A Genealogia de Reino do Amanhã: O Manifesto de Mark Waid sobre a Evolução dos Super-Heróis

Descubra como Reino do Amanhã nasceu como uma reação visceral contra heróis que não respeitavam a vida humana, buscando devolver ao Superman o papel de guia moral da humanidade.

O que você vai ler a seguir é a transcrição e tradução (feita por mim) do vídeo abaixo, onde Mark Waid resume a história dos quadrinhos de super-heróis mainstream dos Estados Unidos e como toda essa história culminou no que é, na minha opinião, a melhor história do gênero superaventura já feita: Reino do Amanhã.

Dito isso, o texto:

Mark Waid Explica as Eras dos Quadrinhos que Levaram a “Reino do Amanhã”

A história desses personagens remonta a 1938, muito antes de qualquer um de nós ter nascido. Esses heróis foram gigantes nos anos 40: Batman, Superman e Mulher-Maravilha eram imensamente populares entre crianças de todo o mundo.

Com a chegada dos anos 50 e a ascensão da televisão, os super-heróis acabaram caindo no esquecimento por um tempo. Naquela época, o público preferia gêneros como faroeste, guerra e as histórias de detetive que viam na TV. Quando a televisão se tornou o principal meio de comunicação do país, as vendas de gibis despencaram. Além disso, com o fim da Segunda Guerra Mundial, não havia mais soldados no exterior consumindo essas revistas. Curiosamente, os únicos super-heróis que continuaram a crescer e a serem publicados ininterruptamente nesse período foram o Superman, o Batman e a Mulher-Maravilha — todos da DC. Eles claramente tinham um poder de permanência diferenciado.

O Renascimento e a Era Marvel

Entre o final dos anos 50 e o início dos 60, houve um novo fôlego para as revistas de super-heróis. A DC trouxe de volta vários conceitos da época da guerra, criando novas versões de personagens como o Flash e o Lanterna Verde. Esse período marcou um renascimento que gerou um novo interesse nos fãs e fez com que os jovens voltassem a comprar quadrinhos de heróis.

Esse movimento impulsionou Stan Lee e Jack Kirby na Marvel, levando à criação do Quarteto Fantástico e, posteriormente, do Homem-Aranha, com Steve Ditko. Nascia ali a “Era Marvel”, colocando os quadrinhos novamente no radar de todos. Stan Lee tornou-se o embaixador do meio para o mundo, agindo como um verdadeiro mestre do espetáculo, percorrendo universidades e elevando as HQs ao status de cultura pop. Em 1966, a série de TV do Batman estreou e tudo explodiu; os super-heróis tornaram-se o maior fenômeno global daquele momento. O impacto foi comparável ao que vemos com os filmes da Marvel hoje.

No entanto, enquanto a popularidade da Marvel foi duradoura, a febre dos super-heróis nos anos 60 acabou se revelando um modismo passageiro. E, como acontece com todo modismo, quando ele morre, morre de forma abrupta. Por volta de 1968 e 1969, as vendas de todos os títulos de super-heróis despencaram novamente.

Ícones vs. Pessoas

Nesse cenário de queda, a DC seguiu estagnada com seu trio principal. Enquanto isso, a Marvel conseguia manter a relevância porque seus heróis eram personagens com os quais as pessoas se importavam. Todos amavam o Homem-Aranha e o Quarteto Fantástico porque eles eram, antes de tudo, pessoas. O grande mérito de Stan, Jack e Steve foi pegar esses super-heróis — que são basicamente ícones e deuses entre os homens — e dar a eles um toque pessoal, focando nas histórias dos seres humanos por trás dos uniformes.

Entre o final dos anos 60 e o início dos 70, os leitores se voltaram para isso. A DC, por outro lado, continuava lutando, pois focava demais na iconografia. Seus personagens eram vistos como datados e “velhos”. O Superman, em particular, enfrentava dificuldades; enquanto o Homem-Aranha lidava com problemas reais — como pagar o aluguel ou cuidar de uma tia idosa —, o maior dilema do Superman era como ampliar a cidade engarrafada de Kandor. Não era algo com que o leitor pudesse se identificar.

O Divisor de Águas de 1986

O ano de 1986 foi um divisor de águas para a mídia. Tivemos o lançamento de Watchmen, Cavaleiro das Trevas e Maus entre 1985 e 1986. Foi, sem dúvida, o ano mais importante para os quadrinhos desde a criação do Superman em 1938, pois a mensagem mudou: quadrinhos não eram mais apenas para crianças, mas também para adultos.

As pessoas voltaram a ler Batman e prestaram atenção em Watchmen pela qualidade da obra, não apenas por ser uma história de herói. Houve um movimento massivo em direção a um público mais velho, o que é ótimo, embora leitores adultos tendam a querer que os personagens envelheçam com eles. Eu entendo o desejo de não ler as mesmas histórias da infância, mas não sei se esses personagens são tão elásticos a ponto de crescerem até os 40 ou 50 anos. Não esperamos que o Bart Simpson ou o George, o Curioso, cresçam; eles são ícones.

A Era Sombria e o Nascimento de “Reino do Amanhã”

Apesar disso, as editoras correram para atender a essa demanda por super-heróis mais “adultos”, o que na América muitas vezes se traduziu apenas em mais violência. Esse apetite por interpretações mais sombrias cresceu desenfreadamente entre o final dos anos 80 e o início dos 90.

Alex Ross e eu, sem nos conhecermos na época, olhávamos para aquilo horrorizados. Entendíamos que havia espaço para um Superman mais denso ou para o Cavaleiro das Trevas, mas nem tudo precisava seguir esse caminho. As histórias não precisavam ser apenas celebrações da violência, da raiva e do sangue. Tornou-se uma competição entre criativos para ver quem desenhava o Batman mais assustador ou quem fazia a Mulher-Maravilha decapitar alguém com as mãos.

Nesse contexto, a Image Comics surgiu com artistas jovens vindos da Marvel e da DC que não queriam seguir regras; eles queriam ser mais gráficos e “adultos”. Isso se tornou o padrão do início dos anos 90. Eu acredito que haja público para isso, mas Alex e eu sentíamos que aqueles não eram o Superman, o Batman ou a Mulher-Maravilha que conhecíamos. Eram versões extremas que pareciam erradas para nós.

Quando finalmente nos sentamos para conversar sobre Reino do Amanhã (Kingdom Come), ambos focamos nessa nossa antipatia pelo estilo da época. A história tornou-se uma reação direta a isso. Em essência, os personagens de Reino do Amanhã agem como os personagens da Image Comics da vida real: eles lutam sem respeito pela vida humana, focando apenas em quem tem as maiores armas e as maiores explosões. O cerne da história é: o que o Superman pode fazer para retomar as rédeas da humanidade e guiar o navio em uma direção mais moral e ética?.

Se você quiser saber mais sobre as Eras nos quadrinhos de super-heróis, conheça nosso livro:

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About Nerdbully

AKA Bruno Andreotti; Historiador e Mestre do Zen Nerdismo
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