11 de Setembro: A Marvel diante do Terror

Análise de três quadrinhos Marvel que abordaram o 11 de Setembro de diferentes maneiras.

Em 11 de setembro de 2001 o grupo terrorista conhecido como Al-Qaeda realizava o pior ataque em solo estadunidense já feito. As Torres Gêmeas (símbolo do poder econômico dos EUA, e, por consequência, do capitalismo) vinham abaixo sob o impacto de dois aviões. Um terceiro atingiria o próprio Pentágono (símbolo do poder militar dos EUA). Um quarto avião estaria rumo à Washington (símbolo do poder político dos Estados Unidos), mas aparentemente os passageiros conseguiram impedir. Há a lenda de que havia uma ordem para que os militares abatessem o avião…

Teorias da conspiração à parte (que você pode conferir aqui) o atentado de 11 de setembro deixou cerca de 3000 mortos,  desencadeou as guerras do Afeganistão e Iraque (para se ter uma ideia, as estimativas chegam a 109 mil vítimas somente no Iraque, 63% delas civis). No que se chamou de “Guerra ao Terror” um debate sobre segurança x liberdade tomou conta não só dos EUA e ainda vivemos os impactos desse acontecimento nos dias de hoje.

Em outras palavras em 2001 o mundo se tornava definitivamente um lugar mais sombrio, ou apenas nos dávamos conta do quão sombrio ele havia se tornado. Seria uma questão de tempo para que tal acontecimento fosse transposto para a arte e para a ficção.

Homem-Aranha (2001)

A primeira forma de arte que lidou com o tema – pelo menos dentro da indústria cultural, salvo melhor juízo – foram os quadrinhos. O número 36 do segundo volume de Amazing Spider-Man, lançado no mês seguinte aos atentados.

Com roteiro de J. Michael Straczynski e desenhos de John Romita Jr. a HQ mostrava um atônito Homem-Aranha frente a queda das Torres Gêmeas. A escolha do Homem-Aranha foi bem pensada: um herói popular mas sem poderes em níveis astronômicos (como Hulk e Thor, coisa que não falta na Marvel).

Logo nas primeiras páginas o que é mostrado é a impossibilidade de compreensão do acontecido. A lógica de Straczynski é simples: o ato não pode ser entendido por uma mente sã, logo não poderia ter sido previsto por uma mente sã.

Em seguida vemos os personagens da Marvel junto às pessoas comuns, trabalhando nos esforços de resgate, vilões inclusive. Difícil de engolir genocidas como Magneto e Doutor Destino se lamentando pelo acontecido – mas é o que vemos nas páginas da HQ -, com direito a uma lágrima escorrendo do rosto do soberano da Latvéria.

O Capitão América também está ali, mais atônito que o próprio Homem-Aranha, mostrando que nem mesmo o soldado que presenciou o horror da guerra poderia estar preparado para tal tragédia.

A hq termina como uma verdadeira ode ao homem comum e apelando para a união da Nação em meio ao ocorrido, já prenunciando a retribuição por vir, quase como se dissesse “agora os cidadãos estadunidenses apoiarão seu Estado, a retaliação será pior, vocês se arrependerão”.

Mas a Marvel não parou por aí. Seguindo sua tradição de estabelecer contatos estreitos com a realidade, pouco menos um ano depois foi a vez do Sentinela da Liberdade enfrentar o problema.

Capitão América (2002)

Sob o selo Marvel Knights, pelas mãos de John Ney Riber (roteiro) e John Cassaday (arte), o arco New Deal (traduzido aqui como Novo Pacto) mostra a reação do Capitão América ao 11 de Setembro e seus desdobramentos.

O título já sugere a superação do trauma pelos americanos: New Deal é o nome dado às políticas de Franklin Delano Roosevelt que reestruturaram a economia dos Estados Unidos após a quebra da bolsa de Nova York. Mas também sugere que algo nos Estados Unidos mudou. E que nunca mais será o mesmo.

Mas, ao contrário das expectativas, Steve Rogers não parte para a Segunda Guerra do Afeganistão, como quer Nick Fury. E ele é enfático: ficará ao lado do povo americano.

A hq também mostra a reação dos americanos contra um descendente de árabes, porém, como é ressaltado, um americano. O recado do Capitão é claro: a Nação deve permanecer unida. Os Estados Unidos são fundamentalmente uma nação de imigrantes. Deve-se permanecer fiel ao American Dream, ao Sonho Americano de uma terra livre que pode realizar os potenciais individuais por meio do trabalho duro. É por esse sonho que deve-se lutar, e é por esse sonho que os americanos devem permanecer unidos – não importa sua origem.

Há uma clara intenção de estabelecer uma comparação com a chamada “Guerra ao Terror” com outras guerras já vividas pelos Estados Unidos. Chamar os desdobramentos do 11 de Setembro de “Guerra ao Terror” já sendo uma interpretação enviesada – poderíamos dizer ideológica – dos fatos. Nesse sentido outro ponto de destaque é a intenção de estabelecer um paralelismo histórico com a 2ª Guerra Mundial. Em grande parte, os americanos construíram sua identidade no combate ao nazi-fascismo durante a guerra, e agora deve-se entrar em confronto novamente. Criar a sensação de que o combate ao terrorismo é equivalente ao combate ao nazi-fascismo é um importante ponto para legitimar a guerra e as ações do governo americano.

Porém, é importante lembrar que a última guerra em que o povo americano de fato participou foi a Guerra do Vietnã. Após o fracasso retumbante, a convocação para serviço militar obrigatória foi extinta, sendo as forças formadas por voluntários desde então. Faz sentido que o Capitão América recuse-se a ir para o front: ele deve proteger o povo americano e seu sonho. A imagem da família vendo um atentado terrorista pela tv também evoca o Vietnã, a primeira guerra amplamente televisionada, que a família americana pôde acompanhar no jantar.

A relação entre o Capitão América e o povo americano é um ponto que merece destaque. Todos poderiam ser o Capitão América se se importassem. O que diferencia o Capitão América não é o uniforme, nem o soro do supersoldado, mas o fato de quem se importa com o Sonho. Algo que os americano parecem não se importar. Ao menos não o suficiente para ir à guerra.

Mas voltemos ao tema central da hq: o terrorismo, personificado no antagonista Al-Tariq, que ataca impiedosamente em solo americano. No conflito é importante mostrar a diferença moral entre o americano e o terrorista que emprega crianças em sua guerra. É necessário ressaltar a superioridade moral dos americanos frente ao inimigo.

A hq também assimila duas críticas recorrentes aos Estados Unidos, especialmente após o 11 de Setembro: 1. Os Estados Unidos é o maior agente terrorista do mundo (lembremos que o Terror surge durante a Revolução Francesa como um mecanismo do Estado contra a população) e 2. Em grande medida, são as ações da política externa norte-americana que cria as condições para o surgimento de terroristas. Quando confrontado com essas questões, a resposta do Capitão América é simples e simplista: o povo americano jamais soube dos atos de seu governo.

O embate final entre o Capitão América e Al-Tariq ocorre em Dresden, reforçando o paralelo com a 2ª Guerra Mundial. Digno de nota é a necessidade de mostrar o Capitão América soterrado em escombros, reerguendo-se e afirmando a luta pelo Sonho e pelo Povo. Uma alegoria perfeita para os Estados Unidos que desejavam superar o trauma do 11/9.

The Four Fives (2021)

Em 2021, como um marco dos 20 anos do ataque, a Marvel publicou The Four Fives escrita por Joe Quesada (editor da Marvel em 2001) e desenhada por John Romita Jr. (você pode ler de graça de maneira oficial clicando aqui – apenas em inglês). O título é uma alusão à sequência de badaladas de sino que indica que um bombeiro faleceu no cumprimento de seu dever, tradicional nos Estados Unidos.

A história referencia Amazing Spider-Man #36 v2 e, claro, não poderia deixar de ter o Capitão América. O diálogo é bem tocante:

Homem-Aranha: Você conhecia alguém?

Capitão América: Cada um deles.

É interessante notar que a 9ª Arte foi a primeira a retratar tal acontecimento nos quadrinhos do Homem-Aranha, talvez tentando tornar assimilável o horror para o público americano e teve o mérito de tentar fazê-lo no calor dos acontecimentos. Porém, em New Deal já é possível ver alguns contornos ideológicos mais complexos ao explicar e justificar a política externa da “Guerra ao Terror” por meio das ações do Capitão América e a história de 2021 só mostra que esse é um trauma não resolvido para os Estados Unidos.

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AKA Bruno Andreotti; Historiador e Mestre do Zen Nerdismo
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