A traição na tradução

tradução quadrinhos quadrinheirosQual a importância da tradução no que consumimos? 

Tradução é a arte de versar o texto de um idioma a outro, tarefa que inicialmente parece simples para alguém que tem conhecimento sobre os dois idiomas envolvidos. Porém não é o que a experiência prática da atividade explicita, este é um trabalho árduo que possui qualidades específicas e uma problemática que envolve cultura, sociologia, história e o estudo profundo das línguas. Mas, pesar da complexidade envolvendo a atividade, existem casos em que a alteração do tradutor é grave, e pode mudar o sentido do texto e discussões posteriores envolvendo as obras.

Traduttore traditore (tradutor traidor) é um famoso provérbio italiano que significa a necessidade de concessões em uma tradução, o tradutor precisa trair diversas vezes em um trabalho. Todo tradutor necessita fazer concessões e adaptar certas questões, pois existem diferenças significativas entre os idiomas. No documentário A Mulher com os Cinco Elefantes é relatada a vida de uma mulher ucraniana chamada Swetlana Geier que se mudou para a Alemanha e versou do russo para o alemão os cinco elefantes de Fiódor Dostoievski (Crime e Castigo, O Idiota, Os Demônios, O Adolescente e Os Irmãos Karamazov). Ela relata que as línguas são incompatíveis, inclusive citando que é impossível traduzir perfeitamente um poeta como Aleksandr Puchkin.

Como exemplo podemos citar uma questão quanto a tradução do russo ao português, no russo não existe artigo definido e indefinido. Foi lançada a obra de Dostoievski chamada Um jogador (traduzido por Boris Schnaiderman e lançado pela editora 34), mas que também poderia ser traduzida como O jogador, porém por uma análise do tradutor quanto a narrativa ele acabou optando por Um jogador.

O ofício da tradução é complexo e o conhecimento do tradutor quanto ao personagem e as culturas envolvidas pode ser vital na qualidade do texto final. Paulo Bezerra que traduziu os mesmos cinco elefantes que Swetlana Geier, porém para o português, em determinados trechos altera expressões populares russas para as brasileiras que possuem o mesmo sentido, no entanto sempre acrescenta uma nota de rodapé informando qual é a expressão original, explicando o sentido e contextualizando como era utilizada na Russia do século XIX. Paulo Bezerra cita inclusive que o tradutor muitas vezes precisa trabalhar como ator dentro da tradução, necessita compreender a forma que as personagens falam e agem para que o texto possa ser versado da melhor forma possível.

As traduções de Dostoievski no Brasil produzidas pela editora 34 são um exemplo para outras editoras e tradutores do país inteiro. Os trabalhos são conduzidos por pessoas com currículos acadêmicos especializados no mundo russo e em sua literatura, estas traduções são quase que como um presente para o povo brasileiro e servem de base de como um trabalho do tipo pode ser conduzido.

Através da tradução dos clássicos russos podemos encontrar um caminho interessante do que pode ser feito, mas será que nos quadrinhos é muito diferente?

Em 2017 Alan Moore soltou uma carta agradecendo os tradutores de suas obras mundo afora e citando que fica impressionado com o trabalho em suas obras. Segue trecho da carta com tradução de Érico Assis:

Sempre fico impressionado/perplexo com a quantidade de trabalho que deve envolver traduzir o que faço, para o idioma que seja. No mínimo porque o uso que faço da língua inglesa costuma implicar em grandes doses de peculiaridades idiomáticas que possivelmente não sejam traduzíveis com perfeição. E não é infrequente que estas obras incluam experimentos linguísticos como “O Porco de Hog”, em Voz do Fogo, e “Round the Bend”, em Jerusalém. Como já disse, fico impressionado que alguém sequer tente traduzi-las e não é um encargo que eu inveje. Imagino que o que eu diria a qualquer tradutor é que, se você se empenhar a entender o que devem ter sido minhas intenções por trás de trechos difíceis e expressar estas intenções que percebe da maneira que lhe parecer mais potente e sonora, não há mais nada que seria razoável a um autor pedir a seu tradutor ou tradutora.

Segue o link para a matéria completa do texto de Érico Assis no blog da Companhia das Letras sobre a carta do autor.

Alan Moore sabe o quão complexo é traduzir suas obras, o que muitas vezes pode levar a sacrifícios e erros. Um exemplo interessante de tradução na obra de Moore é a edição 12 de Promethea onde as cobras Mike e Mack explicam as cartas do tarot a Promethea com rimas no original em inglês, e a tradução brasileira (de Octávio Aragão) conseguiu manter parte das rimas e este ponto acrescenta uma certa beleza ao texto, necessária para que a edição cause o efeito desejado pelo autor.

Sidney Gusman em seu curso de edição de quadrinhos cita que só se tornou um editor de quadrinhos na Maurício de Souza Produções com as Graphic MSP, onde ele acompanha todo o processo de criação do quadrinho com os artistas envolvidos. Ele cita que anteriormente a isso, quando era editor de quadrinhos relacionado apenas a traduções, ele se via como um editor de texto na verdade. Pois seu principal trabalho era aperfeiçoar os textos dos balões e não alterar aspectos específicos na arte e concepção da obra como um todo.

Portanto, o editor e tradutor de quadrinhos age praticamente apenas como um tradutor de texto, de forma similar a tradutor de livros.  

Algumas traduções são questionáveis. Vou me ater a dois exemplos no mundo dos quadrinhos que mudam em parte o sentido do texto original. Um exemplo citado por Bruno Andreotti, o Nerdbully, no nosso mais novo livro Super-heróis e Política: Reflexões históricas, filosóficas e teológicas no gênero superaventura, no capítulo Super-heroísmo e Fascismo é na tradução do quadrinho Batman O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller na fala de Lana Lang, em que “processo legal” é substituído por “justiça” e “direitos civis” torna-se “direitos humanos”, alterando significativamente o sentido original, ainda que trazendo a discussão para o contexto brasileiro.

Outro exemplo complexo na tradução de quadrinhos é em Hellblazer #51, onde John Constantine vai a uma lavanderia e relembra seu passado. E em certo momento o personagem cita “girfriends, the odd boyfriend” dando a entender a já estabelecida bissexualidade de Constantine, porém em dois casos de tradução do trecho a questão do namorado é omitida e o sentido do balão é até alterado, em uma tradução de fãs é dito “namoradas, ao contrário dos amigos”, já na tradução da editora Panini se encontra “namoradas, o ocasional melhor amigo”. Todas as traduções desta edição omitem a questão do namorado.

Inclusive é possível encontrar discussões de fãs quanto a sexualidade do personagem, fãs que ocasionalmente se incomodam com a alcunha da bissexualidade do mago inglês, atribuindo suas relações com outro homem na fase de Brian Azarello como capricho do autor norte-americano ou apenas uma manipulação do personagem com o outro homem que ele estava se relacionando. A discussão ficou ainda mais forte quando na fase DC You, o personagem se relaciona com um homem logo nas primeiras edições, fato que veio recheado de críticas de leitores com o velho pretexto de alteração de um personagem que deveria se manter em suas bases.

É possível perceber que a tradução é um ofício complexo, que o zelo pela transposição contextualizada é algo positivo para qualquer obra que é transposta de um idioma a outro. Seja a questão do sentido do texto ou a estética linguística de certas personagens, Paulo Bezerra cita a passagem do príncipe Michkin em O Idiota no vídeo acima e é possível perceber uma questão parecida em Promethea, onde o estilo das personagens dão identidade ao texto e são necessários para que a mensagem seja feita da forma mais impactante possível.

Mudanças são necessárias pela incompatibilidade das línguas e culturas, porém mudanças como a questão da sexualidade de um personagem ou a mudança de direitos civis para direitos humanos podem mudar demais o sentido de uma discussão a ponto de tornar quase irreconhecível dentro de uma história. Talvez o caso principalmente de O Cavaleiro das Trevas valesse uma nota de rodapé para que ficasse claro que a discussão foi feita pensada para os Estados Unidos, porém o tradutor tentou ambientar o leitor brasileiro. Já em Hellblazer soa até mais incongruente pois o sentido dos balões é alterado em um ponto onde página até muda a linha de raciocínio do protagonista. Traduttore Traditore é um aspecto inegável do ofício e estará presente em cada obra traduzida que teremos contato, portanto o que vale é olhar com respeito e cuidado para as edições e traduções que consumimos, pois, a tradução pode ser tanto um pesadelo quanto um presente para o leitor.

Sobre John Holland

Procurando significados em páginas de gibi enquanto viaja pelos trilhos do conhecimento e do metrô. Sempre disposto a discutir ideias e propagar os quadrinhos como forma de estudo, adora principalmente a Vertigo, está sempre disposto a conhecer novos quadrinhos e aprender o máximo de coisas possível!
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Uma resposta para A traição na tradução

  1. Octavio Aragão disse:

    Muito obrigado pela citação, John. A família, penhorada, agradece.

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