O Kung Fu de Shang-Chi, Bruce Lee e Ip Man

Chang-Shi Kung FuDe olho no rentável mercado chinês a Marvel aposta em Shang-Chi e o Kung Fu pode ser a ponte entre o ocidente e o oriente.

Shang-Chi é um personagem concebido em 1972 quando a Marvel comprou os direitos da obra pulp do escritor inglês Sax Rohmer, famoso pela série de livros sobre o  vilão/mestre do crime, Dr. Fu Manchu (uma visão bem estereotipada dos orientais). Nos quadrinhos Shang-Chi passou a ser um filho desconhecido desse vilão que rapidamente se volta contra os malfeitos do pai. A intenção original da Marvel, que não teve sucesso, era comprar os direitos da série de TV Kung Fu (1972 – 1975) estrelada por David Carradine. Sobre essa série existem dúvidas em relação à autoria. Bruce Lee havia apresentado para a Warner Bros a premissa de uma série (Warrior) que foi recusada. Um ano depois estreou Kung Fu com basicamente o mesmo roteiro. Vale fazer aqui um adendo – a filha de Lee e o diretor Justin Li produziram para o canal Cinemax a série Warrior que estreou no primeiro semestre de 2019.

Ainda que a adaptação da série de TV de Carradine em quadrinhos não tenha decolado, o sucesso dos filmes de Bruce Lee (produzidos em Hong Kong) motivaram a Marvel a criar o personagem Shang-Chi.

Chang-Shi 1974

Arte de Paul Gulacy

Mas Bruce Lee morreu em 1973, aos 32 anos, antes de finalizar seu primeiro filme produzido nos Estados Unidos – Operação Dragão (Enter the Dragon). Meses depois da morte de Lee a primeira aparição de Shang-Chi foi publicada na revista Special Marvel Edition #15. Duas edições depois o título da revista mudou e passou a abrigar a série regular do personagem. O desenhista Paul Gulacy, responsável pela da maior parte da arte desse título, foi aos poucos aproximando a aparência de Shang-Chi à figura de Bruce Lee. Mas a história das publicações do personagem é errática. A última história solo é de 2017. Um ponto alto que vale mencionar é a publicação de 2015, durante os eventos da saga Guerras Secretas que comprimiu o universo Marvel em um Mundo de Batalha com diversos cenários. O título do Mestre do Kung Fu apresentava versões do Punho de Ferro, Elektra, Calixto, Noturno, Kity Pride, entre outros, e foi dedicada a Bruce Lee pela equipe criativa.

Shang-Chi Guerras Secretas

Battleword – Master of Kung Fu de 2015

Agora a Marvel acelerou a produção do filme do personagem e o público está esperando outro Pantera Negra, um filme sobre representatividade e identidade. Mas a guerra comercial entre Estados Unidos e China e os conflitos entre a população civil e o governo de Hong Kong podem adicionar ainda mais camadas a essa narrativa. E por mais político que o filme possa vir a ser, a essência tanto do personagem quanto de todo o contexto que influenciou a sua criação é a mesma: o Kung Fu e o conceito de combate.

O grão-mestre Leo Imamura é um brasileiro que aprendeu Kung Fu com o mesmo clã que ensinou Bruce Lee e que tem sua origem no patriarca Ip Man. No seu canal Kung Fu Life ele aprofunda o conceito de arte marcial, fala sobre as peculiaridades do estilo Wing Chun (Ving Tsun), da base neo-confucionista e das influências do budismo e do taoísmo no pensamento chinês. Nos vídeos ele apresenta cenas de filmes como a luta entre Bruce Lee e Chuck Norris (em Way of the Dragon – 1972), e nos explica a razão simbólica para a escolha de cada movimento do combate coreografado (combate simbólico). Essa abordagem nos ajuda a entender ideias que parecem paradoxais como aprender a lutar para não lutar, ou de que a vitória é ofertada pelo adversário – que são lugares comuns na forma como a cultura pop retrata o pensamento oriental.

O patriarca Ip Man – lendário mestre de Wing Chun que enfrentou os japoneses que invadiram a China na II Guerra Mundial e depois enfrentou os ingleses que dominavam Hong Kong (onde ele se refugiou com sua família) – era o herdeiro de uma tradição peculiar. O estilo Wing Chun foi desenvolvido por uma mulher – Yin Ving Tsun. Na perspectiva Kung Fu (como nos ensina o Sifu Leo Imamura) não é relevante saber se essa personagem de fato existiu ou se ela é apenas uma lenda. O importante é entender o simbolismo que atribui características femininas a um estilo de combate que tem ressonância em escritos como os 4 Cânones do Imperador Amarelo e a Arte da Guerra de Sun Tsu, que respectivamente apresentaram e consolidaram o conceito de feminilização da guerra (lembrando que não se trata de gênero feminino e que tais características são as que a cultura chinesa atribuiu ao feminino).

Outra abordagem interessante é a do professor de filosofia Peimin Ni, da Grand Valley State University em Michigan nos Estados Unidos, que compara a filosofia ocidental e a oriental a partir do conceito de Kung Fu. Ele entende que a racionalidade e a formulação dos pensamento em palavras, forte característica do modo ocidental de busca da Verdade, tem no oriente outro caminho. Através da prática (fazer / viver) e da constante busca por refinar essa prática, se chega à Verdade. Outra diferença é que no ocidente a reflexão sobre a existência parte do eu e no oriente do outro (é a presença do outro que dá significado à minha ação), por isso a característica mais evidente no oriente é a adaptação. Como afirmou Bruce Lee em sua famosa “entrevista perdida” de 1972: é preciso ser como a água.

Nessa mesma entrevista o ator graduado em filosofia nos diz que a arte marcial é uma forma de se expressar honestamente, o que é muito difícil. Expressar-se honestamente (através da arte marcial ou de qualquer oura ação cotidiana), ou ser quem você é, a despeito do tempo e da cultura que o cerca e o determina, é uma tarefa árdua. O Kung Fu entendido em seu sentido amplo é um caminho para essa expressão, que vai muito além da representatividade étnica ou das lutas políticas. O comentário de Lee sobre a crescente curiosidade sobre a China no ocidente e a possibilidade de surgirem ideias novas derivadas das comparações com o pensamento chinês como consequência da abertura da China para o mundo é profética.

Se a Marvel conseguir incorporar no filme de Shang-Chi o Ying e o Yang, a complementariedade do modo ocidental e do modo oriental e a compreensão do Kung Fu como modo de viver a vida, todos os esforços na direção da representatividade e na ampliação de seu público terão valido a pena.

Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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