Dodecafonia e Quadrinhos

A arte não se enquadra em um único meio ou mídia. Muitas vezes uma intervenção exige do criador que sejam utilizadas múltiplas interfaces para criar o resultado desejado, e para tal, é comum que ele busque a ajuda de outros artistas. As vezes isso é combinado, outras vezes pode ser acidental. Um videoclipe por exemplo é algo que mostra a transposição das linguagens e mídias, mesmo que isso tenha sido feito intencionalmente e visando o crescimento industrial.

Mas existem casos no qual a vontade é muito mais de criar algo novo e trazer novos ares. Em 1984 dois amigos artistas resolvem se juntar para um projeto inovador.

Os dois amigos de 1984 hoje em dia

Um acabava de ganhar reconhecimento pelo seu primeiro álbum, que iria abrir portas para a chamada “Vanguarda Paulistana”. Esse era Arrigo Barnabé, um Londrinense que veio para São Paulo fazer arquitetura, e o seu album era “Clara Crocodilo” (devo avisar que não é uma música óbvia, é a dodecafonia. Clique aqui e ouça a música que dá nome ao disco)

Antes de proseguir, vale uma breve explicação sobre a música atonal e a dodecafonia. A música atonal, como diz o nome, é uma música na qual as notas não formam um som dentro do convencional, causando estranheza de quem ouve. A música tonal é baseada em um único tom, enquanto a música atonal seria baseada em nenhum tom (se algum músico souber colocar isso melhor, agradeço). A música dodecafônica seria baseada em séries de 12 tons, portanto cada som seria independente entre si. Tá complicado né… acho que é mais facil ouvir um Schoenberg: 

Agora voltando ao tema original: O segundo, Luiz Gê, além de ter ajudado Arrigo a conhecer São Paulo, influenciando a sua visão da metrópole, e ter feito a arte da capa de Clara Crodilo, já despontava como desenhista e ilustrador, o que o levaria posteriormente a trabalhar em publicações de grande porte como jornais e revistas.

Capa do Clara Crodilo

Arrigo já havia acertado que a capa de seu segundo álbum seria feita por Luiz Gê. Ao visitá-lo um dia para definir como seriam as ilustrações, o compositor vê um quadrinho que Gê havia feito baseado em um comentário de um amigo.

O comentário era de um poster que Gê tinha no qual figuravam alguns aviões dos Flying Tigers (esquadrilha americana de voluntários que foram destacados para defender a China durante a segunda Guerra Mundial). Inspirado pelo comentário de que deveria haver um quadrinhos sobre eles, Luiz Gê tem a idéia de colocar Tubarões Voadores em meio a uma cidade.

Os Flying Tigers com suas bocas de Tubarão.

Arrigo então resolve musicar os quadrinhos, e coloca o nome do seu segundo álbum de “Tubarões Voadores”. Junto ao LP vinha um encarte com os quadrinhos completos, e a primeira faixa é a trilha sonora com a leitura dos quadrinhos, para que você admire o encarte enquanto ouve a narração do que está lendo.

É uma experiência que mistura o visual com o auditivo e com o surrealismo característico da música dodecafônica de Arrigo Barnabé.

Ficou curioso de como seria a experiência, mas não tem uma vitrola?

Segue então o link com uma montagem feita por um fã, que se aproxima bastante da experiência real.

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3 respostas para Dodecafonia e Quadrinhos

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