A vitalidade de Necromorfus, entrevista com Gabriel Arrais

Conheça a hq nacional Necromorfus e seu autor.

Necromorfus é uma palavra inventada que designa o ato de assumir a forma de alguém morto. Douglas, o herói da história roteirizada por Gabriel Arrais, assume a forma e as memórias dos mortos ao tocar seus restos mortais. Ele pode fazer isso de forma estratégica (violando túmulos, acumulando fragmentos de ossos) ou episódica (se transformando em animais ou mesmo insetos para se manter vivo).

Até agora são 4 edições com 30 páginas cada (a número 1 saiu em 2014). Na primeira edição conhecemos a mecânica básica dos poderes de Douglas e seu mundo centrado nos Estados Unidos. Na segunda edição entendemos que as engrenagens entre os mortos, suas almas e a capacidade de Douglas de se transformar, têm consequências teológicas complexas. De quebra somos apresentados a um antagonista que sabe mais sobre o herói e sobre seus poderes do que ele mesmo. A terceira edição mostra a vida de outro personagem até o ponto em que Douglas se insere na história e assume o protagonismo da narrativa. Finalmente na quarta edição vamos para o Brasil, quando o passado do personagem vem assombrá-lo.

Gabriel Arrais sabe do potencial do personagem e vai, edição por edição, nos mostrando as diferentes abordagens que a sua criação permite. Fazendo referências à cultura pop, à literatura, à música, colocando aqui e ali o rostos de atores famosos na pele de Douglas e de outros personagens, ele vai construindo o caminho para as possibilidades em outras mídias.

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A arte da primeira edição ficou a cargo do traço solto de Magenta King. Já as edições seguintes contam com o traço dinâmico e os ângulos cinematográficos de Abel. Com as edições de 5 a 8 já estruturadas e prontas pra sair do forno, Necromorfus é uma aula de construção de personagem, de elaboração de cenário e de mapeamento de possibilidades narrativas ancoradas nas interações entre essas duas bases – personagem e cenário.

Entrevistamos o Gabriel Arrais pra saber um pouco mais sobre o futuro da série e sobre como ele vê o cenário do quadrinho independente no Brasil:

Quadrinheiros (Q) -Lendo as 4 edições de Necromorfus fica claro que os poderes do personagem e o cenário onde você o inseriu dão o tom das histórias. Isso é básico para escrever um roteiro, mas no Brasil são poucos os que estudam isso (formal ou informalmente). Como você vê essa falta de ferramental nesse mercado de quadrinhos independentes que temos no Brasil hoje?

Gabriel Arrais (GA) – Acho que existem muitas explicações para essa questão. Já ouvi de diversas pessoas, inclusive de profissionais da área, de que tudo o que uma pessoa precisa para se tornar quadrinista é de um lápis e criatividade. Até certo ponto eles têm razão, afinal, essa é uma das coisas que torna os quadrinhos uma das mídias mais democráticas. Mas eu particularmente prefiro me munir de muito mais recursos para começar a pensar em produzir uma história. Acho que essa “total liberdade” que atrai muitas pessoas a fazerem quadrinhos é também o que prejudica a qualidade final dos roteiros, sem contar que no mercado independente críticas não são bem aceitas, pois os autores tendem a levar para o lado pessoal.

Novos roteiristas entram em contato comigo através das redes sociais (também já fiz muito isso, e aconselho a tentar conversar com os roteiristas que vocês admirem), e às vezes contam o plot da história que pretendem lançar: no máximo, estruturam a história baseados na simplista Jornada do Herói, o que acaba deixando os roteiros engessados e totalmente previsíveis.

Com ilustradores iniciantes, que estão desenhando a própria história, a situação às vezes é ainda pior, pois muitos começam a desenhar sem saber para onde a história vai. O que impera em alguns casos é apenas a vontade de mostrar o talento artístico, deixando o estudo e aprofundamento do roteiro de lado. Existem centenas de ótimos desenhistas trabalhando para as grandes editoras americanas, sei que a barreira cultural impede que editores se arrisquem contratando roteiristas estrangeiros; mas tirando isso, e o domínio do idioma, será que são só por esses motivos que não existem muitos nomes de brasileiros fazendo sucesso com a escrita nas grandes editoras americanas?

A resposta é que falta mesmo investimento em capacitação técnica e formação intelectual. Bons cursos de roteiro são caros, e a maioria dos cursos voltados para roteiro de Quadrinhos são básicos e curtos. Quem realmente investe dinheiro estudando roteiro prefere escrever para cinema e TV, já que são poucos que ganham dinheiro mensalmente com roteiro de quadrinhos no país. E pra entrar nesse mercado existem duas maneiras: ou se faz parceria com um ilustrador, ou você contrata um.

No meu caso, prefiro contratar um ilustrador – mas isso impacta no roteiro, pois tenho a restrição de orçamento e uma história, que seria incrível ao ser contada em 100 páginas, precisa ser contada em 22. Por esse motivo acho que alguns bons roteiristas desistem de lançar quadrinhos e partem para a literatura, e o dinheiro que seria gasto com o ilustrador é usado para se autopublicar.

Q – A cada edição você vai abrindo avenidas narrativas para seu personagem. os cruzamentos entre essas diferentes frentes são inevitáveis. O que podemos esperar nas próximas 4 edições?

GA – Agora que o núcleo primário é conhecido dos leitores, vamos nos aprofundar no passado de alguns dos personagens e responder alguns mistérios que surgiram no decorrer dessas quatro edições.

Revelaremos a ligação de Douglas com Trish e como ela foi recrutada e treinada pela seita que o persegue. Fragmentos do passado da avó de Douglas também serão revelados e isso impulsionará a trama para caminhos surpreendentes. Os leitores podem esperar os plot twists característicos da série e situações cada vez mais bizarras e surpreendentes envolvendo o poder transmorfo de Douglas.

As referências a personagens icônicos da história e cultura pop também estarão presentes, e além disso mostraremos as consequências do comportamento dominante do personagem e as consequências de sua compulsão por sexo.

Q – A qualidade e o direcionamento que você deu ao Necromorfus fez com que já no início as pessoas falassem em transformar a história numa série de TV. Como anda essa possibilidade?

GA – Entrei em negociação com algumas grandes produtoras, mas ainda não posso revelar os detalhes. Mas de antemão já gostaria de agradecer a todos os leitores que sempre acreditaram no potencial audiovisual de Necromorfus e que de alguma forma contribuíram para fazer a série chegar ao ouvido dessas grandes produtoras. Estamos trilhando o caminho aberto pelo Luciano Cunha e Gabriel Wainer com o Doutrinador, acho que nos próximos anos teremos uma grande leva de adaptações de quadrinhos independentes.

Q – Quando serão os próximos lançamentos e como adquirir as 4 primeira edições?

GA – Eu sempre caso o fim da campanha no Catarse com a CCXP em dezembro, dessa forma fica mais fácil escoar a produção e eu sempre tenho algo quente pra lançar durante o evento. As quatro edições estão disponíveis em lojas especializadas em quadrinhos como a Ugra, Loja Monstra, Comix, Comic Boom!. Essas lojas também oferecem a opção de comprar através do site e enviam para qualquer lugar do Brasil. Esse ano lançaremos uma nova série, também ilustrada pelo Abel, que atualmente está desenhando  um especial sobre a banda Megadeth para a revista Heavy Metal americana.

Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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