Garô: o underground do mangá

A revista que abriu os olhos do leitor para os subterrâneos da narrativa.

Quando pensamos em mangá, o mais frequente é lembrar dos olhos grandes dos shôjo e os movimentos nas ações dos shônen, mas é pouco conhecido uma revista alternativa de mangá, a Garô!

Capa do mangá A Lenda de Kamui

Diferente do mangá mais popular, a revista Garô nasceu da necessidade em tornar narrativas e seus desenhos mais autorais. A característica dele é ordenar a linguagem visual, verbal ou não verbal acerca de temas sociais, políticos e do conhecimento, criando dessa forma, uma linguagem mais específica e autônoma, nem sempre linear, mas experimental, sem a preocupação com o processo industrial.

página de mangá da artista Maki Sasaki

Esse gênero autoral começou a ser publicado no Brasil nos anos 1980 e 1990 na forma de fanzines, que passou a ser o veículo difusor da expressividade artística. Nesse período as editoras preferiam publicar quadrinhos estrangeiros com temas heroicos ou românticos em vez de temas de cunho “sociais” ou educacionais. Nesse caso, não há direcionamento para um determinado grupo de leitor como na maioria dos quadrinhos. Em geral, os autores deste gênero, seja no Brasil ou no Japão, não se preocupam muito com o tipo de leitor, é o leitor que escolherá o que quer ler.

A revista Garô foi criada em julho de 1964, por Katsuichi Nagai (1921–1996), e Sanpei Shirato (1932), um mangaká. A primeira edição de Garô trouxe a história A Lenda de Kamui, de autoria de Sanpei. Esse mangá narra a aventura de um menino que vive em um clã de agricultores, mas que pretende abandonar sua vila por não aceitar o modo de vida, marcado pela desigualdade social e, quando consegue se libertar, encontra no seu caminho os ensinamentos para se tornar um ninja.

Katsuichi Nagai

Porém, o que deveria ser libertador, acaba sendo uma prisão por causa das regras e exigências vividas por um ninja, como matar um ser humano, seja lá qual for o motivo. A composição da narrativa, nesse sentido, denota a rigidez das hierarquias sociais tão evidentes na história japonesa, e ao abordar na trajetória do menino Kamui, evidencia a permanência dos mesmos mecanismos de desigualdade na sociedade atual, visível, por exemplo, em cargos empresariais.

Com um misto de aventura, códigos de condutas históricas, A Lenda de Kamui, traz também a fantasia nas habilidades marciais, encontradas com frequência nos filmes sobre ninjas, samurai e kung fu. Esses temas acabaram se tornado um sucesso entre os estudantes universitários, propagando a fama da revista entre os artistas de gekiga, um dos primeiros gêneros do mangá.

Dois importantes artistas desse gênero foram Yoshihiro Tatsumi (1935–2015) e Yoshiharu Tsuge (1937) cujos trabalhos tiveram grande repercussão na revista Garô, fortalecendo a abertura para novos artistas desse gênero.

Embora fosse marcada pela aura de “vanguarda”, a revista Garô teve uma popularidade flutuante ao longo da década de 1980. Independente, a revista teve a impressão de volumes reduzida, e em 1991 Nagai vendeu a editora que publicava a revista para a Zeit, uma empresa fabricante de softwares. Os proprietários, para melhorar as vendas da revista Garô, acrescentam seções de resenhas de filmes e discos, além de folhas duplas de mulheres nuas. Mas a seção de mangá manteve um público leitor fiel.

Os artistas da Garô continuaram a desenhar mesmo com a crise e venda da editora. Nagai continuou presidente do conselho da revista e os artistas veteranos permaneceram. Já os novos começaram a se interessar pelo gênero e contribuíram com suas próprias produções. Segundo a artista Yuko Tsuno, Nagai dizia aos artistas “não podemos pagar pelas páginas, mas, por favor, desenhem”. Essa frase mostra a paixão que o editor tinha pela sua criação e os artistas pela liberdade de expressão.

mangá de Yuko Tsuno

O trabalho da artista Yuko Tsuno, por exemplo, traz um tom delicadamente envolvente, mistura fatos do cotidiano e sonhos, com forte noção de localização e atmosfera. O estilo de desenho dela deriva do shôjo mangá, pois é simples, mas preciso, com doçura cativante. Os personagens que ela cria quase sempre têm características excêntricas, sutilmente enlouquecidas. Vale apontar, além da liberdade criativa que a revista Garô garantia, Yuko permaneceu em seu trabalho como designer gráfica e recusava alguns trabalhos remunerados em revistas maiores, optando por publicar quase exclusivamente para Katsuichi Nagai.

Mangá de Yuko Tsuno

Mesmo após a morte de Nagai, a revista resistiu por alguns anos. Apenas em 2002 foi anunciado o encerramento definitivo da revista Garô. Mas seu legado, criado através de uma paixão e liberdade de expressão, abriu portas para novas revistas alternativas de mangá.

Sobre Mochi

Atingiu o estado de Olhos Grandes nas ilhas do Oriente Silencioso.
Esse post foi publicado em Mochi e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Garô: o underground do mangá

  1. Quiof disse:

    A imagem com a legenda personagens é do anime Shōnen Ninja Kaze no Fujimaru (1964-1965), que aqui veio como Samurai Kid, o Hayao Miyazaki participou dessa animação no início da carreira, o anime era inspirado no mangá Kaze no Ishimaru do Shirato.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s