The Crew e o cancelamento das vozes negras na Marvel

A Marvel contrata roteiristas negros para escrever histórias de personagens negros, já que é obvio que uma equipe criativa diversa dá mais autenticidade, realismo e nuance para seus heróis e vilões. Mas essas vozes são ouvidas?

Já falei aqui do personagem Blue Marvel, criação do roteirista Kevin Grevioux, que foi inserido no Universo da Marvel num retcon. A sacada de Grevioux foi justificar a ausência de registros e memórias sobre o passado heroico do personagem em função de uma ação deliberada do governo dos EUA para apagar sua história. Essa metáfora sobre o apagamento da história dos negros fica mais interessante quando comparamos duas publicações com o mesmo mote – The Crew (de 2003) e Black Panther and the crew (2017).

Os dois títulos contam a formação de um grupo de heróis negros. E os dois títulos foram cancelados depois da primeira edição (a ideia inicial é que seriam títulos regulares, mas devido ao cancelamento acabaram virando uma minissérie).

The Crew foi escrita pelo roteirista Christopher Priest e desenhada pelo nosso Joe Bennett. Priest escreveu histórias do Falcão e do Luke Cage pra Marvel, e do Aço para a DC. Foi responsável por todo o volume 3 do Pantera Negra, de 1998 a 2003 – quando foi cancelado. Então T’Challa migraria para as páginas de The Crew, que seria uma versão dos Vingadores só com heróis negros.

O primeiro (e único) arco apresenta a cada edição um personagem desse novo grupo de heróis. Começa com James Rhodes (Máquina de Guerra), desempregado e falido, tendo que lidar com a morte de sua irmã, vítima do crack. Na sequência conhecemos Junta (o ex agente secreto Danny Vicente), e o Tigre Branco (o policial Kasper Cole), ambos personagens coadjuvantes do longo arco de Priest no Pantera Negra. E por fim o ativista Josiah X, membro de uma organização semelhante à Nação do Islã e do Partido dos Panteras Negras (emulando a figura histórica de Malcom X). Josiah é filho de Isaiah Bradley, o Capitão América negro. Usando o uniforme que foi do seu pai, ele é conhecido como Justiça.

Todos estão atrás do mesmo vilão e a ação se passa no bairro Little Mogadishu. No final da história fica implícito que esse grupo de heróis formou uma aliança para futuras ações conjuntas.

Em entrevistas Priest afirmou que a sua história não era sobre raça, mas o público e a crítica classificaram The Crew como uma “publicação negra”, no sentido de que era feita, era sobre, e, portanto, era para pessoas negras. Na cultura norte americana essa mesma ideia existe na música desde antes do nascimento do rock (race music) e no cinema (Black Exploitation).

O título Black Panther and the crew foi escrito pelo jornalista e escritor Ta-Nehisi Coates, que atualmente escreve o Capitão América, autor do volume 4 do título do Panthera Negra, que serviu de inspiração para muito elementos do filme do personagem de 2018. A escritora e poeta Yona Harvey, roteirista da minissérie World of Wakanda, contribuiu com a narrativa. E apesar do tom desse novo título ser bem diferente do The Crew de Priest, a recepção do público foi parecida.

Na história os personagens Pantera Negra, Tempestade (que adota o nome Blue), Luke Cage, Misty Knight e Eden Fesi (Teleporter), se reúnem no Harlem para investigar o assassinato de Ezra Keith, uma ativista dos direitos civis que morreu enquanto estava sob custódia da polícia. Policiais robôs (Americops) são enviados para conter os protestos motivados pela morte de Ezra. Ao mesmo tempo os personagens descobrem que no passado, no Harlem, um grupo de super-heróis negros foi criado para combater a violência racial, mas, sem que soubessem, foram financiados e manipulados pela Hydra (Ezra era um desses super-heróis).

A Hydra ainda continua a influenciar o conflito racial, para alimentar o caos e tirar vantagem disso. Qualquer semelhança com a influência da Rússia, que através do Facebook, pagou publicações, criou grupos e convocou protestos para desestabilizar a eleição de 2016 não é mera coincidência.

Apesar da história de Black Panther and the Crew falar sobre o conluio entre políticos e empresas privadas que protegem seus interesses particulares e corporativos em detrimento do interesse público, um pano de fundo bastante recorrente nas histórias em quadrinhos de super-heróis desde o Superman de 1939, “o público” reagiu mal. No caso, o público (majoritariamente masculino) que inunda as redes sociais com comentários agressivos.

O argumento é que nos diálogos entre os personagens negros havia a ideia de uma segregação dos negros em relação aos brancos, já que a convivência é sempre marcada pela violência e a opressão. Racismo contra os brancos, disse “o público”. Mas para além da reação dos raivosos que não querem ler histórias com conteúdo político (como se fosse possível uma coisa dessas), o que chama a atenção é a distância entre dar voz para toda a diversidade que compõe o tecido social norte americano (coisa que a Marvel faz desde seus primórdios), e fazer de fato essas vozes serem ouvidas pelo público consumidor.

Os dois cancelamentos deixam claro que o público tem dificuldade de ouvir certos pontos de vista. Ao invés de ouvir o argumento e ponderar, o leitor reage ao argumento e se coloca na defensiva. Mas a aposta da Marvel é insistir.

O filme do Pantera Negra, por exemplo, mostra uma sociedade que se fechou para o mundo exterior, que se desenvolveu por seus próprios méritos, superando em muitos sentidos o modelo de sociedade ocidental, e que por fim se abre, não para aprender, mas para ensinar. No fundo é o mesmo debate apresentado em Black Panther and the Crew, só que em momentos diferentes dessa construção de um outro modelo de sociedade.

Só que o filme foi um enorme sucesso. A morte precoce do ator Chadwick Boseman reacendeu a reverência do público pelo filme. As vozes ali presentes foram ouvidas. E o mundo vai se transformando por causa dessas vozes que tem no entretenimento uma ferramenta poderosa.

Que a Marvel siga insistindo e que outras The Crew emerjam!

Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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