Quem é Blue Marvel? Sobre o apagamento da história negra nos Estados Unidos

Conheça o mais poderoso e presente personagem da Marvel, o primeiro super-herói negro!

Em 2008 a Marvel lançou uma série em 5 edições contando a história de Adam Brashear (Blue Marvel), o gênio científico que se tornou o mais poderoso super-herói do planeta Terra, ainda antes do Quarteto Fantástico aparecer em 1961. Entre o passado e o presente, a história mostra o contexto da luta pelos direitos civis, e o peso das questões raciais na decisão de Brashear de abandonar sua atuação como Blue Marvel.

Kevin Grevioux e seu personagem

O roteirista da minissérie é Kevin Grevioux. Formado em Microbiologia com especialização em Engenharia Genética, foi jogador de futebol americano, é ator e produtor de cinema. Blue Marvel é um personagem que ele criou na adolescência, uma mistura de Pantera Negra com Superman, e que, nessa versão de 2009, tem também muitos paralelos com o seu autor. Encaixado numa retcon, Blue Marvel passa a ser o primeiro super-herói negro da cronologia da Marvel, e também o mais poderoso, capaz de manipular a matéria e a anti-matéria num nível subatômico.

A história começa logo após o final da saga Guerra Civil, com Tony Stark como diretor da SHIELD e a Iniciativa Vingadores espalhando super-equipes pelos Estados Unidos. Um super-vilão (Anti-man) derrota facilmente alguns dos Vingadores mais poderosos, como o Sentinela, Ares e a Mulher-Hulk, e ao mesmo tempo chama pelo Blue Marvel. A condição do vilão é instável e ele sucumbe à sua própria fraqueza, desaparecendo. Mas o Homem de Ferro, como diretor da SHIELD, começa a investigar e acaba encontrando uma história cheia da protocolos secretos da inteligência do governo americano.

O secretário de defesa Robert McNamara e o senador Robert Kelly (que seria mais tarde a voz anti-mutante dentro do governo nas histórias dos X-Men) expressam suas preocupações, considerando a agitação social causada pelos ativistas pelos direitos civis. Segundo eles, um super-herói negro com esse nível de poder poderia levar o conflito social a um descontrole perigoso. Kelly relata que, de um lado, os brancos estão jogando pedras no herói, mesmo quando ele salva crianças órfãs, e, de outro, os negros estão contra ele porque querem que ele seja um messias que lidere o povo negro contra os brancos. Brashear é chamado para conversar com o presidente na Casa Branca.

No discurso de Kennedy para o herói, o presidente pondera que as pessoas não querem ouvir verdades desconfortáveis, que preferem acreditar que ele é uma ameaça por ser negro e que só o tempo vai educar as pessoas e fazê-las mudar de ideia. Por isso o governo americano pede que Adam Brashear não atue mais como Blue Marvel, e ele, como um bom soldado (que lutou na Guerra da Coreia), acata o pedido.

As histórias sobre o Blue Marvel foram apagadas da história (dos registros oficiais, da imprensa etc) e por isso os heróis que vieram depois dele não têm memória da sua existência. Aqui o roteirista faz um paralelo com a História dos Estados Unidos que se estuda nas escolas e que não inclui as ações e as ideias de personagens negros do passado do país, apagando assim a participação dos negros na construção do país.

Ao longo da narrativa vemos como Adam foi vigiado pelo governo durante todo o tempo que ficou sem atuar como Blue Marvel (sua esposa é uma agente do FBI destacada para reportar sobre ele). Depois de desvelar a história, Tony Stark, enojado com o racismo que motivou as ações do governo americano, chama Brashear para integrar os Vingadores e oferece um pedido de desculpas oficial.

A minissérie de Kevin Grevioux não fez muito barulho em 2008 (não teve muita procura nas comics shops e não teve reimpressão). Mas em 2016 alguns canais começaram a fazer resenhas sobre o personagem e sobre essa história de origem. Isso porque em 2015 a Marvel lançou a título The Ultimates, que juntava Capitã Marvel, Pantera Negra, Miss América, Espectro e Blue Marvel, como defensores de ameaças do multiverso. O novo título era uma das muitas tentativas de reorganizar os personagens no universo em expansão criado pelo final de Guerras Secretas e do All-New All-Different Marvel que introduziu vários personagens novos na editora.

Entre 2015 e 2018 os três filhos de Adam Brashear com Marienne Frazier (agente do FBI) – Max, Kevin e Adrienne – apareceram num arco longo da revista dos Vingadores. Blue Marvel apareceu em histórias do Thor, do Hulk, do Nova, dos Guardiões das Galáxias, do Homem Aranha e do Visão, entre outros.

Em 2018 com todo o barulho em torno do final da saga dos Vingadores no cinema e as especulações sobre o futuro do Universo Cinematográfico da Marvel, vídeos sobre a possibilidade do personagem Blue Marvel aparecer numa fase 4 do MCU ganharam o youtube. O valor de revenda da série de 2008 de Kevin Grevioux – Legend of the Blue Marvel – subiu bruscamente.

Mais recentemente podemos ver Blue Marvel no novo título do Doutor Destino (2019), nos Vingadores, e na nova mega saga one-shot da Marvel – Incoming – que foi publicada no início de 2020.

Com os últimos acontecimentos relacionados a brutalidade policial e o ativismo do Black Lives Matter nos EUA, abriu-se espaço para uma conversa mais profunda sobre o racismo estrutural presente na sociedade norte americana. Por causa do atraso na produção de filmes, série e mesmo das histórias em quadrinhos, em razão da pandemia, existe uma conversa bastante séria nos bastidores da indústria do entretenimento sobre a necessidade de produzir narrativas que não reforcem a discriminação.

O ator Terry Crews, da série Brooklin 99, anunciou recentemente que a próxima temporada da série está sendo reescrita para abordar a questão da brutalidade policial e do racismo de frente. Provavelmente não vai ser diferente nos quadrinhos e nos futuros filmes da Marvel.

Será que a presença cada vez mais constante do Blue Marvel em diferentes narrativas é um indício de que vamos ver o super-herói negro mais poderoso da Marvel nos cinemas em breve? Que assim seja!

Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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