A Marcha – quadrinhos, ativismo e legado

A Marcha John LewisA vida do deputado estadual John Lewis e sua atuação no movimento pelos direitos civis nos EUA nos anos 1960 são um exemplo da importancia dos quadrinhos e da cultura pop!


A história do povo negro nos EUA é conhecida no mundo todo especialmente por meio da cultura pop. Filmes, documentários, séries de TV que ao longo do século XX e XXI serviram de entretenimento para pessoas de todas as culturas e nacionalidades contaram e recontaram a saga desses homens e mulheres, suas lutas e seus sofrimentos. Inclusive o Oscar desse ano tem vários filmes assim, depois de muita pressão sobre a indústria para dar mais espaço para filmes escritos, dirigidos e protagonizados por mulheres e por pessoas negras. Os 7 de Chicago, A Voz Suprema do Blues, Judas e o Messias Negro, Uma Noite em Miami e Os Estados Unidos versus Billie Holliday – todos filmes se passam entre os anos de 1930 e o final da década de 1960, exatamente o mesmo período retratado na maior parte de A Marcha.

São quase 40 anos de história que vão desde a popularização da cultura negra, especialmente a música, através das mídias de massa (os discos de vinil e o rádio), ao ápice da luta política pelo fim da segregação institucionalizada e pela participação democrática (o acesso ao voto), até o silenciamento (assassinato) de seus principais lideres. Em A Marcha, o senador John Lewis conta a sua tragetória pessoal por esses altos e baixos, com a ajuda de Andrew Aydin (roteiro) e Nate Powell (arte).

John Lewis, o estudante, se envolveu com o movimento pelos direitos civis e foi um dos líderes desse momento fundamental da história dos Estados Unidos. Foi também testemunha das mortes de Martin Luther King Jr., Malcon X, Sam Cook e Fred Hampton (pra citar alguns dos lideres assassinados que aparecem nos filmes citados acima).

Em 1957, quando Lewis tinha 17 anos, a Fellowship of Reconciliation, uma organização interreligiosa para promoção da paz e da justiça (fundada em 1915), publicou uma história em quadrinhos – Martin Luther King and the Montgomery Story. A publicação mostrava os boicotes aos ônibus na cidade de Montgomery (Alabama), que começaram com Rosa Parks se recusando a dar seu lugar para um homem branco, e terminaram com o fim da segregação no transporte público da cidade.

Essa história em quadrinhos reapareceu nas redes sociais em 2006, depois de ter sido praticamente esquecida. Em 2012 o estudante Andrew Aydin escreveu seu trabalho de conclusão de curso sobre essa história em quadrinhos, fazendo um resgate histórico da publicação e do impacto que ela causou em vários jovens ativistas no final da década de 1950. Andrew foi trabalhar no Capitólio como assitente do senador John Lewis e por causa desse trabalho acadêmico ele convenceu senador a usar a mesma mídia para mostrar o seu ponto de vista sobre aqueles anos.

Policiais e membros da KKK ateiam fogo ao ônibus dos ativistas no meio da estrada.

São 3 edições (aqui no Brasil a editora Nemo já publicou as duas primeiras e está prometendo a última parte para o primeiro semenstre de 2021). Nas páginas de A Marcha vemos a vida de Lewis e os fatos históricos entrecortados pela participação do senador na posse do presidente Barack Obama, em janeiro de 2009. O grande mérito da narrativa são os detalhes que só alguém que esteve lá poderia saber. Os diálogos dos ativistas na prisão enquanto os policiais os ameaçavam de tirar os colchões e as escovas de dente, o debate sobre que palavras usar ou não no discurso de Lewis durante a Marcha para Washington, o desgaste com sua própria família devido às escolhas que ele fez. Dá pra sentir a angústia a cada decisão difícil diante da consciência de estar vivendo um tempo tão importante.

John Lewis morreu em 2020, no auge do governo Trump, mas seu legado, imortalizado também nessa história em quadrinhos, é grandioso. A luta pela igualdade que o povo negro trava nos Estados Unidos está muito longe do seu fim. O mais recente movimento dessa luta foi a condenação do policial que matou George Floyd, mas o periodo de tempo que durou seu julgamento foi marcado pelo assassinato de outros cidadão negros pelas mãos da polícia. Tudo isso faz de A Marcha um relato extremamente atual e necessário.

E antes de encerrar esse texto e de recomendar fortemente que todos leiam A Marcha, eu quero sugerir dois aprofundamentos e uma reflexão:

Leiam também A Autobiografia de Martin Luther King. É um livro de 1998, organizado pelo historiador Clayborne Carson, que colocou em ordem cronológica diferentes escritos do Dr. King. Acompanhar os mesmos eventos pelo olhar mais maduro de King e pela juventude de Lewis (em A Marcha) é muito enriquecedor.

Assistam o documentário o EUA: A Luta pela Liberdade (Amend: the fight for America), no Netflix. Fala sobre a 14ª Emenda do Constituição dos Estados Unidos que define quem é cidadão do país, e a luta juridica para fazer essa lei valer num país profundamente segregado.

Minha reflexão final é sobre quadrinhos de super-heróis, que é nosso tema principal aqui no blog. São nesses mesmos 40 anos que nasceram os super-heróis (Era de Ouro), que suas aventuras chegaram ao ápice durante a Segunda Guerra, que esse gênero quase desapareceu depois da guerra, e que as superaventuras renasceram (Era de Prata).

Os roteiristas e desenhistas de histórias em quadrinhos dos anos 30, 40, 50 e 60 estavam imersos nesse caldo político e cultural complexo que A Marcha e os filmes do Oscar de 2021 nos mostram. As histórias que eles escreveram e os personagens que eles criaram, dialogavam com o contexto no qual eles estavam inseridos. Por isso é impossível debater histórias em quadrinhos de super-heróis (especialmente as produzidas pela Marvel e pela DC Comics), sem saber sobre a história política e social dos Estados Unidos. Falei mais sobre isso nesse episódio do nosso podcast:

Seja no caso da pressão para mais espaço no Oscar para filmes feitos por pessoas negras, ou no caso do resgate histórico do quadrinho sobre o boicote aos ônibus em Montgomery, a visibilidade que a cultura pop proporciona é essencial para compreendermos a complexidade do mundo em que vivemos. Quanto mais vozes, mais próximos da justiça e da paz nós estaremos. Leiam A Marcha e se deixem influenciar pelo sonho de que um outro mundo é possível.

Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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