filme. Os fatos mostrados no episódio ocorrem durante e depois do filme, mas a única coisa revelada sobre o filme é que a SHIELD foi f… dos pés à cabeça. E ver isso me fez correr pro cinema na primeira noite livre que tive. Mais importante, enquanto CA2 mostra o fim da SHIELD como algo simples, que libera Fury, Viúva Negra e, claro, o próprio Capitão para cuidar de suas próprias agendas, AoS dá uma visão mais clara do tamanho do problema causado pela desautorização da maior agência de espionagem do mundo para seu pessoal, bem como da profundidade de suas operações off-grid. Então, quem viu CA2 antes de TTT também não fica com aquela sensação de estar vendo só os desdobramentos óbvios do filme. O filme e a fase final da série podem perfeitamente ser entendidos separadamente, mas também se complementam muito bem sem que as surpresas em ambos sejam anuladas.
agents-of-shiled-what-is-coulson-drawingO que podemos esperar, então, para a próxima temporada? Existem vários ganchos bons: o esquema rabiscado por Garrett e Coulson, o paradeiro do gravitoniun, quem é o pai de Skye, como será a nova SHIELD e de onde ela vai tirar dinheiro… Ok, não vão mostrar de onde vem o dinheiro, mas essa sempre foi uma curiosidade minha: quanta grana é necessária para manter uma organização do tamanho da SHIELD na ilegalidade sem recorrer a fundos ligados ao crime organizado ou terrorismo? O crepúsculo da SHIELD realmente fez jus ao sentido profundo da palavra.

AOS1-e1390120477745

Anúncios

Sobre Quotista

Filipe Makoto Yamakami é historiador, professor, músico amador, twitólatra, monicólatra, etc. E realmente precisa de um emprego que lhe permita pagar as contas. @makotoyamakami
Esse post foi publicado em Quotista e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para O CREPÚSCULO DA S.H.I.E.L.D.

  1. Pingback: A série Gotham vale a pena? | Quadrinheiros

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s