O livro que conta a história definitiva do Superman

Imagine o livro que conta a história do maior herói de todos os tempos. Sim, ele existe.

Texto e imagens por Washington Eloi Francisco*

Alguns livros não são apenas lidos, e sim experienciados. Superman: The Definitive History, lançado no final de 2024 pela Insight Editions, é exatamente esse tipo de obra que convida ao mergulho profundo, tanto intelectual quanto afetivo. Escrito por Edward Gross e Robert Greenberger, esse volume monumental ultrapassa as 400 páginas e impõe presença física e simbólica: mede impressionantes 40 centímetros de altura por 29 de largura, vem acondicionado em uma luva de madeira MDF e apresenta capa dura revestida em tecido com um logo da DC em metal, com escrita em verniz e prata, um acabamento luxuoso e digno dos mais exigentes colecionadores. É mais que um livro; é um artefato. Um presente para todos que, em algum momento da vida, olharam para o céu à procura de uma capa vermelha tremulando ao vento, e nela  encontraram um símbolo de esperança.

Confesso que, quando peguei o livro pela primeira vez, senti que estava abrindo um relicário. A capa já dá o tom: dezenas de versões do Superman voando sobre uma Metrópolis mergulhada em nuvens douradas, com aquele escudo inconfundível em destaque. Aquilo me acertou em cheio. É como se cada versão ali desenhada dissesse: “Essa história também é sua.” E, de fato, é.

O livro se propõe a algo ousado como contar, de forma definitiva (e sim, eles fazem jus ao título), a trajetória de Kal-El, não só nos quadrinhos, mas também no rádio, na TV, no cinema, nos games, nas campanhas sociais e até nas embalagens de cereal. É um passeio afetivo e minucioso por mais de 85 anos de um personagem que ensinou gerações sobre justiça, coragem, sacrifício e compaixão. E isso, meu amigo, não se esquece fácil.

A leitura começa com duas introduções de quebrar a banca para qualquer fã, no qual já estabelecem o tom da obra. Sendo elas, uma escrita por Mike Carlin, ex-editor da DC Comics, e outra por Brandon Routh, que viveu o Superman nos cinemas e na TV.

Mike Carlin relembra os bastidores de um dos momentos mais marcantes da história do personagem: a sua morte em 1992. É impossível não sentir o peso de suas palavras ao relatar como, durante muito tempo, o mundo passou a dar o Superman como certo o fato de ele sempre estar sempre ali, imutável, invulnerável, eterno. O prefácio dele é um puxão de orelha e um lembrete, gritando alto que o Superman importa. E precisamos ser lembrados disso, especialmente em tempos como este de cinismo e desesperança.

Já Brandon Routh, de maneira surpreendentemente íntima, compartilha suas angústias e descobertas ao vestir o manto do herói. Em “Superman: Through the Ages”, ele não fala só como ator, mas como alguém que, como tantos de nós, cresceu tentando entender o que significa ser bom — mesmo quando isso parece fora de moda. É uma introdução comovente, que nos lembra que o Superman também é um espelho onde projetamos o melhor de nós.

Esses dois textos, vindos de lugares diferentes, um da sala de edição e outro do set de filmagem, funcionam como prólogo e prelúdio de uma grande sinfonia narrativa. Eles já entregam que este não é só um livro sobre um personagem. É sobre um ideal em constante adaptação, que resiste ao tempo porque está sempre se reescrevendo com a ajuda de quem acredita nele.

Uma das maiores virtudes de Superman: The Definitive History é que ele abandona rapidamente a frieza enciclopédica para assumir o calor de um verdadeiro diálogo entre tempos, mídias e gerações. Os capítulos não são apenas divisões cronológicas: são portais sensoriais. A cada virada de página, somos puxados por uma força gravitacional que mistura arte sequencial, nostalgia e análise histórica. A leitura se transforma em travessia imersiva.

O início, como seria de se esperar, mergulha no berço do mito. O primeiro capítulo traça um perfil apaixonado e bem documentado da criação do personagem por Jerry Siegel e Joe Shuster, com ênfase não apenas no momento editorial, mas nas angústias sociais e culturais dos anos 1930. As páginas contextualizam como dois jovens judeus de Cleveland canalizaram seus desejos por justiça e proteção em um alienígena órfão, que ao mesmo tempo representava o imigrante, o Messias e o ideal de força benevolente em meio à Grande Depressão. É uma aula de história e mitologia moderna.

Na sequência, os capítulos 2 e 3 detalham como esse herói de papel e tinta rapidamente se transformou em fenômeno midiático. O livro destaca a transição meteórica de Superman das páginas da Action Comics para tiras de jornal, programas de rádio e seriados. É particularmente fascinante perceber como a voz de Bud Collyer no rádio ajudou a definir a dualidade entre Clark e Superman — uma separação de tons e postura que impactaria até as atuações cinematográficas décadas depois. O texto dá espaço a cada meio, valorizando os bastidores, o impacto no público e os processos de adaptação.

O capítulo 4 já aponta para a crescente complexidade editorial da DC. Aqui temos um mapa das fases de ouro, prata e bronze, com atenção aos elementos simbólicos que cada período cultivou ou reformulou. Do lado visual, o livro brilha ao apresentar artes raras e capas icônicas com qualidade gráfica de cair o queixo. Mas é no texto que mora o ouro: cada mudança no design do uniforme, cada acréscimo de um novo poder (como a super hipnose ou a visão microscópica), cada expansão da mitologia kryptoniana, tudo é explicado com propriedade e paixão.

Chegamos, então, aos capítulos médios — 5 a 10 — que são pura glória para quem se interessa pelas manifestações paralelas do personagem. O livro narra com detalhes as adaptações de Superman para rádio, televisão e animação, com destaques para as produções da Filmation, as lendárias animações dos irmãos Fleischer e a série estrelada por George Reeves. A abordagem é cuidadosa ao equilibrar memória afetiva e crítica histórica. Quando o livro entra na era Christopher Reeve, o texto muda de tom e fica mais emotivo, quase reverente. E com razão: é nesse ponto que o Superman deixa de ser apenas um personagem de quadrinhos para se tornar um símbolo transgeracional, ocupando lugar fixo no imaginário popular global.

A parte dedicada a Superman: The Movie (1978) é um primor. As imagens de bastidores, os rascunhos de produção, as entrevistas com Donner e a equipe, tudo contribui para mostrar o quanto aquele filme não apenas revolucionou os filmes de super-herói, mas consolidou uma versão definitiva do herói para milhões de pessoas. A análise das sequências posteriores como Superman II, III, IV. E pontuando que a obra não ignora os tropeços criativos, mas também não adota cinismo barato. O livro opta por uma leitura generosa, entendendo os filmes em seus contextos de produção e recepção respeitando o anacronismo.

Nos capítulos 11 a 14 o foco muda, pois aqui entram os relacionamentos e antagonistas que moldam o universo do Superman. Lois Lane, por exemplo, não é tratada como coadjuvante romântica. Ela é apresentada como personagem em evolução contínua, desde a repórter ousada das primeiras edições até suas versões modernas mais complexas. É bonito ver como o livro recupera suas versões nas diversas mídias: de Margot Kidder a Erica Durance e Amy Adams, passando por Dana Delany nas animações.

Lex Luthor, por sua vez, ganha um mergulho profundo em suas transformações ao longo das décadas. De cientista louco a empresário corrupto, o vilão é lido como reflexo dos temores de cada época: da ameaça nuclear à ganância corporativa, do totalitarismo à manipulação midiática. O mesmo tratamento é dado a vilões como Brainiac, Doomsday e Darkseid, em páginas que cruzam HQs, desenhos animados e games, evidenciando como o mal em Metrópolis é sempre uma metáfora do real, nem o Lobo o problemático caçador de recompensas cósmico da DC que as vezes ajuda e mais avezes atrapalha também é lembrado como algo marcante na trajetória.

Os capítulos finais são um deleite para o leitor que gosta de pensar o Superman como símbolo. Não faltam análises sobre o merchandising, a função social do personagem em campanhas contra drogas, bullying, racismo. Há uma seção inteira sobre sua presença em momentos históricos, como os atentados de 11 de setembro e a eleição de Barack Obama. O escudo “S” aparece não só como logotipo, mas como linguagem visual com múltiplos significados — da resistência política ao marketing pop.

O livro não fecha os olhos para controvérsias: trata com honestidade o reboot dos New 52, discute o impacto da “Morte do Superman” como fenômeno midiático e mercadológico, e analisa com cuidado as tentativas de reinvenção nas mãos de Geoff Johns, Grant Morrison e Brian Michael Bendis. Inclusive, o capítulo que trata da minissérie Superman: Birthright de Mark Waid é uma das seções mais tocantes — ao destacar como a origem do personagem pode ser sempre recontada com frescor sem perder sua essência.

A última parte do livro é quase uma carta de amor à figura do colecionador. Fala dos brinquedos da Kenner, dos bonecos da Mego, dos estojos escolares, das lancheiras, dos videogames. Mas o que emociona é o subtexto: ao exibir imagens de peças antigas, caixas danificadas, gibis amarelados e consoles retrô, o livro parece dizer que colecionar Superman é uma forma de preservar o tempo — e consigo, preservar também quem fomos quando acreditamos, com força total, que um homem podia voar.

E se há algo que Superman: The Definitive History reafirma, é que o Superman continua sendo relevante porque ele se recusa a ser apenas um personagem. Ele é um pacto. Um mito editável. Um sonho em constante reescrita, ora nas mãos de um roteirista, ora nas mãos de uma criança com uma toalha amarrada nas costas.

Também é entender que colecionar HQs não é futilidade. É preservar memória. É guardar sonhos em forma de papel, plástico ou celuloide. É saber que cada figura de ação, cada pôster amarelado, cada edição antiga, é também uma cápsula do tempo, um pedaço de quem fomos e do que queremos ser.

O meu Superman foi aquele dos anos 80, que eu desenhava em folhas de caderno entre uma aula e outra. O seu pode ter vindo das telonas, do TikTok, dos jogos, ou de uma história lida no colo do seu pai. Não importa. O que importa é que continuamos a acreditar que um homem pode voar.

E enquanto houver quem acredite nisso o Superman nunca deixará de existir.

*Washington Eloi Francisco é nerd elevado à 5ª potência – Filmes, séries, quadrinhos e action figures é com ele. Membro do Núcleo de Pesquisa em Quadrinhos da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (NUPEQ-UEMS).

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1 Response to O livro que conta a história definitiva do Superman

  1. Avatar de Phunisher 2911 Phunisher 2911 disse:

    Parabéns Professor, uma maravilhosa aquisição, e um texto excelente, abraços meu amigo

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