14 obras de quadrinhos em preto e branco

O caminho mais rápido para contar uma história que está dentro de você.

Em se tratando de narrativa, diz gente incauta e inculta que não há mais o que ser descoberto, dito ou desvendado, e que o resto é só variação de um mesmo assunto já contado mil vezes. Em que pese alguma verdade, a afirmação tem a densidade de um fio de cabelo na ventania, raspa de gelo na água quente, floco de sucrilho na cuia de leite. Você entendeu. Assim, que venha o óbvio, afinal ele precisa ser dito.

Cinema e quadrinhos são parentes de primeiro grau. As duas linguagens compartilham da mesma lógica narrativa. A história se dá por meio de um movimento de quadros, de cenas dentro de uma sequência ordenada pelos autores. A diferença fundamental é que, no cinema, você, espectador, é passivo diante da narração. Como o passageiro de uma montanha russa, sem controle da velocidade ou da direção do movimento, tem seu olhar direcionado de acordo com o desejo do diretor do filme.

Ou da falta de objetivo também

Já nos quadrinhos, você, leitor, é um sujeito ativo na narrativa. É o leitor quem projeta a voz dos personagens, confere intensidade a diferentes palavras no texto, direciona o olhar nas imagens, controla o foco de exposição e concebe o tempo que uma sequência levou para acontecer.

É natural, portanto, que os quadrinhos tenham mais chance de imergir o leitor dentro de uma narrativa. Razoável também pensar que os quadrinhos tenham mais nuances narrativas, de acordo com a subjetividade de cada leitor. Assim, se cada pessoa é um universo, uma história pode ser lida de milhares de formas e cada narrativa compõe um multiverso.

Óbvio, certo? Agora um passo adiante.

Enquanto cinema e quadrinhos, coloridos e espalhafatosos, com cortes rápidos e cores intensas, podem excitar os sentidos, divertir e extasiar na medida da pretensão dos autores, obras em branco e preto tem menos interesse em divertir, e mais em provocar uma reação emocional sutil e íntima.

No cinema isso é evidente. Exemplos não faltam.

Não por acaso, mangás e tiras em quadrinhos têm no preto e branco sua forma mais expressiva (e merecem um post próprio). Variações disso são quase um insulto.

Akira que saiu pela Globo, estou olhando para você.

Mas, que fique claro, não se escorrega aqui naquele papo pretensioso de “obras em branco e preto são melhores do que as coloridas” – ginasial como medição de pintalacho, torneio de cuspe ou quem aguenta tomar mais rabo de galo sem se arrepender de ter nascido. Ao contrário, aqui se oferece a chance de lembrar algumas obras que, se fossem coloridas, seriam um desperdício de reflexão, que ganham valor por serem em branco e preto e que, com mais clareza de objetivo, arremessam o leitor para o único lugar onde a narrativa realmente acontece: dentro de si mesmo.

 

1. Batman: Black and White (vários autores)

Não podia ser diferente, Batman é o personagem que parece ter nascido pra os quadrinhos em branco e preto.

2. 2000 AD: Judge Dredd (John Wagner, Carlos Ezquerra, Pat Mills)

Assim como muita coisa que saía na 2000 AD, nasceu como uma sátira do fascismo, mas foi transformado em herói cult. Diz muito sobre nós mesmos, não?

3. Sin City (Frank Miller)

Frank Miller, solto no quintal, fazendo o que faz de melhor: quadrinhos inspirados nas pulp fiction de detetives hard boiled.

4. Qualquer obra do Will Eisner, em especial The Spirit

Convenhamos, Eisner é o cara que ensinou todos nós a entender a singularidade dos quadrinhos.

5. Monstro do Pântano de Alan Moore, Steve Bissette, John Totleben

O exemplo mais claro de quando roteirista, nada menos que o Alan Moore, e os artistas Steve Bissette, John Totleben, acrescentam uns ao outros ao criar uma história. A versão em preto e branco da editora Brainstore do início deste século tornou a história muito mais imersiva.

6. Conan de John Buscema

Antes de Arnold, antes de Frazetta, só havia o Conan de Buscema. De abrir a página e esquecer que o mundo existe.

7. WildC.A.T.S. & X-Men nº1, de Scott Lobdell e Travis Charest 

Ok, não é exatamente preto e branco, mas o cara usou os matizes de claro/escuro tão bem, mas tão bem, que faz parecer o roteiro (caça-níquel e meia boca) uma coisa ótima.

8. The Walking Dead, de Robert Kirkman e Tony Moore

Uma noção elementar de humanismo raramente ficou tão evidente quanto aqui, na ausência total de civilidade de um apocalipse zumbi.

9. Punk Rock Jesus, de Sean Murphy

Já falamos várias vezes aqui. Imperdível.

10. Scott Pilgrim, de Bryan Lee O’Malley

É curioso como a versão para o cinema deste quadrinho, usando efeitos e uma palheta ampla de cores, extrapolou potencialidades que os quadrinhos trouxeram. Cada mídia se tornou singular, mesmo que contem a mesma história.

11. From Hell, de Alan Moore e Eddie Campbell

De várias formas é o oposto de Scott Pilgrim. Cada quadro, cada balão de fala, cada texto, deve ser lido, observado e destrinchado com calma, paciência e parcimônia. Assim como Jack, o Estripador fez com suas vítimas.

12. Love And Rockets, de Jaime Hernandez e Gilbert Hernandez

Se você gosta de novela (mesmo sem admitir), é um prato cheio.

13. Whiteout, de Greg Rucka e Steve Lieber

Ora, que forma melhor de contar uma história policial senão em meio a uma nevasca no c* da Antártida?

14. Maus, de Art Spielgelman 

Mais que obrigatório, Maus é a referência maior para quem quer entender por que quadrinhos são Arte com “a” maiúsculo. Concentra as potencialidades narrativas dos quadrinhos, traços do cartum e uma das lições mais densas que o século XX é capaz de ensinar ao futuro: o pesadelo do nazismo.

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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