Mutarelli sequelado

Resenha de Sequelas, de Lourenço Mutarelli, pela Comix Zone.

É digno de nota o trabalho impecável realizado pela Comix Zone na edição, reedição e compilação da obra de Lourenço Mutarelli nos quadrinhos. Tamanho cuidado não pode ser, como não é, fruto apenas de profissionalismo. Também passa pela amizade com Ferréz, sócio da editora juntamente com Thiago Ferreira. É graças a essa amizade com Ferréz que pudemos ter acesso novamente aos quadrinhos de Mutarelli, que também agora conhece um novo público.

Dando sequência à Capa Preta (2019), Mundo Pet (2020) e Astronauta (2021), Sequelas é uma coletânea de histórias curtas criadas por Lourenço Mutarelli, apresentando seus primeiros trabalhos publicados em fanzines e revistas nas décadas de 1980 e 1990 e alguns outros quadrinhos como o inédito Pato-Camaleão e as tiras Ensaios Sobre a Bobeira, publicadas em 2010 no jornal O Estado de São Paulo.

Na atual edição de Sequelas é possível reconhecer temas que estarão presentes em sua obra literária ou desenvolvidas mais detalhadamente em outros quadrinhos, como o tema do duplo, da sombra, da duplicata, da relação com o pai, presente em O Menino e a Sombra.

É interessante ver Mutarelli flertando com a ficção científica em histórias como O Nada, com a superaventura (ainda que em uma espécie de sátira) em O Capitão Capitãe, emulando o estilo de outros quadrinistas como Angeli, Hal Foster e Dave McKean em O Pato-Camaleão e pontificando sobre o amor em A Love Story de Amor.

Importante mencionar também a história Réquiem, em que narra o falso sequestro sofrido no dia de seu aniversário, em 1988, que desencadeou uma crise depressiva crônica que transformaria completamente sua vida – que nas palavras do próprio autor é uma piada de mau gosto.

Se, como afirma Thiago Ferreira no prefácio, a edição atual de Sequelas pode ser vista como cadernos de rascunho de Mutarelli, onde podemos ver suas ideias em um estado mais bruto antes de serem lapidadas em outras obras, também é verdade que possuem a beleza selvagem da experimentação em fluxo, quase como se pudéssemos ver as primeiras manifestações dessas ideias em seu estado primordial.

Mutarelli disse uma vez: “Tenho um fetiche por essa coisa do cara que sai para comprar cigarro e some. Larga a sua vida inteira para trás”, assim como fez com os quadrinhos ao rumar para a literatura. Porém, o trabalho da Comix Zone foi capaz de mudar a relação do autor com os quadrinhos e Thiago Ferreira afirmou recentemente que está trabalhando em um outro projeto com o autor.

Para nós, leitores de Mutarelli, resta a esperança da volta do pai que saiu para comprar cigarros.

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AKA Bruno Andreotti; Historiador e Mestre do Zen Nerdismo
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