Nazismo e comunismo na Marvel

nazismo comunismo marvel capa

Sobre o Nazismo ser irmão do Comunismo, o direito de ser racista e outras ideias que circularam no Flow e na Marvel Comics.

Por Arthur Gibson*

As recentes declarações de Monark e Kim Kataguiri no podcast Flow causaram polêmicas e discussões que tomaram não apenas as redes sociais mas também a grande imprensa. Basicamente, o deputado e o apresentador defenderam o direito de existência de um partido nazista no Brasil como culminância do direito de pessoas racistas expressarem seus preconceitos livremente. Ainda, disseram que uma vez que a defesa do comunismo é legal no país o mesmo deveria ser garantido aos nazistas.

As ideias defendidas no podcast, contudo, não são novidades criadas pelo despreparo de Kim Kataguiri e Monark. São ideologias que circulam há muito tempo e que são fundamentais na sociedade norte-americana. Fizeram e fazem parte do senso comum estadunidense e podem ser encontradas não apenas em decisões judiciais e debates legislativos, mas também em produtos da cultura pop.

Como pesquisamos quadrinhos vamos pegar carona nesta polêmica e fazer uma conexão entre as opiniões expressas no Flow e posicionamentos políticos similares que existiam em revistas da Marvel Comics. Estamos falando de duas ideias básicas: 1) A liberdade de expressão e organização deve ser absoluta, inclusive para organizações racistas e nazistas; e 2) Comunismo e Nazismo são doutrinas equivalentes.

Para isso vamos analisar as revistas Avengers #32 e #33 (1966), escritas por Stan Lee e desenhadas por Don Heck, que marcam a estreia do grupo de vilões Filhos da Serpente. Este grupo mimetiza a Ku Klux Klan: usam túnicas, queimam cruzes, são racistas, xenófobos e supremacistas.

avengers 32 33 filhos da serpente 1966

Os Filhos da Serpente, por suas ações terroristas, são sempre posicionados como os antagonistas, sendo combatidos pelos heróis. Ao longo do arco em questão, contudo, são inseridos diálogos que visam legitimar a existência do grupo. Eles teriam o direito de existir e pregar o racismo e a xenofobia, desde que pacificamente.

Em uma das vinhetas, durante um discurso público dos Filhos da Serpente, um diálogo na plateia nos leva a concluir: em um país livre grupos racistas têm o direito de se manifestar, não importa quão loucas ou perigosas sejam suas ideias. Em outro momento a mesma posição é defendida por um representante do governo americano. E, por fim, no encerramento da história, o Capitão América diz que permitir que grupos supremacistas se expressem é um ato de coragem e a própria essência da nação.

avengers 32 33 1966 fala do capitao america

Na história cabe a um líder comunista estrangeiro o papel de denunciar a permissividade americana com o supremacismo branco. O General Chen é o líder de uma nação “oriental” hostil que vai à Nova York participar da Assembleia Geral da ONU. Nos anos 1960 era comum taxar de “comunistas” aqueles críticos ao sistema e às ideologias americanas. As lideranças negras do país, por exemplo, já eram taxadas de comunistas há anos por sua denúncia e combate ao racismo.

O general Chen chama a democracia americana de fraude por permitir grupos de ódio, e ameaça denunciar o país na ONU. A atuação de Chen nas Nações Unidas, denunciando os EUA em seu próprio solo, parece relembrar a passagem de Fidel Castro pelo país em 1961. Castro se hospedou no bairro negro do Harlem em um período em que a luta pelos direitos civis se conectava às lutas do “Terceiro Mundo” por libertação. A denúncia da democracia americana como hipócrita, que Chen expressa, era um tipo de discurso comum tanto entre esquerdistas quanto entre lideranças negras como Malcolm X. Em um trecho da história Chen questiona “como pode os EUA serem a ‘terra da liberdade’ se permitem grupos do ódio?”. Para o governo americano no quadrinho isto é “parte da liberdade”.

avengers 32 33 1966 mr chen

Ao final da história é revelado que o General Chen era na verdade o líder oculto dos Filhos da Serpente. O supremacismo branco, que tem raízes profundas na fundação e construção dos EUA, aparece então como sendo causado pelo inimigo externo. A narrativa produz um curioso amálgama entre supremacismo branco e comunismo de modo a apontar a ambos como partes do mesmo problema: a tentativa de dividir a sociedade americana e enfraquecer suas instituições. Assim, o real perigo do racismo e do supremacismo branco não é exatamente a opressão às populações subalternas, mas a possibilidade de ameaçar o status quo.

avengers 32 33 terra da liberdade

Deste modo, um possível resumo dos posicionamentos políticos deste arco narrativo seria: 1) Os grupos de ódio são parte da democracia e seu direito de expressão deve ser preservado; 2) Comunismo e Supremacismo Branco são faces de uma mesma moeda; e 3) Desconfie de quem critica o governo, as instituições e os valores americanos.

As ideias que Stan Lee e Don Heck constroem neste arco se assemelham, portanto, às mesmas ideias que Monark e Kim Kataguiri resolveram importar para o Brasil durante o contexto de guinada à direita que o país vivenciou nos últimos anos. São ideologias que hoje se aprende no Brasil por meio de youtubers, astrólogos e influencers em geral, mas que no passado circulavam também em histórias em quadrinhos como parte da disputa por reafirmar valores e ideologias dominantes em tempos de questionamento, efervescência política e crise na sociedade americana.

*Arthur Gibson é professor e historiador. Escreve sobre história, política e cultura pop no Instagram @arthur.gibson

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4 respostas para Nazismo e comunismo na Marvel

  1. Pablo disse:

    Eu não vejo nenhum lado positivo com esse texto, a não ser validar o que foi dito no podcast. O que por si só já é ruim o bastante.
    Mas além disso, fico pensando em qual foi o real objetivo de fazer essa relação. Porque qualquer um sabe que a maioria gritante de nerds é inclinada para o conservadorismo e muitos defendem essas ideias. Saber que personagens que eles acompanham – como o Capitão América – pensa como eles deve ser reconfortante.
    A ignorância não pode ser ovacionada e o ódio não pode ser tido como “liberdade de expressão”. Você é livre para falar o que bem entender até certo ponto, existem crimes. Senão não precisaríamos de advogados, juízes, todo mundo poderia bater na tecla da liberdade e sair impune. “Ei, eu não posso ser preso, só estava usando minha liberdade como ser humano para atirar e matar aquela pessoa”. Pra mim, soa equivalente a quem quer usar “liberdade de expressão” como argumento para cometer crimes.
    É cômico como a pessoa que defende esses ideiais se veem como vítimas da sociedade. Não são! E temos que lutar para que elas não sejam legitimadas e passem a se denominar minoria, pelo simples fato de que vão contra o bom senso – é difícil achar palavras, pra mim é algo tão básico, mas vamos dizer que é bom senso.
    O quadrinho diz que um país livre tem que dar direito a grupos de ódio e eu me pergunto que mensagem eles queriam passar com isso. Minhas teorias são muitas, umas mais profundas que outras, mas com certeza não havia nenhum pensamento coletivo quando o criaram, presumo que fosse só o egoísmo. Talvez estivessem cansados de grupos minoritários levantando a voz, assim como acontece hoje em dia. Talvez. Nunca saberemos.
    Mas o fato é que qualquer pessoa com o mínimo de bom senso (novamente, não sei que expressão usar) sabe que um partido nazista é uma coisa monstruosa. É como cuspir no túmulo de todas as pessoas que morreram em decorrência desse movimento. Não há alguém que possa me fazer entender como alguém defende isso e não seja de fato nazista.
    O que acho que não era o caso de quem escreveu o quadrinho. Pra mim os motivos são outros. Todos péssimos, sim, mas não tão radicais.
    Eu caí de paraquedas nesse site/texto, não costumo acompanhar, mas espero que quem cria um texto como esse, que deve ter levado muito tempo e pesquisa, também faça o mesmo com outros tipos de assuntos que são abordados nas HQs. Ainda mais hoje em dia, com uma diversidade maior de pessoas responsáveis pelas histórias.
    É importante ver o contexto e tentar entender o que aquele quadrinho queria passar com aquela mensagem.

    • Nerdbully disse:

      Ola, Pablo.

      Obrigado pela leitura.

      Não entendo o texto como uma validação do que foi dito no podcast (se fosse o caso, jamais o teríamos publicado), mas o texto mostra como as ideias do Monark e do Kim Kataguiri encontram raízes anteriores. Fato que há nerds que se inclinam para o conservadorismo, mas não diria que são “maioria gigante”. Nerds existem de todo o espectro político.

      Vamos lembrar que a hq foi produzida na década de 60 nos Estados Unidos e é um retrato daquela época, ainda que a discussão feita possa de alguma forma nos ajudar a pensar nos dias de hoje.

      Resumindo, o que nos Estados Unidos na década de 60 foi considerado liberdade de expressão, nós, no Brasil de 2022, entendemos como um crime, como um justo cerceamento da liberdade de expressão.

      O preceito fundamental da liberdade de expressão não consagra o ‘direito à incitação do racismo’, dado que um direito individual não pode constituir-se em salvaguarda de condutas ilícitas, como sucede com os direitos contra a honra”, escreveu o ministro Maurício Correa.

      Citação dessa matéria aqui: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-60353371

      E as falas do Monark e do Kim Kataguiri mostram que eles pegam o que a sociedade americana entende (ou entendia) por liberdade de expressão e fazem a simples transposição para o Brasil, sem levar em conta nosso contexto, nossos problemas etc.

      No mais, o convido a dar uma olhada e conhecer melhor nosso conteúdo. Tenho certeza de que vai gostar.

      Abraço.

      • Pablo disse:

        Olá.
        Venho me redimir pelo meu comentário porque realmente interpretei muito equivocadamente o texto (e acabei fazendo suposições indevidas). Decidi conhecer o conteúdo de vocês começando a ouvir o Podcast e me surpreendi – positivamente falando.
        Pois é, errei. Acho que por receio e por ter tido experiências ruins quando o assunto é política no mundo nerd, entendi que o texto era uma validação da atrocidade que foi dita.
        Mas enfim, que bom que podemos aprender e evoluir não é mesmo. Espero não fazer julgamentos com base só em memórias negativas que eu tenho, mas sim conhecendo mais a fundo os emissores daqui pra frente.
        Agradeço a resposta, muito cordial e respeitosa, e quero dizer que vocês ganharam mais um leitor e ouvinte do Podcast. 🙂

      • Nerdbully disse:

        Ola, Pablo. Poxa, fico muito feliz em ler essas palavras. Grande abraço.

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