TEODICÉIA EM QUADRINHOS: Destino, livre arbítrio, salvação e perdição (ou “Por quê um super-herói deveria salvar você?”)

“Viva como um deles, Kal-El, para descobrir onde sua força e poder são necessários. Mas leve sempre no coração o orgulho de seu legado especial. Eles podem ser um grande povo, Kal-El, eles querem ser. Só precisam da luz para mostrar o caminho. Por esse motivo acima de tudo, pela capacidade que eles têm de fazer o bem, eu envio você… meu único filho.”
(Superman: o Filme)

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Você escolheu ou foi empurrado?

Não é novidade que sou filho de pastor. Então, o conceito cristão (protestante) de salvação é algo mais que natural para mim. E, durante muito tempo, achei que fosse assim para todos. Até que alguém me perguntou por quê meu Deus não salva a todos. Afinal, se alguém tem o poder e a vontade de nos salvar e conhece nossa necessidade de salvação, por quê esperaria que pedíssemos? E por quê permitiria que alguém não fosse salvo?
Os teólogos certamente têm resposta para isso. Mais de uma, até. Nenhuma delas realmente resolve a questão sem que antes você faça algumas opções de fé, aceitando ou rejeitando premissas que não podem ser objetivamente demonstradas. Quanto a mim, que não sou teólogo (a não ser no sentido de Lutero, que dizia cada cristão deve ser livre para fazer sua própria teologia — mas ele mesmo não impediu que se condenasse muita gente por discordar dele), o mais próximo que cheguei não é propriamente uma resposta, mas uma tergiversação: talvez o mais correto não seja tentar entender por quê alguns são salvos, mas por quê não somos todos condenados.

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Samaritan e Vitória Alada discutem prioridades durante um encontro. (Astro City)Quando pensamos na realidade dos super-heróis, o binômio salvação-perdição é encarado com a mesma naturalidade dos religiosos diante dos dogmas. Entendemos que o papel único dos super-heróis é salvar o mundo, proteger os fracos e inocentes, simplesmente porque eles podem. E, como somos meros espectadores diante de um simples meio de entretenimento, raramente discutimos se existe alguma razão pela qual um super-herói deveria salvar ou deixar de salvar alguém. Vez ou outra aparece alguma história em que se discute os critérios pelos quais cada herói organiza suas prioridades (distância, tempo, grau de ameaça, possibilidade real de ser efetivo, ideologia, etc), mas a maioria só faz mesmo o que esperamos. E sempre que aparece alguém questionando, na história, onde esse ou aquele herói estava quando alguma coisa muito ruim aconteceu, nossa tendência é nos colocarmos do lado do herói, afinal, nós sabemos muito bem que não é possível salvar o dia em mais de um lugar ao mesmo tempo. (Talvez Jamie Maddrox consiga, dependendo do caso).

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A salvação espiritual oferecida pelas religiões não é exatamente a mesma coisa que o salvamento feito pelos heróis nos quadrinhos, mas o questionamento que se faz pelos os críticos dentro e fora dos quadrinhos é o mesmo. Onde você estava quando [complete a frase com algo bem ruim]? Por quê você não [complete com uma coisa que seria muito boa e que não foi feita por quem tinha toda a capacidade de fazer]? Essas e outras perguntas nesse sentido existem porque todos temos um certo senso de justiça que nos permite saber quem deveria ser salvo e quem deveria ser condenado, ainda que os critérios sejam bastante particulares e até questionáveis.
superman_quote5Mas, afinal, existe alguma razão objetiva pela qual deveríamos ser salvos? (Falo nós porque, por mais que tradicionalmente nos identifiquemos com os heróis — às vezes com os vilões —, o papel mais provável que ocuparíamos se estivéssemos num gibi seria o de pessoas comuns). Sempre que essa pergunta aparece nos quadrinhos, ela é feita pelo vilão ou por alguma personagem que tem um interesse na vida do herói. Mesmo que seja clichê, funciona porque é o momento do desafio, da reafirmação do propósito heróico. (Não consigo imaginar um roteirista, por pior que seja, que consiga estragar isso — pode até ser mal-usado, mas estragar é outra coisa). E a resposta é quase sempre algo do tipo “porque é certo” ou “porque eles são capazes de grandes coisas” e até mesmo coisas menos lisonjeiras como “porque sou um dos idiotas que vive nela”. De verdade, são respostas que falam muito sobre o caráter de alguém (como se ainda tivéssemos dúvidas — estamos falando de heróis, ora bolas!), mas que têm a mesma objetividade de um “porque sim”.

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Religiões redencionistas afirmam que a salvação é uma dádiva imerecida ou uma conquista que exige sacrifícios ou, ainda, o resultado da evolução do caráter e da sabedoria (que até pode ser identificada com a inteligência, mas geralmente é algo diferente). Então, somos salvos porque fomos escolhidos de alguma forma ou porque merecemos individualmente (embora algumas tradições afirmem a possibilidade do mérito de um ser suficiente para salvar todos, não é o caso mais comum). São exatamente esses padrões que podemos encontrar em todos os socorridos pelos heróis dos quadrinhos.
Luke_Cage,_Hero_for_Hire_Vol_1_1Pensando na realidade do gibi, uma resposta muito óbvia é que o herói não seria herói se ele não nos salvasse. A jornada heróica (de novo) não se inicia necessariamente porque alguém tem um interesse particular em ser altruísta, mas dificilmente alguém seria visto como herói se obtivesse alguma vantagem concreta por isso. É claro que, do ponto-de-vista de quem foi salvo, não importa se você deve a vida ao Superman, que ainda vai deixar você fazer uma foto com ele, se não estiver muito ocupado, ou a Luke Cage, que talvez mais tarde mande um boleto para sua casa. O que importa é que você foi salvo. E mesmo Luke Cage poderia simplesmente largar mão de algum contrato se não o considerasse rentável, mas lá está ele salvando o dia no final. (Não li nada dele nos últimos 10 anos. Ele ainda é um herói-de-aluguel?) Mas, se entendemos que existe uma vontade por trás desse universo (e existe mais de uma, na verdade: o roteirista, o editor e a pressão do mercado), nosso papel como vítimas é simplesmente dar propósito à existência do herói. Os que são salvos dão o valor do feito do herói. Os que são perdidos dão a dimensão do mal que ele enfrenta. Também dão ao herói uma visão mais clara dos limites de seu poder.
spidMas talvez você não seja só parte da multidão. Talvez você seja um coadjuvante relativamente destacado. Nesse caso, sua salvação ou perdição são um elemento muito mais importante para o roteiro. Isso muda tudo, certo? Não necessariamente. Isso realmente aumenta muito as chances de você ser salvo, mas sua salvação pode continuar sem um sentido que seja realmente seu. Pense em todas as personagens cuja função primordial era ser resgatada no último instante pelo herói, a clássica donzela-em-perigo. Existe uma séria possibilidade de você só ser salvo porque é o interesse amoroso, o melhor amigo ou parte da família do herói. Batman_Death_In_The_Family_TPB_coverVocê talvez não tenha feito nada. Você simplesmente existe e é importante para o herói, que naturalmente vai cumprir seu papel salvador. E, se você morrer (o que também é muito provável se você for um coadjuvante relativamente destacado, mas não essencial — pior ainda, talvez o público não goste muito de você), todos sabemos o efeito trágico que isso terá sobre o herói. Provavelmente vai durar várias revistas, talvez seja até o pontapé inicial da carreira heróica. Então, voltamos à premissa de que sua existência nesse mundo dos gibis não tem sentido em si mesma, é apenas parte da jornada heróica de alguém.
Talvez você esteja pensando que ver o mundo desse jeito é muito cruel. No final das contas, o que decide se você é salvo ou não é o fato de isso interessar ao roteiro e, portanto, ao mercado? Sim, mas é melhor do que a alternativa: você foi julgado.

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comicscodeO Comics Code Authority não existe mais, mas ele é a única referência que poderia dar alguma base à hipótese do julgamento. Ele deixava bem claro que um vilão só poderia ser morto como conseqüência direta de sua própria vilania e que o leitor deveria ser capaz de entender inequivocadamente que o herói não tinha como salvá-lo. Foi uma tentativa de respeitar o que se entendia como inocência dos leitores, que não poderiam ver o herói fazendo algo tão reprovável quanto matar alguém, mesmo que apenas por omissão. Partindo desse princípio, então, se sua perdição não é uma simples necessidade de roteiro, só pode ser o resultado de um julgamento moral e você, por algum motivo, foi considerado indigno de salvação.
Lucifer-choicesA proposta de um julgamento não satisfaz porque, convenhamos, se você fosse absolutamente mau e merecesse morrer, certamente seria um dos vilões da história. (E nós concordamos que estamos nos pensando como pessoas comuns, ainda que, talvez, tenhamos alguma participação maior na trama). Então, se o julgamento é real e se todos os que são perdidos mereciam se perder, temos que aceitar que uma culpabilidade muito menor do que o mal absoluto é suficiente para sermos indignos de salvação. Passar por esse julgamento é muito mais complicado de entender e aceitar porque não tivemos páginas, talvez nem mesmo quadros suficientes para entender nossa situação. Existe sentido num julgamento se fomos meros figurantes na história de alguém maior?

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O mundo real nos oferece um caminho que não poderíamos percorrer se estivéssemos no gibi como figurantes ou coadjuvantes. Na confusão das centenas de religiões e espiritualidades concorrentes, não existe uma resposta única do por quê, menos ainda por quem sermos salvos. No mundo real, porém, somos todos protagonistas de nossas próprias histórias. E, em alguma medida, co-roteiristas. Temos a possibilidade escolher qual caminho de salvação (ou perdição) faz mais sentido. Se Deus ou deuses ou espíritos ou qualquer coisa equivalente são reais e são a causa de nossa existência, seria muito abaixo da divindade se nosso livre arbítrio fosse apenas uma ilusão, um mecanismo pelo qual eles regulam nosso destino e nos fazem acreditar que somos livres. Menos divino ainda seria se fôssemos condenados por seguir um roteiro que não escrevemos.
rightthingNo final das contas, uma das poucas respostas objetivas possíveis é que a vida prática se constrói a partir das escolhas que você faz no caminho da salvação ou da perdição, seja lá o que isso signifique concretamente. Elas certamente são afetadas pelas escolhas de outras pessoas, bem como pelos fatores inerentes ao próprio cenário, mas essa é uma avenida de muitas mãos (e sujeita a muitos acidentes, portanto).
O testamento de Jor-El nos dá uma boa pista do caminho a percorrer. Fazer o bem, ajudar e inspirar as pessoas, ser um bom protagonista de sua história e um bom coadjuvante ou figurante das histórias dos outros, ser lembrado por tudo isso. Pode não definir se você é salvo, muito menos se salvação realmente existe, mas certamente não será uma vida condenável.
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Alguém duvida que eles fizeram uma boa escolha? (Conheça a Liga da Justiça BH)

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Sobre Quotista

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2 respostas para TEODICÉIA EM QUADRINHOS: Destino, livre arbítrio, salvação e perdição (ou “Por quê um super-herói deveria salvar você?”)

  1. olavo disse:

    Muito bom,foi o melhor post que li até agora aqui

  2. André Luiz disse:

    Toda esta temática sobre o salvamento realizado por um herói e como nós, do outro lado da página, buscamos uma maneira de nos salvarmos através de uma fé e uma crença comungada entre outros é que tornam ricas as interpretações, intervenções e transformações do herói na contemporaneidade. Por mais que ainda exista esta separação entre bem e mal, nas HQs as condições de existência para heróis e vilões continuam em uma área cinzenta, já que sacrifícios são feitos em prol de uma causa maior, mesmo que esta causa contradiga a moral de não cometer um mal para se atingir o bem. Você abriu este texto com uma passagem de Superman – O Filme (1978), mas, durante todo o texto, não me saiu da mente algumas de cenas de Homem de Aço (2013), principalmente uma das cenas mais polêmicas do filme que ocorre no final entre Kal-El e Zod (já deu para imaginar de qual estou falando?). Ao invés de ficar aliviado pelo esforço final, Clark rapidamente se arrepende de seu ato, embora (sim, para os detratores do filme, havia um caminhão de possibilidades a serem realizadas ali, mas…) perceba que era necessário uma “solução” mais drástica para resolver o problema. O peso de ser um herói está em reconhecer a extensão de suas ações e de suas capacidades para fazer o bem e deter o avanço do mal, tanto dentro quanto fora. E talvez este também seja nosso dilema aqui, na suposta vida real, porque ao contrário dos quadrinhos, nossa vida não se transcorre em arcos (des)contínuos, mas sim em um fluxo de experiências e vivências em torno do individual e do coletivo.

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