Convergência de mídias – revolução editorial ou a arte de fazer salsichas?

A DC Comics fez muito barulho com os Novos 52 abrindo um mercado mais consistente de quadrinhos digitais para smartfones, tablets e computadores. Agora é a hora da Marvel rocar e partir para o ataque e parece que teremos grandes mudanças. A convergência de mídias dará o tom dessa nova revolução, mas será que não é muito barulho por nada?

Ao primeiro ministro da Prússia e posterior unificador da Alemanha, Otto Von Bismark (1815 – 1898), se atribui a frase “Os cidadãos não poderiam dormir tranquilos se soubesse como são feitas as leis e as salsichas.”  É assim também nos bastidores de uma corporação como a Marvel Comics.

Sean Howe no seu livro “Marvel Comics the Untold Story” apresenta o outro lado dessa editora, que hoje domina a cultura pop / industria do entretenimento, com seus filmes, games, animações e todo tipo de material licenciado baseado em personagens de histórias em quadrinhos (confiram essa entrevista com ele e o tumblr com imagens e histórias raras).

sean

A guerra pela propriedade intelectual, os baixos salários, as brigas de ego recheiam o livro. Vocês sabiam, por exemplo, que aquelas miniaturas dos personagens que apareciam no canto esquerdo superior das capas dos gibis da Marvel tinha o único propósito de marcar o TM (trade mark/marca registrada) em todos os personagens, edição por edição? Como não dá pra colocar um TM em cada página da edição, era uma maneira de marcar território e dificultar futuros processos judiciais de disputa de patente com ex funcionários ressentidos.

TM

Aliás roteiristas e desenhistas responsáveis pela criação de personagens que rendem milhões de dólares para a editora, ficaram na geladeira por anos, lançando uma edição especial aqui ou aparecendo em uma COMICON ali, sem poder escrever/desenhar histórias para os personagem que eles mesmos criaram, e tudo por causa dos direitos autorais. Pensem no Chris Claremont (que escreveu a Saga da Fênix Negra e Dias de um Futuro Esquecido, entre outras histórias), e em como se critica a qualidade do trabalho dele posterior a longa fase nos X-Men. Os leitores não perdoam histórias ruins, mas nunca levam em consideração as condições de trabalho imposta pelas editoras.

Algumas das criações de Claremont

Algumas das criações de Claremont

Os anos 80 consolidaram o quadrinho de autor, com as grafic novels e as coletâneas de arcos inteiros em formato de livro. Os anos 90 demarcaram o território dos desenhistas estrelas com a Image Comics e as capas variantes, capa poster, de acetato, splash pages, etc. A primeira década desse nosso século trouxe a digitalização em diversas frentes – nas cores, na impressão, nos efeitos de foco e brilho, na pirataria desenfreada. Agora, para combater os scans na mesma logica do iTunes X Napster, parece ser a vez da convergência de mídias, com quadrinhos digitais que são quase animações com efeitos e trilha sonora – Projeto Gamma- e AR (sigla de Realidade Aumentada em inglês) nas edições impressas (com leitura de códigos reconhecidos por webcams no meio da arte), que levarão os leitores a material extra como vídeos com narração dramática, arte original e entrevista com os criadores.

Assim como as capas de acetato dos anos 90, toda essa parafernália digital parece bastante atrativa, mas a pergunta que faço é, será que é isso que o público quer? Ler uma edição impressa (americana) dos X-Men não leva mais do que 10 minutos (se tanto), mas com a tal realidade aumentada isso pode ser multiplicado por 3. Uma coisa é ler uma história como Os Invisíveis (Grant Morrison), ou a Liga Extraordinária (Alan Moore) com realidade aumentada para descobrir todas as referencias no texto e na arte que os autores implantaram em cada quadro (existem sites especializados que listam todas as referencias dessas histórias). Se você quer saber mais e ir mais fundo é porque a narrativa tem muita qualidade e porque o autor tem muita bagagem intelectual, e aí uma leitura estendida fica incrivelmente rica. Mas num quadrinho mensal, que muda de equipe criativa toda hora e que tem que inventar uma polêmica qualquer pra alavancar as vendas, qualquer realidade aumentada vai ser só confete.

No começo pode ser bem bacana como extras de DVD e easter eggs, mas se o conteúdo for raso e o leitor não sentir que está ganhando alguma coisa com toda essa convergência, o mais provável é que perca o encanto rapidamente. A DC Comics ainda esta fazendo ajustes na sua linha de publicações, tentando correr atrás do prejuízo de muitos cancelamentos por causa de vendas baixas de alguns de seus títulos.  A nova estratégia parece ser publicar mais títulos relacionados aos personagens principais da editora com periodicidade mais curta. Edições semanais que vão de encontro à velocidade do nosso mundo digital, mas que vão pressionar roteiristas e desenhistas com prazos mais apertados. Se antes dessa novidade as brigas internas e demissões dentro da DC já eram constantes, como será que as coisas vão ficar?

De novo, enquanto todos se perguntam se esse formato vai ser lucrativo, poucos se preocupam com as condições de trabalho que toda essa reviravolta no mercado vai impor. Ao mesmo Bismark que eu citei acima é atribuída uma outra frase: “Nunca se mente tanto como antes da eleição, durante uma guerra, ou depois de uma caçada”. As grandes editoras estão brigando por novos leitores, tentando nos vender a ideia de que estão todos empolgados, escritores, desenhistas e editores, com as possibilidades das novas mídias e com o status de industria cultural que os quadrinhos tem hoje. A verdade é que a pressão por prazos mais curtos e a necessidade de produzir mais e mais conteúdo relacionado, resultará em baixa qualidade, abrindo mais espaço para quadrinhos independentes. Prevejo mares intranquilos à frente.

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Sobre Picareta Psíquico

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2 respostas para Convergência de mídias – revolução editorial ou a arte de fazer salsichas?

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