Como venderam para você sua infância (e você comprou)

Resenha de O Efeito He-Man: como a indústria de brinquedos moldou sua infância pelo consumo, de Box Brown.

Resenha de O Efeito He-Man: como a indústria de brinquedos moldou sua infância pelo consumo, de Box Brown.

Se você acompanha os Quadrinheiros há algum tempo (aliás, meu muito obrigado), sabe que um dos assuntos que mais abordamos é a nostalgia, mas com a devida crítica. Portanto, o novo quadrinho-documentário de Box Brown, autor conhecido, reconhecido e premiado, despertou meu interesse na hora em que li o título: O Efeito He-Man: como a indústria dos brinquedos moldou sua infância pelo consumo, lançado pela Editora Mino.

O principal argumento de Box Bronw são estudos que mostram que crianças têm dificuldade em entender a diferença entre programas de TV e propaganda. Portanto, o que assistíamos quando éramos crianças (se você tem em torno de 40 anos, assim como eu e Brown) não eram programas de TV, não eram desenhos animados e sim propagandas de brinquedos.

A partir disso, a narrativa segue uma linha quase conspiracionista, que é evidenciada pelo subtítulo do quadrinho na tradução de Dandara Palankof, como a indústria dos brinquedos moldou sua infância pelo consumo, um tanto quanto diferente do original em inglês: how american toy makers sold you your childhood (como fabricantes de brinquedos americanos venderam para você a sua infância, em uma tradução mais próxima do original). Esse seria o “efeito He-Man”: as propagandas disfarçadas de desenhos que assistíamos na nossa infância e os brinquedos que elas nos venderam e que nossos pais ou responsáveis compraram nos transformaram em adultos nostálgicos e consumidores dessas marcas até os dias de hoje, definindo nossa própria identidade por meio do consumo.

Mais do que isso. Uma vez que estabelecemos uma relação emocional com essas marcas, até mesmo nosso afeto acaba mediado pelo consumo – e isso pode atravessar gerações. E não só o afeto, até nossa própria imaginação é formatada e moldada por essas franquias – talvez hoje mais do que nunca, uma vez que para cada omissão ou ponto obscuro existe uma série, filme, quadrinho, livro ou qualquer outro produto para preencher essa lacuna deixada intencionalmente ou não – e aqui o caso mais paradigmático sem dúvida é Star Wars (que um dia já foi Guerra nas Estrelas) e seu universo expandido. Apesar da ênfase a He-Man no título, o documentário em quadrinhos também aborda (até mais detalhadamente, inclusive) outras franquias como Transformers, GI Joe (aqui Comandos em Ação) e já citada Star Wars.

Como conclui o livro, fomos vítimas de uma propaganda massiva. Nossas identidades, afetos e imaginação moldados por grandes empresas visando o lucro. Alienação, em outras palavras. Inescapável. Mas talvez não seja exatamente assim.

Embora de forma sutil, há provas do contrário no próprio documentário, como a rejeição à morte de Optimus Prime no longa animado de 1986 (aliás, o melhor ano da cultura pop), que tinha por objetivo o lançamento de uma nova linha de brinquedos. A rejeição foi tanta que a Hasbro teve de ressuscitá-lo posteriormente. Prova de que nossa subjetividade não está à disposição do capitalismo – ao menos não inteiramente.

O Efeito He-Man é uma leitura indispensável para as crianças dos anos 80, como foi o próprio autor. Ao realizar uma pesquisa cuidadosa e exposição didática, tem o mérito de abordar a nostalgia pelo viés do consumo ao fazer uma crítica a essas franquias, ou seja, uma crítica que é, também, uma autocrítica, e, embora focada na realidade dos Estados Unidos, diz muito também sobre nós aqui no Brasil que fomos e ainda somos afetados por essas grandes franquias.

Um aviso. Box Brown pode destruir sua infância, mas não mais do que os fabricantes de brinquedos. Você vai agradecê-lo ao final, do mesmo jeito que faz com os criadores de suas franquias preferidas.

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AKA Bruno Andreotti; Historiador e Mestre do Zen Nerdismo
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