The Orville: onde Star Trek jamais esteve?

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Audaciosamente indo onde a Enterprise jamais esteve?

Em 2017 o canal Fox dos EUA colocou na programação a série The Orville, assinada pelo muiltiartista Seth MacFarlane (criador da animação Family Guy, entre muitas outras produções). O tom de comédia desagradou fãs de Star Trek, que viram na série uma cópia mal feita da obra de Gene Roddenberry. Em 2022 a terceira temporada da série, agora nas mãos do canal Hulu/Disney, redefine o que pode ser feito com uma série de TV como essa, com roteiros e efeitos gráficos que deixam para trás algumas das mais recentes produções de Star Trek e Star Wars.

Seth MacFarlane não esconde que é um aficionado pelos personagens e pela dinâmica de Star Trek clássica. Apesar disso, ao ser acusado de plágio, tanto ele quanto a Fox justificaram as escolhas do roteiro como um compilado de diferentes tropos de ficção científica que já existiam antes da Enterprise de Kirk e Spock, misturada a uma visão otimista de futuro. Mas não seria essa mesma a descrição de Star Trek? Na prática The Orville imita tudo: a federação, os alienígenas hostis, a inteligência artificial que quer entender os humanos, a interação social entre os tripulantes da nave e seus conflitos pessoais, o simulador de realidades, o sintetizador de alimentos. A única coisa que não existe na série é o teleporte.

Momento em que Kelly Grayson (futura comandante) é pega em flagrante pelo marido (Ed Mercer, o futuro capitão). Mais tarde o ex-casal divide a ponte de comando da nave Orville, com toda a tripulação ciente da infidelidade.

Além da acusação de plágio, as críticas em 2017 falavam mal da forma como o humor era usado na série. Vendida como um paródia de shows que se passam no espaço, a primeira temporada de The Orville carrega as tintas nas gafes e desconfortos do choque entre culturas em aspectos como hábitos sexuais, consumo de álcool, religião, o próprio conceito de humor, entre outros. Mas a galhofa compete com a intenção dos roteiros de tratar esses mesmos temas de forma filosófica e reflexiva, impactando o desenvolvimento dos personagens. Em geral a comédia funciona melhor com personagens que repetem padrões e não mudam, por isso a série optou por ter momentos quase aleatórios de humor, desconectados da história central. Eu mesmo quase desisti depois de alguns episódios, mas a recepção do público foi suficiente para a renovação para mais uma temporada e, melhor ainda, um aumento no orçamento por episódio.

A segunda temporada deixa de parecer um show de esquetes e melhora a ambientação nos apresentando cenários visualmente mais elaborados, batalhas espaciais mais complexas, com roteiros que aproveitam as boas ideias da primeira temporada e vão além. Personagens como o piloto Gordon Malloy e o navegador e engenheiro John LaMarr, que funcionavam mais como uma dupla de adolescentes imaturos, são separados e em núcleos diferentes ganham arcos narrativos próprios.

A história em duas partes intitulada Identidade, representa bem essa virada da série. Nela o personagem Isaac (a inteligência artificial) é levado para seu planeta natal, que ainda não se juntou à Federação. Ao descobrir o passado sanguinário daqueles seres (Kylons), os tripulantes da Orville e toda a Federação são levados a uma situação limite e a relação dos personagens com Isaac muda completamente (com consequências maiores ainda na terceira temporada).

Vista aérea do planeta dos Kylons, consequência do orçamento substancialmente maior da segunda temporada.

Entre os temas dessa segunda temporada temos os problemas do “primeiro contato” com culturas tecnicamente menos desenvolvidas ou muito mais avançadas, os conflitos entre membros da Federação e as alianças estratégicas diante de ameaças comuns e a viagem no tempo. Os 14 episódios da segunda temporada foi ao ar entre 2018 e 2019, e então veio a pandemia…

Da Fox a série foi para o canal Hulu, que é um dos braços da Disney. Por causa da pandemia e das restrições de circulação, uma parte do público descobriu a série em 2020. Com o aumento na audiência a série ganhou um orçamento bem maior, com episódios mais longos (são 10 na terceira temporada). O primeiro episódio na casa nova, que só foi ao ar no meio de 2022, é um autoelogio ao nível de exelencia dos efeitos e da computação gráfica.

Com mais recursos e mais tempo (os episódios variam entre 60 e 80 minutos), os roteiros têm espaço para aprofundar os dramas pessoais ao mesmo tempo que nos brinda com cenas grandiosas. Num determinado ponto da história temos 4 frotas (duas de cada lado) que se enfrentam numa batalha caótica, com equipes diferentes em missões específicas. O grandioso coletivo e o intimista e pessoal vão se intercalando e tratam de assuntos como diplomacia e alianças políticas de um lado, e identidade de gênero, suicídio e sacrifício pessoal do outro.

Desde o início a série conta com a produção de Jon Favreu (pai do Mandaloriano), que também dirige o primeiro episódio da primeira temporada. Outro nome importante que escreve e dirige vários episódios é Brannon Braga (roteirista de incontáveis episódios e filmes da franquia Star Trek). Não existe previsão para uma quarta temporada, mas a boa recepção do público e da crítica tem estimulado a imprensa a publicar boatos sobre o futuro da série. De qualquer maneira o final da terceira temporada não deixa nenhum grande gancho para uma continuação.

De todas as histórias contadas na série, a que eu achei mais impactante é a dos Moclans que trabalham e vivem na nave Orville – o comandante Bortus, seu marido Klayden e seu filho Topa. Ao longo de toda a série presenciamos a relação entre eles e os outros tripulantes da nave, numa convivência que vai acrescentando camadas de complexidade e conflito entre ideologia e relações parentais, diplomacia e laços afetivos. Do nascimento da criança de um ovo chocado na primeira temporada até a disputa política e ideológica entre a federação e os Moclans sobre a identidade de gênero de Topa (já adolescente na terceira temporada), temos diálogos muito bem escritos e ótimos atores entregando toda a intensidade dos momentos dramáticos.

Se puderem assistam (no Star+). É imperdível!

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9 Responses to The Orville: onde Star Trek jamais esteve?

  1. Avatar de Dado Dado disse:

    Eu adoro essa série e de fato ela começou com um orçamento modesto mas na 3 temporada já notamos uma certa ” sofisticação ” na produção eu gosto de tudo.

  2. Avatar de Paulo Arnaldo Machado Paulo Arnaldo Machado disse:

    Orville é uma ode, já não mais disfarçada,
    à franquia Star Trek. Mas que acabou ganhando sua própria “força”, por assim dizer. Fãs de sci-fi e notadamente os trekkers amaram a série. Que venham mais temporadas!

  3. Avatar de Geísa Cunha Geísa Cunha disse:

    Estamos esperando ansiosamente a quarta temporada, simplesmente excelente! Nós surpreendeu no começo parecia uma comédia escrachada, *puro engano!* Conforme cada episódio íamos ficando cada vez mais envolvidos , querendo ver mais e mais os episódios,! Na torcida pela continuação desta série maravilhosa!!

  4. Avatar de Trekker Trekker disse:

    Sou fã de Star Trek e achei Orville uma ótima série, até melhor do que Discovery

  5. Avatar de Dami Dami disse:

    Eu adorei a série ❤️ queria muito uma continuação!

  6. Avatar de Evandro maynard da 6 Evandro maynard da 6 disse:

    E legal. mais não pode ser comparado a Star Trek The Orville e mais comédia ficou um pouco mais sério com as temporadas seguintes mais não foi muito além o conteúdo ficcional fraco pura fantasia uma paródia de Star Trek mais como disse e legal.

  7. Avatar de Angel Angel disse:

    Lindas team meu favorito serio

  8. Avatar de Sam Sam disse:

    Orville acerta onde muitos episódios insípidos de Star Trek falharam. Muitos episódios de Star Trek (e não estou falando de ” Picard” ou “Strange New Worlds”) tinham um começo e meio com um final com soluções instantâneas e até infantis. Orville pelo menos não insulta a inteligência dos fãs e oferece soluções um pouco menos óbvias depois de certos caminhos mais árduos durante a trama. O tom de comédia ficou excelente .

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