Godzilla e o imaginário da bomba atômica no Japão

Entenda como Godzilla é a representação da bomba no imaginário japonês.

No período da 2ª Guerra Mundial, bombas atômicas lançadas no sul do Japão, devastaram duas cidades, Hiroshima e Nagasaki. Os japoneses que presenciaram essas explosões nucleares relatam que viram um grande cogumelo surgindo no céu. Era possível ver a silhueta de pessoas que caminhavam pelas ruas e foram registradas nas paredes como um objeto é registrado no negativo de uma máquina fotográfica. Comentavam que o calor foi tão intenso que a pele de algumas pessoas, mesmo distantes do alvo central das bombas, se encontrava derretida. Ainda é possível ver os ferros contorcidos como se fossem finos arames. Essas memórias dos japoneses mostram que o Japão ainda não esqueceu as consequências que uma arma nuclear pode causar e podemos vê-la representada na franquia Godzilla (1954).

Criado por Ishirô Honda, Tomoyuyki Tanaka e Eiji Tsubaraya, seu nome é uma junção de dois animais com forte representatividade de força e poder no cinema e na literatura, o Gorila (ゴリラ gorira em japonês),  simbolizando a destreza na terra; e a Baleia (鯨 kujira em japonês), protagonista do livro Moby Dick que mostra a força na água.

Esse monstro surge para devastar a Terra. Sua aparição é na maior metrópole do Japão, Tóquio, e não nas cidades atingidas pela bomba atômica, Hiroshima e Nagasaki. O motivo talvez se dê pelo fato de Tóquio ser o centro do desenvolvimento tecnológico (também perto do Monte Fuji) e sediar diversas atividades internacionais como as Olimpíadas de 1964 e 2020 e ter a maior concentração de pessoas.

A mutação de Godzilla é causada pelo efeito das bombas atômicas, razão pelo qual ele sente ódio pelos humanos. Porém, em alguns filmes, esse monstro inimigo sente compaixão diante a sociedade nipônica e a ajuda enfrentando os demais mutantes que vão surgindo. Nessa mudança de comportamento de Godzilla é interessante perceber que isso acontece com muitos personagens de mangá, animê, filmes e mesmo na literatura japonesa, em que vilões se tornam amigos dos heróis, fazendo com que tanto os demais personagens quanto o próprio expectador passe a gostar deles.

O que mostra a importância do equilíbrio que existe dentro de cada um, como a filosofia budista do caminho do meio, religião muito cultuada no Japão. A atitude de ser bonzinho ou não, depende de filme para filme do protagonista.  Essa dúvida foi levada ao produtor, Tomoyuyki Tanaka, para tentar saber, afinal, de que lado o monstro está. Em resposta a dúvida, ele disse que compara Godzilla com o “Deus da Destruição”, isto é, a devastação surge para eliminar aquilo que não é bom ou que já sofreu desgaste da humanidade, para deixar renascer/ressurgir o novo.

godzilla-vs-megalon

Megalon e Godzilla

Gigante, violento e pré-histórico, Godzilla possui um corpo colossal revestido de couro resistente para sobreviver ao sopro conhecido como atômico liberado por causa do calor radioativo que é gerado internamente. Essa sua mutação reforça que seu nascimento se deu em consequência das bombas jogadas nas duas cidades japonesas. Ele ainda é capaz de se regenerar, ou seja, se manterá vivo por muitos anos, assim como a memória da bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki para os japoneses.

Dizem que o Godzilla representa o medo de muitos japoneses em relação a bomba atômica e, talvez, isso possa a ser verdadeiro pelo fato de monstros como o Godzilla ainda fazerem sucesso. Mas ele não representa apenas o medo, e sim, a esperança de algo novo e bom que poderá surgir a partir de uma destruição, no caso dos japonese na  2ª Guerra foi o espírito japonês, um sentimento adormecido durante muito tempo, e que, acordou para mostrar o caminho da perseverança de um Japão como nação, não para o mundo, mas sim para os próprios japoneses.

Esse misto de medo com a esperança também pode ser a memória ainda presente naqueles que sobreviveram às bombas, ou mesmo, por estar visivelmente nas ruínas das arquiteturas que os japoneses mantiveram para que sempre fosse lembrado do dia do surgimento do cogumelo no céu, assim como também aceitação da derrota da 2ª Guerra.

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Seja como for, bom ou mal, representando o medo ou esperança, Godzilla é um ícone japonês que agradou o mundo todo.

Sobre Mochi

Atingiu o estado de Olhos Grandes nas ilhas do Oriente Silencioso.
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4 respostas para Godzilla e o imaginário da bomba atômica no Japão

  1. Prof. Lair disse:

    Obrigado pelo texto. Por acaso, hoje trabalhei Hiroshima e Nagasaki em sala de aula. Que pena que eu não conhecia esse aspecto.

  2. Mochi disse:

    IGARASHI, Yushikuni. Corpos da memória: narrativas do pós-guerra na cultura japonesa (1945-1970). 1ª ed. São Paulo: Annablume, 2011.
    MURAKAMI, Takashi. Little Boy: the arts of Japan’s exploding subculture. Nova York: Japan Society, 2005, p. 209-239.
    SHIMMEL, Paul. © Murakami. Nova York: Rizzoli International Publications, 2010, p. 14-39.

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