HISTÓRIAS SEM FIM (ou “Brasil: o túmulo do gekiga”)

Conheço um número razoável de pessoas que não gosta de quadrinhos seriados por uma série de motivos. Já discutimos antes (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) as implicações da continuidade infinita e não é caso de voltar ao tema. O segundo motivo mais comum é que essas pessoas não gostam de ter que esperar o mês seguinte para continuar a história. E sempre existem aquelas histórias que, embora não sejam infinitas, são esticadas muito além do que deveriam (o camarada Nerdbully dá um ótimo exemplo disso aqui). Questão de preferência pessoal. Mas muito pior — MESMO — do que ter que esperar um mês pela continuação, é ficar sem saber o final da história. Frustração que aqui no Brasil se tornou particularmente comum aos leitores de gekiga (pronuncia-se guekigá, não que isso importe para a maioria), o quadrinho adulto japonês.

Antes de prosseguir, talvez seja necessário fazer uma breve explicação sobre o que é o gekiga. (Se você achar desnecessário, pule ao parágrafo seguinte). Criada pelo cartunista japonês Yoshihiro Tatsumi, gekiga pode ser traduzido como “figuras dramáticas”. Sua intenção era dissociar suas narrativas gráficas do contexto do manga, ou “figuras agitadas” (em tradução muito livre), mais voltada para o público infanto-juvenil. (Escrevi um comentário sobre a cinebiografia do autor no meu blog antigo). Gekiga é o quadrinho adulto japonês, sem que isso signifique, necessariamente, erotismo, ainda que muitas histórias tenham forte conteúdo sexual — mas também violência, drama, política e jamais pornografia (que pertence a outro gênero). A diferença essencial do gekiga está na velocidade narrativa, muito mais centrada em diálogos, pensamentos e construções conceituais, enquanto o manga depende muito de ação, quase sempre frenética. E é essa diferença de velocidade narrativa que explica o fracasso do gekiga no Brasil.
O Brasil era um mercado pequeno para a indústria japonesa de entretenimento até os anos 90 (o mundo inteiro era, na verdade — a língua era uma barreira muito grande). Fora as séries de heróis fantasiados enfrentando monstros de borracha e uma ou outra série de animação, as opções aqui eram escassas. Mas faziam sucesso, tanto que nunca entendi a falta de investimento na ampliação desse mercado aqui. Entre as primeiras transmissões de seriados japoneses e a primeira ofensiva de merchandising mais contundente (que se resumiu à venda de máscaras de plástico de péssima qualidade e fitas VHS) foram algumas décadas. Ainda que a capacidade de consumo do público brasileiro fosse consideravelmente inferior naquele momento, é bastante nítido que as licenciadoras perderam boas oportunidades de negócios no Brasil (mas meus pais certamente economizaram um bom dinheiro pela falta de produtos licenciados decentes como os que eu via nas revistas japonesas).

O sucesso das séries live action abriu espaço para mais séries de animação (ok, é um resumo muito simplista, mas vai ficar por isso mesmo), que experimentaram considerável crescimento de interesse do público brasileiro na passagem dos anos 80 para os 90. Uma vez que boa parte dessas animações tinha origem em quadrinhos, o passo seguinte naturalmente seria a publicação dessas histórias no Brasil. Não foi exatamente isso que aconteceu, mas tentaram algo parecido.
Nos primeiros anos da década de 90, cinco títulos chamaram minha atenção: Lobo Solitário, publicado pela Cedibra e continuado pela Sampa, Crying Freeman, pela Nova Sampa, Mai: A Garota Sensitiva e A Lenda de Kamui, pela Abril, e Akira, publicado na versão internacional colorida pela Globo. Juntos, marcaram a primeira tentativa séria de emplacar quadrinhos japoneses no mercado ocidental. Bem recebidos pela crítica e pelos mercados americano e europeu, não demoraram a ser traduzidos (do inglês) para o português. Tratava-se de uma operação matematicamente simples de se entender: Quadrinhos americanos fazem sucesso no Brasil e quadrinhos japoneses estavam fazendo sucesso nos EUA; logo, quadrinhos japoneses aprovados por americanos também fariam sucesso no Brasil.
E deu tudo errado.
Lobo Solitário e Crying Freeman foram descontinuados e só recentemente foram integralmente publicados, agora pela Panini. Akira ficou meses parado por causa do atraso no trabalho de colorização. Mai e Kamui conseguiram escapar da maldição dos quadrinhos inacabados, mas a experiência não abriu caminho para a publicação de novos títulos. O pequeno grupo de fãs ficaria órfão por alguns anos, até a explosão da segunda onda do manga no Brasil.

Muito mais afinada com a programação da televisão, a segunda onda do manga no Brasil se transformou num verdadeiro tsunami. Ainda sob impacto do fracasso anterior, as grandes editoras demoraram a entender a nova realidade, dando espaço para que as até então desconhecidas do grande público JBC e Conrad praticamente se tornassem as donas desse novo setor do mercado editorial brasileiro.
Dei uma longa volta para chegar ao ponto que eu quero (sim, sou prolixo — acostume-se com isso). Apesar do crescente sucesso do quadrinho japonês no Brasil, a ponto de boa parte da produção tupiniquim ser feita num estilo que tenta se aproximar do manga, a Conrad conseguiu naufragar após acumular uma série de insucessos. As séries Battle Royale, Blade: a Lâmina do ImortalVagabond, Sanctuary, Nausicaä do Vale do Vento e Monster, entre outras, foram descontinuadas. E algumas já muito perto do fim. Não li todos esses títulos, mas gosto muito dos quatro últimos. E, embora seja relativamente fácil continuar a leitura pelos scans, não gosto da idéia de não ter a revista nas mãos.
O erro por trás do fracasso da primeira onda e da Conrad é o mesmo: desconhecimento de mercado.

Encaremos o fato: no Brasil, quadrinhos são considerados um gênero de entretenimento específico para o público infanto-juvenil. Não confunda as coisas! O brasileiro comum não entende que existem vários gêneros de quadrinhos. Ele vê todos os quadrinhos como uma coisa só. Marmanjo que gasta mais tempo lendo gibi do que jornal é visto com desconfiança e desdém pelo grosso da sociedade, mesmo que boa parte dela não leia nem uma coisa nem outra. O nerd é o garoto perdido que nunca foi encontrado por Peter Pan e, por isso, teve que improvisar sua própria Terra do Nunca.
Esperava-se, é claro, que editoras especializadas em quadrinhos não fossem reféns desse paradigma. Alguém poderia argumentar que o fato de tantos títulos de gekiga terem sido introduzidos no Brasil é um sinal claro de que as editoras estão, sim, mirando num público mais adulto e, portanto, não estão presas ao paradigma do quadrinho como coisa de criança. Mas esse argumento se esvazia quando vemos quantos desses títulos foram descontinuados, deixando os leitores reféns dos scans, muitos deles de péssima qualidade.
O primeiro erro foi considerar que os indicadores de venda japoneses, americanos e europeus são gerados pelo mesmo público-padrão de quadrinhos no Brasil. Lá fora, a noção de quadrinhos DE gênero (e não COMO gênero) é uma realidade. Uma pesquisa bem-orientada sobre o público leitor de gekiga no Japão, EUA e Europa poderia gerar uma campanha publicitária mais eficaz no Brasil, anunciando o produto  em veículos que tivessem alcance sobre o verdadeiro público-alvo.
O segundo erro, especificamente da Conrad, foi não entender a diferença entre manga e gekiga. A confusão talvez se explique pelo fato de que, embora tenham estilos narrativos muito diferentes, nem sempre essas histórias são publicadas em revistas separadas, principalmente aquelas que não têm rígidas restrições de idade para leitura. Ou seja, há um bom número de histórias em estilo gekiga que são publicadas nas mesmas listas telefônicas de mangas bastante populares, estratégia que facilita a manutenção das vendas e a transição de leitores pelas várias faixas de idade. Isso não acontece aqui. O público brasileiro consome manga.
O terceiro erro, também específico da Conrad, é decorrente do segundo. Ao não estabelecer a diferença entre manga e gekiga, ela ofereceu a um público adolescente, mais interessado em piadas visuais e ação frenética, um conjunto de histórias em que atenção e envolvimento são essenciais. Não se espera que um leitor de gekiga vá parar a cada três ou quatro páginas para dar risada e comentar a cena com o amiguinho do lado. O gekiga é uma experiência de leitura intimista, enquanto o manga é massa-véio, algo que deve ser compartilhado e alardeado.
Uma outra tentativa de contra-argumentação certamente será mostrar que, embora lentamente, as vendas de gekiga vêm crescendo no Brasil, a ponto de alguns desses títulos descontinuados serem retomados por outras editoras. É verdade. Mas entendo isso como o fruto de um processo natural de envelhecimento do público. Por mais que seja legal, só o massa-véio não sustenta o apetite de um nerd ou otaku mais experiente, que ainda faz algum estrago em rodízio, mas já prefere comer uma comida mais caprichada.

Tudo isso pra dizer um coisa: há uma esperança de que esteja terminando a era das histórias sem fim no mercado brasileiro de quadrinhos. Pelo menos, das que têm final lá fora. As que são totalmente interrompidas, não têm muito jeito, mas pouca gente realmente sente falta dessas.
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Sobre Quotista

Filipe Makoto Yamakami é historiador, professor, músico amador, twitólatra, monicólatra, etc. E realmente precisa de um emprego que lhe permita pagar as contas. @makotoyamakami
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4 respostas para HISTÓRIAS SEM FIM (ou “Brasil: o túmulo do gekiga”)

  1. Luiz André disse:

    Ao ler seu texto, fui automaticamente mandado para o passado, desde os tempos em que a TV brasileira era infestada de séries tokusatsus e super-sentais passando para o momento do boom dos animes em meados dos anos ’90 até chegar a este momento em que o mercado editorial começa a criar alguns nichos que vão além dos mangás ‘massa veio’. Dos muitos mangás que você listou, alguns consegui acompanhar e fico desapontado com o descaso de certas editoras por não ter continuado a publicação ou terminado. O imbróglio da Conrad com a publicação de mangás se tornou um prato cheio para se exemplificar os prós e contras de se trazer mangás que não tenham uma contraparte televisiva para alavancar as vendas. Por outro lado – e aqui, creio que deve-se fazer uma ressalva – o posto que anteriormente era da Conrad atualmente é ocupado pela Panini que, mesmo retomando séries já publicadas e não finalizadas anteriormente por outras editoras como Lobo Solitário e Crying Freeman, ainda traz para o mercado outras séries que se destacaram no Japão e em outros mercados internacionais, como Monster e 20th Century Boys (por sinal, estas séries têm final e já foram planejadas para terem ediçoes bimestrais cada uma, com 18 e 22 edições cada). Da mesma forma que os comics mais adultos e graphic novels começam a encontrar espaço em livrarias e comic shops, o mesmo poderia ocorrer com os mangás daqui a algum tempo. Creio que a palavra de ordem para as editoras que publicam mangás no Brasil é a diversidade, aliado ao fato de saber a que público está ofertando seu produto.

    • Quotista disse:

      Acho que a Panini demorou muito para entender as possibilidades desse mercado, mas tem uma marca muito forte, o que ajudou a compensar esse atraso. E é uma editora mais preparada para trabalhar com mercados diferentes, afinal, ela também trouxe pro Brasil muita coisa de quadrinhos adultos ocidentais. Acredito mesmo que existe essa tendência à formação de um mercado para quadrinhos mais densos e profundos, afinal, estamos todos envelhecendo e não paramos de ler gibis.

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