Herói

Arte de Mauricio “Picareta Psíquico” Zanolini

A volta da nossa seção de literatura com um conto que flerta com a superaventura.

 

 

 

 

 

 

Por Ariel N. Vovchenco Júnior*

Desde os primórdios dos tempos, o Homem olhou para as estrelas com curiosidade e espanto. O que eram aqueles longínquos pontos de luz, que brilhavam durante a noite para sumirem durante o dia? Eram as moradas dos deuses, protegendo os seus adoradores mortais? Ou eram as almas dos mortos, que se faziam presentes para os seus descendentes?

Ciências e artes ocultas surgiram ao redor desse mistério, desvendando aos poucos a vasta imensidão do universo. Átomos desconhecidos colidiam com energias mágicas do sol e da lua, e misticismo caminhava a passos largos ao lado do conhecimento empírico – mas, mesmo nessa dicotomia, a surpresa por aquela imensidão inalcançável era presente.

Quando os primeiros homens chegaram ao espaço, encontraram uma realidade diferente de tudo o que conheciam – vazia, fria e hostil, mas atraente e curiosa. Máquinas e desbravadores cruzaram a tênue divisão entre mundo e espaço atrás de respostas, se aventurando cada vez mais longe. Órbitas maiores, viagens curtas, até os primeiros passos na Lua que mudaram a história. O poder coletivo da humanidade, quando combinado em prol de algo maior, era inigualável.

Foi então, em um dia simples da Era de Exploração, que tudo mudou.

Eu cheguei.

Agências do mundo todo acompanharam o meu percurso através do sistema solar, e todos temeram ser algo devastador conforme o caminho direto para a Terra ficava mais evidente. Contaram que os governantes temeram que o fim estava próximo, e cogitaram o uso de seus armamentos mais poderosos para impedirem – mesmo sabendo que seria em vão. Ao pensar que o meu destino esteve nas mãos de pessoas desconhecidas, sinto o arrepio antigo descendo pela minha espinha, mas sorrio quando penso que mentes mais sãs falaram mais alto, e acalmaram as nações.

A reentrada foi agressiva, e muitos acreditaram que aquele objeto misterioso jamais tocaria o solo; qual foi a satisfação dos confiantes quando caí nas águas do Atlântico, perto de uma dúzia de navios de guerra prontos para me resgatarem.

Os humanos imaginaram ser um meteorito, e o mundo se calou por um instante ao descobrir a verdade: era eu, um pequeno bebê, enviado de outro mundo para sobreviver.

A resposta enfim havia chegado: a humanidade não estava sozinha.

A pressão mundial impediu os governos de me esconderem, e a primeira vida de fora da Terra se tornou o foco de todas as atenções. Fisicamente, sou similar aos humanos, mas traços de meus genes são diferentes o bastante para ser classificado como outra espécie. Amostras de DNA e tecido foram vendidas por bilhões para organizações de pesquisa, que tentavam entender aquele ser, que conseguia sobreviver em um mundo diferente do seu.

Surpresos ficaram, porém, quando os meus poderes começaram a se manifestar ao longo dos anos.

Histórias em quadrinhos quase acertaram a fórmula: quebrei as leis da física com o meu primeiro voo; desafiei a lógica ao entortar titânio com as próprias mãos; destrocei ciências ao me curar em minutos. Jovens se maravilharam com as suas imagens de herói se tornando reais, enquanto velhos temeram com os espectros de tiranos do passado – se um humano comum poderia causar tamanha destruição, o que um alienígena poderoso seria capaz de fazer?

Fiz o meu melhor para acalmar a todos, para demonstrar que tinha apenas as melhores intenções de meu lar em mente. Como esperado, muito não acreditaram, e ondas de supervilões surgiram para me desafiar, cada um com sua habilidade – muitos, para a minha surpresa, desenvolvidos a partir do meu material genético. Criaturas monstruosas e super-humanos ameaçaram destruir a Terra, apenas para serem impedidos por mim – a vida fantástica dos quadrinhos se tornando realidade diante dos olhos de todos.

O que ninguém percebia, porém, era o quão sozinho eu me sentia.

Era comum passar dias em órbita, apenas desfrutando o silêncio do espaço. Muitas vezes visitei as tripulações de estações espaciais para animá-las, e até mesmo levei presentes de crianças para os primeiros astronautas a pisarem em Marte. Todos se espantavam, pois nenhum milagre parecia estar fora de meu alcance.

Certamente me apaixonei por mulheres humanas, mas todas tinham medo de mim, de minhas habilidades, e logo se afastavam. Tentativas bizarras foram feitas de me clonar em uma versão feminina, ou de criar uma fêmea baseada em meu DNA extraterrestre – todas, digo com alívio, fracassadas. Sempre disse que isso não me afetava, que preferia que todos fossem felizes, enquanto escondia isso dentro de mim – não é o que os heróis fazem?

Agora, voando em órbita da Terra, posso dizer que essa tristeza finalmente partiu.

Olho para baixo, vendo os continentes vastos, onde bilhões de humanos viviam, e enfim entendo o que é ser parte de algo maior. Tantas cidades que salvei, tantas vidas que protegi, tantas ameaças que enfrentei – tudo levou para esse momento, quando abro um sorriso largo para a Terra, demonstrando o sentimento verdadeiro pela primeira vez em anos.

Aproximo-me da superfície, sentindo o baque com a atmosfera, e volto a escutar a miríade cacofônica que caracteriza a sociedade: risos, aplausos, choros… incontáveis vidas prosseguindo abaixo de mim, sem saberem da minha presença naquele ponto inesperado do céu. Afinal, quais as chances do alienígena mais conhecido da Terra estar olhando diretamente para você?

Fechando os olhos, disparo em uma direção aleatória, apenas sentindo o vendaval em meu rosto – uma das melhores sensações que já senti. A minha audição ainda capta a sinfonia humana: passos rápidos, tapas, tosses, risadas – cada som mais lindo do que o outro por sua exclusividade de ser. Lembro-me dos sorrisos alegres dos cientistas quando falei a minha primeira palavra , de como as enfermeiras adoravam fazer festinhas para mim nos laboratórios, até que decidiram que eu já era adulto e estava pronto para o mundo externo.

Escuto trovões, e acelero em direção às nuvens negras em meu caminho. Raios me atingem, mas causam apenas um leve formigamento agradável – nem mesmo a natureza deste mundo é capaz de me prejudicar. Paro no ar, sentindo a chuva gelada e ácida caindo sobre mim, identificando cada elemento poluidor em cada gota, oriundo da civilização que mais devasta do que constrói. Com a minha mente, consigo traçar todo o ciclo que as gotas farão eternamente.

A Terra é um planeta maravilhoso.

Satisfeito, disparo de novo para as alturas, gargalhando com o estampido de romper a velocidade do som, até chegar na nulidade que é o vácuo do espaço.

Nunca antes tive momentos de paz e felicidade assim, e o simples fato de acontecerem me deixa mais satisfeito ainda. Sei que uma grande mudança está vindo, e que terei o privilégio de estar à frente disso, com a confiança de todos que me chamam de herói. Em um gesto digno dos cinemas, abro os braços e deixo os raios do sol banharem o meu corpo, me energizando como nunca.

Lembro-me daquela frase que sempre associam a mim: faço tudo pelo meu lar.

Sentindo-me recarregado, disparo como um projétil em direção ao planeta. Acelero o máximo que consigo, ganhando impulso com meu poder que destrói a física. Um satélite entra em meu caminho e apenas o atravesso, deixando destroços para trás.

Sou um herói.

O meu povo começará de novo – não há espaço para os humanos agora.

Como o meteoro que extinguiu os dinossauros, caio em direção à crosta. Não me importo em morrer; heróis fazem sacrifícios para proteger os que amam.

E por que amaria humanos primitivos e violentos?

Antes do impacto, penso nas histórias que contarão sobre mim: o salvador de toda a civilização.

*

*Ariel N. Vovchenco Júnior é leitor e escritor ávido desde pequeno. Abençoado por nascer na era da ascensão dos nerds, mergulha neste mundo sempre que pode. Amante das histórias de ficção e história alternativa, adora uma boa indicação. Autor do conto “A Criatura”, a ser publicado na antologia “O mundo onde o tempo parou”.

Sobre Ficcioneiros

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