O que lê o Justiceiro

Como os livros que aparecem na série do Justiceiro refletem elementos da história e de seus personagens.

Por Nathalie Lourenço*

Frank Castle pode ser um personagem brutal, mas quem disse que os brutos não podem amar a literatura? Durante a primeira temporada da série vemos que não apenas Frank e outros personagens gostam de ler, mas os títulos escolhidos nos dão pistas sobre a personalidade de quem lê e até funcionam como foreshadowing (quando o autor ou roteirista incluem pistas que sugerem o que irá se desenrolar na história).

Anotamos e analisamos aqui todos os volumes que aparecem durante a série.

Spoilers violentos adiante sobre a série e alguns dos livros. Avance por conta e risco.

Moby Dick – Herman Melville 

Frank Castle aparece lendo esse clássico da literatura logo no início da temporada. É um livro que trata de obsessão, vingança e desequilíbrio, temas que refletem bem a jornada de Castle durante toda a série. O Capitão Ahab passa o livro em busca da baleia branca que dá nome ao livro, que devorou sua perna. Da mesma forma, Frank está na eterna busca da verdade sobre a morte da sua família, e não vai descansar enquanto não derramar o sangue dos responsáveis.

Crack-up – F. Scott Fitzgerald

Fitzgerald passou um período em reclusão, sem publicar nada exceto artigos em revistas. Crack-up (em português, Colapso) foi uma série de 3 ensaios que foram publicados na revista Esquire após esse período e reunidos após a morte do autor. Nelas, o autor aborda de forma pessoal, o rápido declínio da sua carreira, o desespero e o seu desagrado com o mundo, os rumos da literatura, etc.

Como o nome diz, é um livro sobre quebrar, começando com o seguinte parágrafo (em traducão livre):

“É claro que a toda a vida é o processo de se quebrar, mas os golpes que fazem a parte dramática do trabalho – os grandes e repentinos golpes que vêm ou parecem vir de fora – aqueles que você lembra e bota a culpa de coisas e, em momentos de fraqueza, conta a seus amigos, não mostram seus efeitos de uma só vez.  Há um outro tipo de golpe que vem de dentro, que você não sente  até que é tarde demais para fazer algo a respeito, até perceber finalmente que de certa forma você nunca será um homem tão bom de novo.”

O livro, então, se conecta com o estado desesperançado em que a vida de Frank Castle se encontra, foragido, sem família e o colapso enfrentado pelos veteranos de guerra ao voltar para casa.

Cyborgs and Barbie Dolls: Feminism, popular culture and the post human body – Kim Toffoletti

Esse livro foge do padrão dos demais, afinal não é exatamente literário e sim uma não-ficção sobre gênero e pós-humanidade numa era de tecnologia.

O livro provavelmente pertence a Micro, já que neste episódio eles estão isolados no esconderijo dele, e o assunto tecnológico parece ser algo de seu interesse.

Inclusive, as questões sobre como a tecnologia influencia as interações humanas reflete a situação de Micro, cujo único contato com a família se dá através da observação de câmeras instaladas em sua antiga casa.

Carga da Brigada Ligeira – Alfred Tennyson

No original, The Charge of  The Light Brigade. O poema é mencionado por Castle e Russo antes da missão em Kandahar. Ele é a origem da expressão “Do or die” (fazer ou morrer) e, é uma homenagem aos feitos ocorridos em uma batalha durante a Guerra da Crimeia.

Como o próprio Russo aponta na série, um verso do poema fala da função do soldado em obedecer sem questionar. Ele exprime exatamente a situação em que se encontram, em que acabam por cometer atrocidades por estar seguindo ordens. Porém, no original, não consta Do or Die, mas sim Do and Die, embora tenha sido assim que a expressão tenha se popularizado. 

“Forward, the Light Brigade!”

Was there a man dismayed?

Not though the soldier knew

Someone had blundered.

Theirs not to make reply,

Theirs not to reason why,

   Theirs but to do and die.

Into the valley of Death

Rode the six hundred.

(Você pode ler uma tradução aqui)

 

O retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde

Um dos personagens mais icônicos da literatura, Dorian Grey é um nobre vaidoso que vende sua alma. Em vez de envelhecer, um retrato dele envelhece em seu lugar, mostrando os sinais do tempo e da corrupção do personagem. O livro já prenuncia toda a trama de Billy Russo, que é quem aparece lendo o livro. Aparentemente um soldado que escapou ileso e sem traumas de Kandahar, mas que se revela o vilão da série. 

Até mesmo o fim da temporada parece remeter ao livro. Na obra de Oscar Wilde, Dorian Gray destrói seu retrato desfigurado e morre ao fazê-lo, ficando repugnante enquanto o retrato volta ao normal. Na série, Castle esmigalha o rosto de Russo contra o espelho (destruindo seu reflexo) e deixando o homem que se orgulhava de sua beleza tão feio por fora quanto por dentro.

E também é uma espécie de easter egg e metalinguagem, uma vez que o ator que interpreta Russo, Ben Barnes, também interpretou Dorian Grey no filme homônimo de 2009.

As Aventuras de Pi – Yann Martel

Um dos temas que permeiam a temporada é o trauma, e como cada pessoa lida com ele. Curtis tenta trabalhá-lo através da terapia de grupo. Outros preferem não enfrentar a vida normal e voltam para a guerra. Outros, como Lewis e o próprio Castle enlouquecem.

As Aventuras de Pi a princípio parece uma fábula: um menino indiano que sobrevive a um naufrágio com outros animais em uma escuna. Aos poucos, o tigre vai devorando os outros animais, até que ele fica sozinho, no meio do oceano com a fera. Acontece que é um livro sobre trauma, em que, ao final, ficamos em dúvida se aquilo realmente aconteceu ou se o menino transformou em sua cabeça os personagens ao redor dele em animais para que fatos como canibalismo e assassinato fossem menos traumáticos. É interessante notar que este livro aparece como recomendação de Leo, filha de Micro, uma criança tentando superar a perda do pai.

*Gosta de letrinhas em livros, quadrinhos e na sopa. De vez em quando, escreve umas groselhas aqui.

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