Super-heróis vendem menos por serem mais inclusivos? Veja o que os dados revelam

A ideia de que a diversidade derrubou as vendas dos quadrinhos virou mantra em certas bolhas — mas os números mostram uma história bem diferente.

Nos últimos anos, virou moda dizer que os super-heróis estão em declínio. Que o hype passou. Que ninguém mais se importa. Essa narrativa ganhou força especialmente por causa de movimentos como o Comicsgate, que também encontrou eco no Brasil. Se você nunca ouviu falar, melhor pra sua saúde mental. Mas vamos lá: o Comicsgate surgiu como reação à maior presença de diversidade nos quadrinhos norte-americanos. O argumento deles é simples — e raso. Segundo essa turma, a inclusão de personagens diversos e o foco em pautas progressistas fizeram os quadrinhos “perderem a qualidade” e, com isso, o público.

Essa visão se espalha rápido em fóruns, redes sociais e canais no YouTube. É barulhenta e sedutora porque oferece uma explicação simples pra um fenômeno complexo. Mas ela não se sustenta. Primeiro porque ignora a longa tradição dos quadrinhos em discutir questões políticas e sociais. Cansamos de falar isso aqui. Segundo, porque associa erroneamente diversidade à queda de vendas, desconsiderando o que realmente pesa nesse cenário: mudanças nos hábitos de leitura, concorrência com outras mídias, o impacto do digital e o avanço de gêneros como o mangá. Além disso, essa teoria passa longe dos dados. Quadrinhos protagonizados por personagens diversos, como Miles Morales, Kamala Khan e Jon Kent, tiveram desempenho sólido e, em alguns casos, excelentes vendas. E, acima de tudo, o mercado de quadrinhos como um todo cresceu nos últimos anos — especialmente em 2021, que foi um dos maiores anos da história da indústria em faturamento nos Estados Unidos.

(Nota: Os números a seguir se referem ao mercado dos Estados Unidos entre 2019 e 2024. Com o fim do monopólio da Diamond na distribuição de quadrinhos da Marvel e DC, os dados passaram a ser mais fragmentados, o que torna a análise um pouco mais complexa. As referências estão no final do texto. Quanto ao debate sobre diversidade nos quadrinhos e a chamada “lacração”, sugiro conferir os vídeos indicados ao longo do texto.)

Mas vamos ao ponto: os super-heróis continuam vendendo. E muito. A impressão de que sumiram vem do fato de que eles não aparecem mais no topo das listas de graphic novels mais vendidas em livrarias. Hoje esse espaço é dominado por títulos como Dog Man, Cat Kid e mangás como Chainsaw Man e Spy x Family. Marvel e DC quase não figuram entre os mais vendidos nesse canal. Só que isso não significa que os heróis deixaram de ser relevantes — significa apenas que o público e o ponto de venda mudaram. Enquanto as graphic novels juvenis dominam escolas, bibliotecas e livrarias, os gibis de super-heróis continuam sendo o motor das comic shops. E ali, eles ainda são rei.

De 2020 a 2023, as HQs mensais mais vendidas foram, em sua maioria, de super-heróis. Em 2020, Batman: Three Jokers #1 liderou com cerca de 300 mil cópias. Em 2021, Venom #35, X-Men #1 e Batman/Fortnite ultrapassaram a marca dos 250 mil. BRZRKR #1, escrito por Keanu Reeves, vendeu mais de 600 mil cópias — maior estreia original em décadas. Em 2022, Amazing Spider-Man #1 foi um dos lançamentos mais fortes do ano, e em 2023 Transformers #1, publicado pela Image, vendeu acima de 200 mil exemplares, sendo o título mais vendido do ano. Esses números são expressivos. Mostram que, mesmo com a explosão dos mangás e do público jovem leitor, os super-heróis continuam botando gibis na mão do público toda semana — e em volumes que outros gêneros só sonham em alcançar.

Agora, sim, é verdade que nos rankings de graphic novels — os encadernados vendidos em livrarias — os super-heróis praticamente sumiram. Em 2022, por exemplo, o primeiro título tradicional do gênero apareceu só na posição 257. Enquanto isso, Dog Man Vol. 11 vendeu mais de um milhão de cópias em 2023. Parece um massacre — e é. Mas também é uma mudança de canal. Os heróis não estão perdendo espaço porque pararam de vender. Eles só estão vendendo em outro lugar, pra outro público. E nesse terreno, o deles, ainda dominam. Marvel e DC seguem responsáveis por mais de 60% das vendas nas comic shops, mês após mês, com séries como Batman, Spider-Man, X-Men e Spawn sempre entre os mais procurados.

Além disso, o mercado como um todo está longe de ter encolhido. Em 2021, o setor alcançou o maior faturamento da história, ultrapassando os 2 bilhões de dólares em vendas. Mesmo com a queda de 2023, causada por uma correção pós-pandemia e pelo fim de alguns estímulos econômicos, o mercado ainda está maior do que era em 2019. Ou seja, mesmo num cenário de leve retração, o setor segue em alta. E os super-heróis fazem parte fundamental dessa engrenagem.

Outro sinal de que os super-heróis continuam com força total é o sucesso da linha Absolute da DC Comics, lançada em 2024. O carro-chefe da linha foi Absolute Batman, que vendeu cerca de 275 mil cópias já na primeira edição e acumulou aproximadamente 400 mil exemplares no total — tornando-se o quadrinho mais vendido do ano. Outros títulos da linha também registraram alto desempenho: Absolute Superman #1 ficou em terceiro lugar nas vendas de 2024, Absolute Wonder Woman #1 garantiu o quinto lugar no ranking anual, e Absolute Martian Manhunter #1 estreou com mais de 120 mil pedidos antecipados. Já Absolute Flash superou esse número, reforçando a alta demanda da linha. Esses resultados mostram que, mesmo em um cenário competitivo e diversificado, há um apetite claro por produções de super-herói.

O que estamos vendo não é a morte dos super-heróis. É a diversificação do mercado. Quadrinhos deixaram de ser um nicho com um único gênero dominante e se tornaram um ecossistema rico, variado, cheio de estilos, vozes e formatos diferentes. Crianças estão lendo Dav Pilkey. Jovens estão lendo Naruto e Demon Slayer. Adultos continuam indo às comic shops toda semana pra pegar o novo arco dos X-Men ou o número comemorativo do Batman. Os super-heróis perderam o trono absoluto? Sim. Mas continuam no palco, com um papel central.

O discurso de que “lacração matou os quadrinhos” pode até parecer convincente em vídeos raivosos ou threads de fórum, mas não resiste à realidade dos dados. É um argumento que conforta quem já tem uma birra com diversidade e quer justificar isso com uma suposta queda de mercado. Mas a verdade é outra — o mercado cresceu, mudou de forma, se espalhou por novos públicos. E os super-heróis não desapareceram nesse processo. Eles só deixaram de ser os únicos em cena.

Do Brasil, é fácil cair na narrativa simplificada que vem de fora. Mas vale lembrar: quem acompanha de perto sabe que os quadrinhos continuam vivos, múltiplos e com espaço pra todo mundo. Inclusive pros mesmos heróis de sempre, que seguem vendendo — muito mais do que você imagina.

Mas a Marvel continua vendendo mais que a DC? Ou a linha Absolute virou o jogo de vez? Isso é assunto para um próximo texto…

Referências:

COMICHRON. Comic Book Sales by Year. [S.l.]: Comichron, 2024. Disponível em: https://www.comichron.com/yearlycomicssales.html . Acesso em: 07 abr. 2025.

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ICv2; COMICHRON. 2022 Comic Sales Report. [S.l.]: ICv2, 2023. Disponível em: https://icv2.com/articles/news/view/53855 . Acesso em: 07 abr. 2025.

ICv2; COMICHRON. 2023 Comic Sales Report Shows Downturn. [S.l.]: ICv2, 2024. Disponível em: https://icv2.com/articles/news/view/55412 . Acesso em: 07 abr. 2025.

ICv2. Top 20 Graphic Novels – Adult & Kids – Annual 2020–2023. [S.l.]: ICv2, 2021–2024. Disponível em: https://icv2.com/articles/markets . Acesso em: 07 abr. 2025.

PUBLISHERS WEEKLY. Best-Selling Books by Units – 2020, 2021, 2022, 2023. [S.l.]: PW, 2021–2024. Disponível em: https://www.publishersweekly.com  Acesso em: 07 abr. 2025.

THE BEAT. Year in Review – Comics Sales Trends 2020–2023. [S.l.]: Comics Beat, 2021–2024. Disponível em: https://www.comicsbeat.com  Acesso em: 07 abr. 2025.

SCHOLASTIC. Annual Reports and Dog Man Sales Figures. New York: Scholastic, 2020–2024. Disponível em: https://mediaroom.scholastic.com  Acesso em: 07 abr. 2025.

IMAGE COMICS. Press Releases: King Spawn, The Scorched, Transformers. Berkeley: Image Comics, 2021–2023. Disponível em: https://imagecomics.com. Acesso em: 07 abr. 2025.

BOOM! STUDIOS. BRZRKR Breaks Records with Over 615,000 Orders. Los Angeles: Boom!, 2021. Disponível em: https://www.boom-studios.com. Acesso em: 07 abr. 2025.

NPD BOOKSCAN. Top Selling Graphic Novels Annual Reports – 2020–2023. New York: NPD Group, 2021–2024. Disponível em: https://www.npd.com. Acesso em: 07 abr. 2025.

LUNAR DISTRIBUTION. Market Share Updates & Publisher Rankings. [S.l.]: Lunar, 2023–2024. Disponível em: https://www.lunardistribution.com. Acesso em: 07 abr. 2025.

DIAMOND COMIC DISTRIBUTORS. Top 500 Comics & Graphic Novels – 2020–2021. Hunt Valley: Diamond, 2020–2021. Disponível em: https://www.diamondcomics.com. Acesso em: 07 abr. 2025.

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AKA Bruno Andreotti; Historiador e Mestre do Zen Nerdismo
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2 Responses to Super-heróis vendem menos por serem mais inclusivos? Veja o que os dados revelam

  1. Avatar de Ricardo Ricardo disse:

    Muito bom!👏👏👏

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