Apresentação realizada nas 7as Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos de 2023, evento organizado pelo Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA/USP.
Título original “Verdade, Justiça e…? O Superman da Guerra Fria ao mundo globalizado”.
RESUMO
O presente trabalho pretende realizar uma investigação do imaginário heroico norte-americano a partir das histórias do Superman publicadas entre 1948 e 2021, portanto, o período que vai da Guerra Fria ao mundo globalizado, abordadas como elementos constitutivos do imaginário como dimensão da história e, como tal, produtoras de sentidos historicamente e socialmente construídos, que conferem sentido ao real ao mesmo tempo que o produz. O referencial teórico serão os estudos do imaginário de Gilbert Durand. A partir desse referencial seria possível, por meio da análise dos temas e imagens que compõem essas histórias, remetidas ao contexto de sua produção, encontrar as correlações na cultura e as mudanças sociais subjacentes às obras, identificando configurações próprias não só dos criadores individuais, mas também de agentes sociais e categorias sociais, evidenciando como essas histórias compõem um americanismo (construto identitário nacional composto pelo nacionalismo, tradição, progressivismo e democracia) em sua historicidade, da Guerra Fria ao mundo globalizado.
1.
O presente trabalho pretende realizar uma investigação do imaginário heroico norte-americano a partir das histórias do Superman publicadas entre 1948 e 2021, portanto, o período que compreende a divisão geopolítica do mundo entre capitalismo e socialismo, consubstanciados em duas grandes potências que os representavam, respectivamente os Estados Unidos e a União Soviética, tradicionalmente denominado de Guerra Fria, e o período de expansão do capitalismo em escala global e hegemonia do neoliberalismo comumente denominado de globalização.
Essas narrativas serão abordadas como elementos constitutivos do imaginário como dimensão da história e, como tal, produtoras de sentidos historicamente e socialmente construídos, que conferem sentido ao real ao mesmo tempo que o produz. Esses sentidos encontram-se materializados em imagens visuais e linguísticas nas obras a serem analisadas, concretamente, o comic ou comic strips, produtos que dão tangibilidade a essas narrativas, que formam, em seu conteúdo e materialidade, conjuntos coerentes e dinâmicos em torno do personagem Superman.
O referencial teórico para tal análise serão os estudos do imaginário, mais especificamente aqueles realizados por Gilbert Durand (DURAND, 2012) voltados ao imaginário. Uma vez que é possível entender os super-heróis como uma espécie de mitologia moderna a partir dos estudos sobre a Jornada do Herói, também chamado de monomito, de Joseph Campbell (CAMPBELL, 1989), seria possível, por meio da análise dos temas e imagens que compõem as narrativas, remetidas ao contexto de sua produção, encontrar as correlações na cultura e as mudanças sociais subjacentes às obras, identificando configurações próprias não só dos criadores individuais, mas também de agentes sociais e categorias sociais, evidenciando como essas histórias compõem um americanismo, construto identitário nacional composto pelo nacionalismo, tradição, progressivismo e democracia (TOTA, 2020) em sua historicidade, da Guerra Fria ao mundo globalizado.
2.
Superman nasceu como um filho do New Deal e de Roosevelt, com um lema poderoso: Verdade, Justiça e o American Way. A verdade era trazida pela ciência; a justiça, pelo devido processo legal, a crença nas instituições; e o american way era ajudar os necessitados e oprimidos, depois defender a lei e a ordem e, finalmente, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, defender a democracia.
Nos anos 1950 e 1960, durante a Guerra Fria, as histórias do personagem representam os medos e sonhos dos Estados Unidos no que era entendido como uma guerra não somente entre sistemas políticos e econômicos antagônicos, mas entre modos de vida antagônicos. É nesse período que o personagem se cristaliza como representante do otimismo e do american way. Durante os anos 1970 houve uma contestação dos valores tradicionais americanos. O personagem então começa a duvidar de si mesmo, da importância e relevância de seu papel. Pela primeira vez é colocado um limite às suas ações, limite moral, ético: o Superman pode inspirar a humanidade, mas não a governar.
Como um contraponto a essa perspectiva, o Superman do filme de 1978 surge como uma recuperação da visão dos anos 1950 e 1960, portador de um otimismo e uma inocência perdidos, e é aclamado pelo público. Durante os anos 1980 a história do personagem é totalmente reformulada. Superman é imbuído de valores americanos em um contexto neoliberal em que a utopia de massas se apartou das aspirações individuais.
A partir do final dos anos 90 e das duas primeiras décadas do século XXI o personagem passa por uma espécie de internacionalização, que é cristalizada com a mudança de seu lema em 2021: Verdade, Justiça e um Amanhã Melhor. Essa internacionalização faz com que o Superman do início dos anos 2000 seja visto como compartilhando uma espécie de agenda liberal cosmopolita, empoderando grupos com a Organização das Nações Unidas à custa do poder americano (EATWELL; GODWIN, 2020, p. 118), o que faz com que passe a ser identificado com um viés liberal, esquerdista e democrata.
3.
A partir da identificação de temas recorrentes nas histórias do Superman é possível elencar elementos caros ao imaginário heroico americano, consubstanciado em um americanismo que mudou historicamente de uma defesa de princípios identitários e nacionalistas (entre as décadas de 1930 a 1960), para uma crítica a esses valores durante a década de 1970 e, na década de 1980, constituiu-se de uma defesa aberta de um individualismo com tons conservadores, para, posteriormente, entre o final da década de 90 e início do século XXI, adotar um viés internacionalista e alinhado a uma visão de mundo liberal.
REFERÊNCIAS CITADAS
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Pensamento: 1989.
DURAND, Gilbert. Sobre a exploração do imaginário, seu vocabulário, métodos e aplicações transdisciplinares: mito, mitanálise e mito crítica. In: Revista da Faculdade de Educação, v. 11 n. 1-2: 1985.
DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário. São Paulo: Martins Fontes: 2012.
EATWELL, Roger; GOODWIN, Matthew. Nacional-populismo: a revolta contra a democracia liberal. Rio de Janeiro: Record, 2020.
JEWETT, Robert e LAWRENCE, John Shelton. The American Monomyth. New York: Double Day, 1977.
TOTA, Antonio Pedro. Os americanos. São Paulo: Contexto, 2009.
TOTA, Antonio Pedro. O imperialismo sedutor. São Paulo: Cia. Das Letras, 2020.
WUNENBURGER, Jean-Jaques. O Imaginário. São Paulo: 2007.





