J. M. DeMatteis desenterra o passado de Kraven em Homem-Aranha: A Caçada Perdida

O lendário roteirista J. M. DeMatteis, com quase 70 anos, revisita uma história que ele escreveu quando tinha 34. Será que foi uma boa ideia?

Acabou de chegar por aqui em edição única a história assinada pelo lendário roteirista J. M. DeMatteis Homem Aranha: a caçada perdida – que propõe novos elementos para a origem do personagem Kraven, o Caçador. DeMatteis escreveu a aclamada série A Última Caçada de Kraven, em 1987, considerada por muitos como a melhor história do Homem-Aranha de todos os tempos. Esse clássico do Cabeça de Teia, além de trazer um tom sombrio e trágico para o personagem, tinha muitas camadas de leitura, uma história de desenvolvimento de roteiro interessantíssima, e uma estratégia de publicação inovadora (comentada no vídeo abaixo). Depois de 35 anos, o mesmo autor revisita sua criação e nos entrega uma história interessante, que dialoga com o material original, mirando na nostalgia dos leitores.

(SPOILERS ABAIXO E ATÉ O FIM DO TEXTO)

Em Homem-Aranha: A Caçada Perdida, o cenário é a cidade de Portland, no estado do Oregon, costa oeste dos EUA. Foi para essa cidade que Peter Parker e Mary Jane (grávida) foram morar depois da polêmica Saga do Clone. Ben Riley, o clone de Peter que assumiu o manto de Homem-Aranha, ficou em Nova Iorque. Peter perdeu seus poderes e assumiu a posição de professor assistente e de pesquisador no GARID Labs, mas ele está abalado emocionalmente depois de toda essa reviravolta. DeMatteis trata desse desequilíbrio na história, classificando a condição de Peter como Transtorno de Estresse Pós-Traumático.

Na trama, a condição de Peter é agravada porque ele passa a ser o pivô do conflito entre Gregor Kravinoff (pupilo de Kraven) e Aja Orisha (mãe de Gregor). De um lado, o personagem que carrega o legado do caçador quer fazer o que Kraven não fez, matar Peter. De outro, a wakandana Aja quer salvar seu filho da influência de Kravinoff. Talvez o principal problema da história é que a motivação de Gregor é fraca e sua redenção repentina ao final da história (quando ele mata sua mãe) não se sustenta. Mas os espelhamentos que DeMatteis coloca na história em diálogo com A Última Caçada de Kraven, com Peter se recusando a matar seu adversário e com Gregor quase cometendo suicídio da mesma maneira que Kraven, entre outras cenas icônicas, funcionam.

O ponto forte é o passado de Aja, contado aqui para explicar as motivações dela e de seu filho, e que por fim reescreve a história de origem do próprio Kraven. Na história de 1987, Sergei Nikolaevich Kravinoff carregava o estigma da doença mental de sua mãe, da fuga humilhante da Rússia em decorrência da Revolução Russa, da busca obsessiva por sobrepujar as forças dos animais (por isso a perseguição ao Homem-Aranha). Na Caçada Perdida, o passado de Aja mostra que esse Serguei (antes de se tornar Kraven), perdido e atormentado pelo suicídio da mãe e pela decadência moral do pai, encontra um propósito como figura paterna para Gregor. É Aja que inicia Serguei na selva e na atividade de caçador, mas ela vai além e submete Kravinoff a um ritual sagrado com o objetivo de elevá-lo além da condição de mortal. Os traumas que ele carrega impedem que o ritual funcione e o levam a loucura.

É esse ritual, distorcido pela loucura, que Serguei vai repetir em A Última Caçada de Kraven, enterrando vivo o Homem-Aranha, que sobrevive, mantendo sua sanidade e suas convicções. Já na Caçada Perdida, Gregor encontra um Peter Parker muito fragilizado e sem seus poderes. O herói não consegue escapar da loucura, mas Mary Jane e o bebê que ela carrega servem de tábua de salvação. Um final redentor para um personagem que é o saturado por tragédias e traumas nas suas histórias.

DeMatteis (com quase 70 anos) consegue ampliar os horizontes de seu trabalho aclamado, ainda que A Caçada Perdida não tenha a mesma poesia e complexidade da Última Caçada de Kraven (que ele escreveu quando tinha 34 anos). Mas, infelizmente, nem tudo é elogio. A solução mágica da armadura montada em 5 minutos, com partes de armaduras de Wakanda, que fica igual ao uniforme do Homem-Aranha, é muito forçada, preguiçosa. De todo modo, vale o destaque para os desenhos do brasileiro Eder Messias que dão dinamismo e escala para a história.

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