COSPLAY É SOLUÇÃO, SIM!

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039aFantasias (ou cosplay, como dizem os aficcionados) nunca foram muito a minha praia. Vindo de uma família protestante (meu pai é pastor), cresci longe da tradição dos bailes de Carnaval e só usei fantasias para os teatrinhos da igreja ou da escola. As duas únicas vezes em que isso aconteceu fora desses dois contextos foram minha primeira (e única) quadrilha junina (porque todos os alunos da 1.ª série eram obrigados a participar — e eu nem sabia o que era uma quadrilha, porque não tinha feito o jardim nem o pré) e uma festa temática da Turma da Mônica, com um grupo bem fechado de amigos (minha fantasia se resumiu a colocar o manto da Dona Morte — não quis passar tinta branca na cara e nem me preocupei em fazer uma foice). Fora isso, sempre fui o cara sem-graça que recusa convites ou aparece com roupa comum em festas à fantasia.
Todas essas informações pessoais e sem importância servem para que você saiba que não sou um profundo conhecedor do mundo dos cosplayers. Tudo o que percebo sobre eles é uma mistura de estranhamento, fascínio, curiosidade e perplexidade. Para bem e para mal. Não acho que seja falta de imaginação de minha parte — sou desenhista (ruim, mas sou), leitor de quadrinhos, contador de histórias, volta-e-meia me pego imaginando o que faria se tivesse esse ou aquele poder. Apenas temos imaginações diferentes.

023a012aA primeira impressão que tive quando entrei em contato com cosplayers é que se trata de um monte de gente esquisita. Eu partilhava da idéia que já ouvi de muita gente (que se auto-proclama normal) de que cosplayers só podiam ser pessoas sem vida social relevante ou que ainda não saíram da infância. Era estranho e, de certo modo, libertador saber que havia gente mais desajustada do que eu.

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232aEm outro post (ou talvez tenha sido em alguma conversa), mencionei muito en passant que o nerdismo é uma forma de infância repaginada. Franklin disse que a diferença entre um homem e um menino é o preço dos brinquedos. Nietzsche entendia que crianças tratavam brincadeira como coisa séria. Cosplayers são uma combinação de tudo isso: são crianças quando planejam e vivem suas personagens, mas investem tempo, dinheiro e estudo com uma intensidade que só adultos têm condição de fazer.
317aAntes que você comece a pensar que estou falando mal de cosplayers, esse mesmo padrão pode ser encontrado em esportes, Carnaval, arte, gastronomia, festas, bebida, qualquer coisa. Se você pertence à classe média de uma grande cidade, certamente conhece alguém (se não for você mesmo) que se dedica com grande entusiasmo a algo que a maioria das pessoas até considera interessante, divertido, mas de um modo um tanto exagerado e talvez um pouco perturbador. Há aspectos importantes em todas essas atividades genericamente rotuladas como fúteis. Isso também vale para o cosplay.
106aAo longo de séculos, todas as civilizações desenvolveram seus jogos-de-cena. Pessoas foram convidadas por artistas, sacerdotes, líderes políticos, celebridades, etc, a imaginar outras possibilidades de existência, não só do mundo, mas também de si mesmos. Entendia-se que refletir sobre realidades hipotéticas era essencial para que se compreendesse o mundo real. Mais importante ainda, era possível construir um projeto coletivo de manutenção ou transformação da realidade. Em nossa sociedade de consumo/informação, o cosplay cumpre a função de ser uma das várias modalidades do jogo de representações.

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180aOs conservadores, defensores do eruditismo elitista, certamente torceriam o nariz para o que eu disse. (Não vai acontecer porque eles nunca se dariam ao trabalho de perceber a existência deste blog, felizmente). Eles diriam que é absurda a minha tentativa de elevar o cosplay à categoria das belas artes, afinal, você não vê cosplayers provocando profundas reflexões sobre a vida, a natureza humana, o sentido das coisas e tudo o mais. E eles têm uma certa razão. Cosplay não é esse tipo de arte. (Pouca coisa é, inclusive muito do que os eruditos chamam de arte). Não é um discurso sobre as verdades ou possibilidades do mundo real. Isso não significa que seja menos importante.

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Cosplay está mais perto do Carnaval do que das grandes galerias. Refletindo sobre o Carnaval, Cortella disse que está errado quem pensa que um povo que pára tudo pra curtir uma semana inteira dançando é louco. Para ele, louco é o povo que não faz isso, porque o ser humano não é pura razão. Ele precisa de momentos para se dedicar à emoção e à imaginação. Um povo excessivamente sério, que não sabe se dar tempo para o descanso e o lazer, torna-se insensível e incapaz de criar laços de solidariedade cotidiana (pequenos gestos que não me garantem vantagem alguma, mas facilitam a vida dos outros), muito mais importante do que a solidariedade trágica (que só aparece nas grandes calamidades e tem curta duração).
146aO mundo real é duro, brutal, violento. O tempo todo somos pressionados com prazos, competição, metas. Fomos preparados para enfrentar tudo isso desde cedo e, quando chegou nossa vez de entrar na fase adulta do jogo da vida, vimos que ainda não estávamos prontos. Aprendemos na marra. Muitos morreram no desembarque, não chegaram a Omaha. Muitos ainda vão morrer.

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A metáfora da guerra torna as coisas mais pesadas, mas é mais ou menos essa a sensação que temos naqueles momentos de maior pressão e cansaço, quando todo o nosso conhecimento e esforço parecem insuficientes e quando pouca coisa ou nada do que vemos no mundo faz sentido. Afinal, por quê vivemos como vivemos? Qual é o propósito de tudo isso? Como e onde encontrar forças pra continuar? Vale a pena continuar?
026aMomentos de descanso e lazer podem não ser a resposta certa para essas perguntas, mas certamente nos ajudam a encarar o fato de que nem sempre temos uma. Imagine o inferno que seria sua vida sem o happy hour, um bate-e-volta pra praia, uma partida de truco, a pelada do fim-de-semana. Se você é nerd e está na faixa dos 30 anos, você certamente se lamenta por não ter mais tanto tempo para RPG, quadrinhos, games e outras coisas divertidas que até recentemente ocupavam boa parte de sua agenda. Diversão é essencial para que se mantenha a sanidade física e mental, especialmente se fortalece os laços familiares e de amizade. Se na tragédia os laços são postos à prova, na diversão é que eles são construídos.
É verdade que em outro momento já fiz uma crítica dura sobre o modo como a “diversãolatria” tem levado à infantilização da sociedade. Mantenho minha posição: essa necessidade que temos hoje de buscar diversão em tempo integral é extremamente nociva, pois forma uma sociedade234 predisposta a negligenciar responsabilidades, adiar decisões e tentar resolver a vida com improvisos rápidos em vez de soluções duradouras, mas mais demoradas. Mas o extremo oposto — muito trabalho, muita responsabilidade, nenhuma diversão — nos transforma em máquinas. E mesmo as máquinas precisam ser desligadas para evitar o desgaste excessivo. Você não é uma máquina. Não podemos simplesmente descartá-lo quando sua “vida útil” se esgotar. E só dormir não é suficiente para você se recuperar de todo o desgaste sofrido ao longo do seu “tempo produtivo”.

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Cosplayers se divertem a seu modo. Pode não fazer muito sentido ou ter muita graça para muita gente. O importante é que eles se divertem com isso. Para alguns, isso é até um momento de realização pessoal. E quem sou eu pra julgar o que traz realização a alguém? Eu acredito que minha fé em Deus dá propósito à minha vida. Outras pessoas encontram seu propósito no voluntariado, na carreira profissional, na arte, no esporte, na militância política, na passarela do samba… Se uma pessoa acredita que vale a pena investir tanto para viver como suas personagens preferidas por algumas horas, temos mais é que incentivar isso, porque o que ela faz naquele momento é demonstrar de maneira sincera algo que faz parte de sua vida e que o mundo real não permite que se manifeste no cotidiano.
197aHá limites, é claro. Se esse momento de diversão e fantasia ocorre às custas de nossa participação no mundo real, se coloca em risco a integridade física e mental de quem quer que seja — a pessoa em si, mas também sua família, as pessoas com quem se relaciona ou mesmo com estranhos que estejam por perto — e se a capacidade de julgamento do que é certo ou errado é deixada de lado, a coisa virou vício e, portanto, é preciso que haja alguma intervenção externa, talvez até profissional. E isso vale para cosplay, RPG, cerveja, churrasco, chocolate…
O grande erro de quem julga cosplayers como se fossem apenas desocupados e imaturos com dinheiro sobrando (e a maioria nem tem tanto dinheiro assim) é esquecer que diversão é fundamental para a vida. É possível se divertir de maneira produtiva? É, mas isso não significa que simplesmente se dedicar a uma atividade cujo único resultado vai ser uma sensação de bem-estar depois de algumas horas de diversão seja perda de tempo. Não é. Diversão saudável é importante por si só, não precisa de acessórios.
Você trabalha? Consegue pagar suas contas? Tem relações sociais relevantes e responsáveis no mundo real? É capaz de separar a fantasia da realidade? É capaz de viver a fantasia sem representar um risco a si mesmo ou às pessoas em volta? Independentemente do resultado, você se diverte? Isso é o que realmente importa nessas horas. Somos o que somos, mas não há problema em fingir ser outra pessoa (ou coisa) se isso é apenas uma brincadeira passageira.

P.S.: Todas as fotos usadas neste post foram feitas na Jedicon São Paulo 2013, que fortuitamente caiu no Dia das Crianças. Essas e outras fotos estão em nosso álbum no Facebook. Meus agradecimentos a Petra, cosplayer (entre outras coisas) com quem tenho aprendido alguma coisa sobre esse mundo, e Ana Cláudia e Diego, pela conversa na volta da Jedicon que me ajudou a definir alguns aspectos importantes da minha abordagem ao tema.

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Sobre Quotista

Filipe Makoto Yamakami é historiador, professor, músico amador, twitólatra, monicólatra, etc. E realmente precisa de um emprego que lhe permita pagar as contas. @makotoyamakami
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