Meio século de teias

De todos os personagens de quadrinhos maintream, o que provoca a maior empatia com o público (masculino adolescente em grande maioria) é o espetacular Homem Aranha, o amigão da vizinhança. O nerd tímido que ganha super poderes e apesar disso continua perseguido e incompreendido. O cara que sempre se vê diante de situações em que tem que fazer algum tipo de sacrifício pessoal pelo bem maior, mas que encara tudo com bom humor e resignação.

Comecei a acompanhar as histórias do Aranha nas edições formatinho da Abril nos anos 80. O material era publicado na época em dois títulos diferentes – Homem Aranha e Teia do Aranha, e nessas revistas as histórias mostravam dois momentos diferentes do personagem.

A revista Homem Aranha, com histórias de Tom DeFalco, mostrava o herói usando o uniforme negro (que viria a ser o alienígena Venon), o casamento de Peter Parker e Mary Jane Watson, na sequência as histórias desenhadas por Todd Mcfarlane (Spawn), seguido de Erik Larsen (Savage Dragon) e Mark Bagley (Homem Aranha Ultimate).  Essa fase prenunciou os anos 90 com seus desenhistas estrela e uma queda considerável na qualidade das histórias (como o Aranha com poderes cósmicos, com 4 identidades diferentes, cheio de clones, e mais recentemente com o passado apagado pelo capeta).

Na outra revista – Teia do Aranha – as histórias mais antigas, escritas por Roger Stern (e em seguida por Tom DeFalco), e desenhadas por Ron Frenz e John Romita Jr, mostravam o herói com seu uniforme original, flertando com a Gata Negra, enfrentando inimigos como os Osborn (pai e filho), o Rei do Crime e o Rosa (filho do Rei) além do Duende Macabro e Kraven, e encrencado com a policia (Capitão Stacy e Jean deWolff). Os roteiros eram realmente eletrizantes. O mistério envolvendo a identidade do Duende Macabro, com reviravoltas a cada edição, e o ótimo jogo de luz e sombras nos desenhos que aumentavam a tensão, apresentavam Peter Parker como personagem principal das histórias, com sua vida pessoal sempre complicada e demasiadamente humana. Talvez esse seja o grande trunfo dessas histórias que são consideradas até hoje como uma das melhores fases do personagem.

O mais interessante pra mim era ler simultaneamente histórias de momentos cronológicos diferentes do Homem Aranha. Isso fazia com que eu tivesse que montar o quebra cabeças, pescando aqui e ali uma referência a um acontecimento passado, ou um anuncio sutil de uma trama futura. Esse conceito de tempo quebrado (flashback e flashforward de Lost por exemplo), sempre foi muito presente na minha vivência de leitor de quadrinhos, que ia aos sebos pra achar edições antigas pra ligar os pontos.

Essa experiência de leitura detetivesca, as histórias cheias de dramas pessoais, humor, romance e aventura, e um personagem tão honesto e corajoso moldaram meus sonhos na infância. As releituras do personagem como no universo 2099 (com ótimos desenhos de Rick Leonard que desenhou também a fase dos X-Men na Austrália), ou a atualização do Universo Ultimate (com roteiros de Brian Bendis que depois veio a ser o principal criador do universo Marvel), sempre me traziam aquela sensação de nostalgia das histórias da Teia do Aranha da Abril.

Outra característica fundamental que explica o sucesso do personagem é o humor. Claro que Stan Lee, o criador do Homem Aranha e de tantos outros personagens, tem um tipo bem específico de humor que privilegia o alívio comico (como a piadinha infame no meio de uma luta ou de uma perseguição), e que portanto tem um timming forçado. Esse humor é diferente do humor que nós brasileiros mais gostamos, que é o humor de situação cômica (pensem na Turma da Mônica ou no A Praça é Nossa), e que acontece de forma mais fluida. A cultura pop americana de revistas pulp a blockbusters do cinema esta repleta de exemplos desse alívio comico que no caso do araquinídeo funciona muito bem.

O humor fora de lugar é talvez a característica mais marcante do personagem. Alguém tão pressionado pela responsabilidade, tão perseguido e acuado pela opinião pública, precisa de redenção, de transcendência, e isso acontece no comentário humorístico que quebra a narrativa e extravasa a humanidade do herói.

Ainda vão ser feitas muitas histórias boas e ruins com esse personagem, mas bons roteiristas podem fazer você voltar a sentir aquele gosto de infância, e por isso vou acompanhar os próximos 50 anos de teias bem de perto.

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Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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Uma resposta para Meio século de teias

  1. Como todo aracnofã, sou suspeita ao dizer que gosto muito do estilo de humor mencionado das histórias do teioso, acho que ele funciona bem para o personagem mesmo. Foi legal lembrar da “confusão” que era a cronologia diferente de “Homem-Aranha” para “Teia do Aranha”, ainda mais porque como eu comecei a ler as revistas (bem) depois, demorei um pouco para me organizar nas histórias. Depois de ver algumas histórias mencionadas, me lembrei de outras que considero as melhores que já fizeram, como “A Última Caçada de Kraven”, dentre tantas outras clássicas. Apesar de algumas merecerem ser esquecidas, como as que envolvem vários “Peter Parker” na mesma história ou pactos, são tantas histórias boas e desenhistas ótimos que já passaram pela vida do Aranha, que tornam difícil (para não dizer praticamente impossível) abandonar as revistas do personagem.

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