A Divina Comédia

© Carlos Ruas
Sou protestante de berço e, desde o meio da adolescência, de convicção. Verdade que não exatamente um bom protestante (dou minhas mancadas por aí e não vou tentar me defender dizendo “que atire a primeira pedra quem nunca errou” porque seria o cúmulo da hipocrisia de minha parte), mas me esforço. Já tive minha fase careta, liberal, xiita, hipócrita-inconsciente, hipócrita-assumido… No momento, acho que estou em algum ponto entre a resistência e a consciência da necessidade de aperfeiçoamento.
Sabem aquelas piadas das quais morremos de rir quando fazemos de nós mesmos, mas não deixamos que outras pessoas façam? Muitos crentes são assim: irreverentes (e nem sempre no sentido positivo) quando entre si, intransigentes quando com os outros. Digo isso porque cresci ouvindo piadas sobre Deus, Jesus, apóstolos, pastores, etc (a maioria muito ruim, diga-se de passagem). Mas deixa um infiel fazer uma graça que seja! (E algumas até têm fundamento, principalmente aquelas que atacam igrejas). Em outros tempos, seria fogueira na certa. (Se você acha que queimar hereges e dissidentes na fogueira é coisa de católico medieval, talvez precise ler uma coisa ou duas sobre o regime calvinista em Genebra). Fazer cartum, então, é caso para fogueira E afogamento.

Já há algum tempo que sou leitor assíduo do Um Sábado Qualquer, que recentemente saiu da blogosfera para ganhar as prateleiras das livrarias e, espero, estantes de muitas bibliotecas. É inevitável que muitas vezes eu discorde da abordagem que o autor Carlos Ruas faz sobre Deus e é comum eu passar alguns minutos pensando nas implicações de uma ou outra idéia dele sobre Deus e o homem serem verdadeiras. É um exercício teológico-filosófico interessante. Mas sempre me divirto. E, quando acho seguro posso, compartilho. Ruas pode não ser muito indicado para quem quer estudar teologia tradicional a partir dos quadrinhos, mas é uma fonte preciosa e muito divertida para se entender como o brasileiro vê Deus, a fé e tudo o mais.

© Carlos Ruas

A primeira vez que vi alguém que não fosse crente fazendo quadrinhos sobre Deus me causou alguma estranheza. Mas não demorei a me acostumar, até porque era impossível não rir com as sacadas de Laerte. E já que o livreto de tirinhas sobre Deus me foi dado por meu pai (esqueci de dizer que ele é pastor — sim, sou nikkei, protestante, filho de pastor, historiador, torcedor do São José EC e nerd, uma combinação tão improvável que fica até fácil acreditar que o Rob Liefeld tenha fãs), acreditei que não estava cometendo nenhuma blasfêmia. Tanto que comprei os outros volumes da coleção.

© Laerte

Acredito que grande parte das reações mais radicais contra o humor (dizem alguns) anticristão deve-se ao fato de que ele na verdade não é anticristão, mas anticristandade, anticlerical. Evangélicos têm uma grande dificuldade em aceitar que se fale contra suas convicções, suas igrejas, seus costumes e, é claro, seu Deus. E, cultivando a certeza de que só nós estamos certos e todos os outros estão errados (a fé me leva a crer que isso é verdade, embora a honestidade intelectual me force a admitir que podemos estar errados — é por isso que se chama fé), tornam-se incapazes de discernir entre dúvida e ataque, entre crítica e ofensa, entre brincadeira e blasfêmia.
Ou seja, grande parte do problema se deve ao fato de que as pessoas não crêem exatamente em Deus, mas em suas igrejas. Ora, igrejas são instituições humanas e todas as instituições devem ser criticadas, especialmente aquelas que têm o poder de estabelecer uma verdade, seja ela qual for. É essa capacidade crítica que realmente nos protege da escravidão intelectual. E se essa crítica pode ser feita de maneira bem-humorada, melhor ainda. (Criticar não é, necessariamente, apontar defeitos. Se você quer entender o que é crítica e como ela se relaciona à fé, recomendo Kant e Kierkegaard).

Henfil (alguém sabe de quem são os direitos da obra dele?)

Se você é crente e ainda não mudou de página nem convocou todos os irmãos de sua igreja a mandar comentários me condenando por este post ou para uma sessão virtual de apedrejamento, quero convidá-lo a pensar em três coisas. A primeira é que, se toda a brincadeira, como diz o provérbio, tem 90% de verdade, a brincadeira crítica tem muito mais e talvez seja bom pensar se não a merecemos. A segunda é que Deus seria muito pouco onisciente se não soubesse quando uma piada é uma ofensa a ele e quando é apenas uma piada (pense em todas peças que você já pregou em seu melhor amigo, por exemplo). A terceira é que Deus tem um senso de humor muito apurado, superior a qualquer coisa que podemos imaginar, ou ele não teria criado o ornitorrinco.

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Sobre Quotista

Filipe Makoto Yamakami é historiador, professor, músico amador, twitólatra, monicólatra, etc. E realmente precisa de um emprego que lhe permita pagar as contas. @makotoyamakami
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4 respostas para A Divina Comédia

  1. Pingback: As 20 mais sensuais dos Quadrinhos: o apelo àquele adolescente que te habita | Quadrinheiros

  2. Rogerio Andrade disse:

    Nao se sinta só, Filipe. O pastor de minha igreja (Ig. Cristã da Familia) é filho de japoneses, militar, casado com uma baiana, detesta futebol, tem um filho que dança break…. hehehehe.
    Eu já pensei bastante sobre essa questao do porque das pessoas se ofenderem tanto quando sua fé é tratada de forma debochada ou ridicularizada e, sinceramente, nao consigo chegar numa conclusao.
    Percebo que muitos cristaos se ofendem com obras de ficçao como “O código da Vinci” ou piadinhas sobre Jesus porque a fé se torna uma parte tão integral de sua personalidade que é como se o autor da obra estivesse ofendendo a propria pessoa. Mas essa também é uma reaçao de um torcedor fanatico de futebol quando alguem fala mal do “seu” time, ou de um diretor de bateria de escola de samba quando um roqueiro fala mal do ritmo nacional.
    Por outro lado, também conheço pessoas, como eu mesmo, que realmente nao se importam com tais coisas. Li “O codigo da vinci” e nao vi nada demais do que uma razoavel historia de ficçao, mas nada que viesse de alguma forma a ofender minhas convicçoes de fé. Vejo essas obras como meras peças culturais e nada mais.
    Grande abraço,

  3. Pingback: Melhores posts até agora – 2 anos de Quadrinheiros | Quadrinheiros

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