Adaptar O Eternauta não é só contar a mesma história — é confrontar o que dela ainda nos persegue.
Por Washington Eloi Francisco*
Se você é como eu — alguém que cresceu amando quadrinhos, defendendo essa mídia como arte, cultura e resistência — então entenderá por que me emocionei tanto com a estreia da série O Eternauta na Netflix. Não é todo dia que vemos uma adaptação que compreende, respeita e potencializa a força da obra original. E o mais surpreendente é que isso veio de uma história em quadrinhos argentina dos anos 1950, que atravessou décadas, ditaduras, censuras e agora ganha uma nova vida em plena era do streaming. Mas O Eternauta nunca foi apenas uma HQ. Foi — e continua sendo — um marco de resistência.
Criada por Héctor Germán Oesterheld e ilustrada por Francisco Solano López, El Eternauta começou a ser publicada em 1957 na revista Hora Cero Semanal. A trama, para quem não conhece, acompanha Juan Salvo, um homem comum, que vive em Buenos Aires com sua família. Subitamente, uma misteriosa e mortal nevasca começa a cair do céu, matando qualquer um que entre em contato com os flocos tóxicos. É o começo de uma invasão alienígena que se desenrola lentamente, de forma sufocante e existencial. O diferencial? Não temos um herói solitário com superpoderes salvando o mundo, mas sim pessoas comuns, unidas pela sobrevivência, enfrentando o terror com humanidade e solidariedade.
E talvez por isso a obra tenha se tornado um símbolo tão poderoso. Publicada em meio ao cenário de inquietação política na Argentina, O Eternauta falava de resistência coletiva num tempo em que falar de resistência podia custar a vida. E custou. Oesterheld foi sequestrado e morto pela ditadura militar argentina em 1977, junto com suas quatro filhas, todas militantes. Oesterheld virou mártir. Virou bandeira. Virou luto e denúncia. E agora, sua obra virou série.
Dirigida por Bruno Stagnaro e com o gigante Ricardo Darín no papel de Juan Salvo, O Eternauta chegou à Netflix no dia 30 de abril de 2025, e que estreia! Com produção de ponta, filmagens em mais de 35 locações reais, uma Buenos Aires gelada, silenciosa, apocalíptica, a série respeita o tempo da história. Ela não atropela, não busca ação gratuita, mas mergulha na angústia do cotidiano interrompido, na construção psicológica dos personagens, e na força do coletivo diante da barbárie.
Mas o que realmente faz dessa adaptação algo extraordinário é a ponte emocional com o original. A série soube beber da fonte com sensibilidade, e isso tem nome: Martín Oesterheld, neto do autor, atuou como consultor da Netflix para garantir que a obra de seu avô fosse tratada com o devido respeito. E foi. Os temas centrais estão todos lá — o horror da guerra, a perda, a impotência frente a um sistema maior e opressor — e, ao mesmo tempo, a esperança que só nasce da união. O Eternauta fala de um inimigo que pode vir de fora, mas a verdadeira ameaça mora dentro da gente: o egoísmo, a omissão, a covardia diante do sofrimento alheio.
Em um mundo cada vez mais individualista, polarizado e contaminado por fake news, discursos de ódio e negacionismo, é quase um alívio encontrar uma obra como essa. Porque ela é, ao mesmo tempo, uma distopia e uma profecia. Uma metáfora do presente e um chamado à ação. O Eternauta nos faz perguntar: se a nevasca começasse hoje, com quem você contaria?
Ver uma história em quadrinhos com esse peso histórico, simbólico e narrativo ser adaptada com tanto cuidado me dá esperança não só como fã, mas como educador, como cidadão, como alguém que acredita no poder das histórias para formar consciências. Não é apenas uma adaptação que deu certo — é um lembrete de que a cultura importa, de que o quadrinho é um território legítimo de memória, crítica e transformação social.
Portanto, se você ainda não assistiu à série, assista. E depois, vá atrás da HQ – que conta com uma nova edição em português pela Pipoca e Nanquim, seguindo os padrões de excelência da editora. Leia. Releia. Compreenda por que esse clássico atravessou gerações. E se emocione, como eu, ao perceber que O Eternauta continua, décadas depois, sendo uma das narrativas mais urgentes da nossa época.
Precisamos de mais histórias assim. Precisamos de mais adaptações como essa. Porque no fim das contas, o verdadeiro herói nunca foi Juan Salvo. Somos nós, quando decidimos resistir juntos.
*Washington Eloi Francisco é nerd elevado à 5ª potência – Filmes, séries, quadrinhos e action figures é com ele. Membro do Núcleo de Pesquisa em Quadrinhos da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (NUPEQ-UEMS).







