E se o Doutrinador for comunista?!

DdoBAqueles olhos vermelhos nunca me enganaram…

A polêmica sobre a próxima aventura do personagem O Doutrinador (O Vírus Vermelho), de Luciano Cunha, o sucesso do financiamento coletivo da HQ do Destro e uma matéria do portal TAB da UOL falando sobre “quadrinhos de direita”, foram tema de um vídeo que o Nerdbully aqui dos Quadrinheiro fez recentemente (veja abaixo). Depois disso veio outra matéria, dessa vez publicada no site Terra Zero e assinada por Fabio Devito. Nesse texto, a revelação de que o roteirista do Destro é o próprio Luciano Cunha (que assina sob o pseudônimo de Ed Campos) vem embalada em um monte de argumentos um tanto equivocados.

Um dos primeiros comentários que o vídeo acima recebeu nas redes sociais foi questionando se valia a pena comentar aqueles quadrinhos. A ideia por trás do comentário é que dar visibilidade (mesmo que crítica) para produções como essa, que se dizem abertamente “de direita”, e que se colocam como contraponto a uma produção de quadrinhos “lacradora e mimizenta” (termos que que eles usam para se referir a quadrinhos sobre temas identitários, por exemplo), ampliaria o alcance dessas obras e, portanto, alimentaria a polarização e o ódio.

Mas então qual seria a alternativa? Ignorar? Fazer de conta que não existe essa produção, que o público que consome essa produção é irrelevante? Será que esse postura de desprezo e cancelamento não alimenta também ódios e ressentimentos?

No seu editorial, Fabio Devito afirma que “quadrinhos de super-heróis são essencialmente uma mídia progressista“, que nasceu das mãos de uma classe trabalhadora de filhos de imigrantes judeus, italianos e latinos (como o Superman, criação dos judeus Siegel e Shuster, que enfrentava políticos corruptos, por exemplo), e portanto são uma mídia de resistência aos poderes estabelecidos e ao conservadorismo. Mas essa é uma visão meio romântica da realidade, apesar de conter verdades.

O outro lado dessa moeda é que trabalhadores filhos de imigrantes também podem ser bastante conservadores, especialmente se cresceram em contextos marcados por valores enraizados em morais religiosas fechadas. Ou se vivenciarem dores e traumas que os levaram a ver o outro como inimigo (e esse outro pode ser qualquer um).

Steve Ditko (citado no texto de Devito como exemplo desse proletariado progressista) era fã das ideias de individualismo extremo de Ayn Rand, e o texto de Devito não cita autores como Frank Miller (autor de O Cavaleiro das Trevas), Bill Willingham (autor de Fábulas), Chuck Dixon (criador do Bane), Mark Miller (artista de Injustice), todos Republicanos (conservadores no ponto de vista da política dos EUA), só pra citar alguns. A realidade é sempre mais complexa do que gostaríamos que ela fosse.

Importante lembrar, depois da queda do muro de Berlin, houve aquelas famílias que  jogaram fora as fotografias do Joseph Stalin e do Nikita Kruschev, que antes ocupavam um “altar” na casa, e colocaram de volta as imagens de santos padroeiros, (como contam os historiadores John Gaddis, em We now know e Tony Judt em Pós-Guerra – Uma história da Europa desde 1945). Da mesma forma, é importante a interpretação da sociedade brasileira como verticalizada, estratificada e hostil à organização democrática liberal, conforme ensinou jurista Victor Nunes Leal no livro Coronelismo, Enxada e Voto. São referências de que ideologias são cascas, tintas e vernizes sobre nossas superfícies sociais, e que o buraco é mais em baixo (valeu Velho Quadrinheiro pelas referências!).

DD

Agora, pra ficar mais divertido, não seria surpresa emergir uma fanfic do Destro num crossover com o Doutrinador. Nesse mundo paralelo da nossa realidade, quem sabe seria algo como:

“Depois de anos combatendo as Três Torres, vivendo como um nômade, fugindo das milicias digitais que transformam cidadãos comuns em máquinas de ódio, João Destro chega finalmente ao coração do poder ditatorial do Estado formado por corporações privadas. A MÁQUINA é a fonte de toda a proliferação de mentiras e desinformação que lobotomizou a população da Terra.”

“E esse cenário distópico aparece cada vez com mais frequência nos sonhos do Doutrinador. Por vezes ele nem sabe se ele é o Destro que sonha ser o Doutrinador ou vice versa.”

“Finalmente o Doutrinador descobre que a vida de João Destro, que ele considerava um sonho, era uma falsa memória que o grande vilão, Olívio de Barbalho, e seus acólitos do ódio, implantaram em um grupo seleto de pessoas. Essas cobaias se tornaram super-heróis e seus atos serviram de catarse para a população que rapidamente aderiu a um discurso polarizado de demonização de tudo aquilo que fosse ‘doutrinação globalista marxista gramsciana de esquerda'”.

“Então o Doutrinador percebe a ironia de seu próprio codinome – ele é apenas uma ferramenta nas mãos de forças terríveis. Agora, lutando contra toda a programação que o moldou, o homem que um dia lutou contra as forças socialistas jura destruir as forças conservadoras que tiraram dele sua própria identidade!”

E aí? Que belo plot twist! Já vimos isso quantas vezes nas narrativas de super-heróis? E se o Luciano Cunha escrevesse essa história? E se ele revelasse que todas as opiniões que ele tem tornado públicas, defendendo teorias da conspiração das mais insanas, foi apenas uma jogada para dar credibilidade ao personagem (Destro/Doutrinador), e que, no fundo, ele sempre foi “de esquerda”? Será que aí o trabalho dele seria considerado ARTE?? Ele seria visto como um gênio?

Vejam, o ponto aqui não é condenar nem enaltecer o Luciano Cunha, ou o personagem que ele criou. O que se defende aqui é que não dá pra cancelar ou ignorar o que faz o autor, nem desclassificar (dizer que não é quadrinhos de super-herói). O que de mais produtivo pode ser feito é ler, criticar, debater, problematizar. Encontrar o máximo de camadas que a história tem, mostrar os pontos fracos, as qualidades.

Se estivéssemos no mercado norte americano de quadrinhos de super-heróis, em algum momento o João Pinheiro seria convidado pra escrever um arco do Doutrinador, assim como o Alan Moore escreveu o Supremo do Rob Liefield (e deixou o personagem infinitamente mais complexo do que ele era até então). E este é só um exemplo. Narrativas “molduras” e recheadas de metalinguagem são artifícios conhecidos e acontecem com frequência no mercado americano. Em 2008 por exemplo, na reta final da campanha do Barack Obama pro primeiro mandato dele como presidente, a DC produziu uma minissérie que escancarava a escolha eleitoral dos seus super-heróis, roteirizada por dois escritores com posicionamento políticos opostos (Universo DC: Decisões, de Bill Willinghan e Judd Winick).

E não é sobre ser “nem esquerda e nem direita”. As duas posições continuam sendo essenciais no debate político. Mas o esforço aqui é entender que nossas escolhas tem motivações complexas, muita vezes irracionais, e que, como brasileiros, estamos todos no mesmo barco furado (e não é um furo só não). Sem estabelecermos um consenso mínimo no campo de debate não tem como construir nada. E o menor dos mínimos é nos reconhecermos como concidadãos. Já passou da hora de conversarmos, nos escutarmos e validarmos as dores e as angústias que todos carregamos, sem transformar o outro em inimigo, mesmo que, no momento, o outro nos veja como inimigo.

Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
Esse post foi publicado em Picareta Psíquico e marcado , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

6 respostas para E se o Doutrinador for comunista?!

  1. Márcio Vicente disse:

    Seria lindo poder conversar com o “outro” que me vê como inimigo e tentar debater com ele. O problema é que este “outro” não só me vê como inimigo mas também quer me exterminar fisicamente. Matar mesmo, sabe? Fica difícil poder debater assim, levando um bolo de fubá e um café passado na hora enquanto ele vem com uma arma carregada pra atirar em mim….

  2. Mauricio, eu não esperava outra coisa de você, senão este texto brilhante. E, mais importante ainda: conciliador. Eu não tenho problema NENHUM em dialogar e sentar à mesa com aqueles que pensam diferente de mim, mas as pessoas só parecem desejar viver os extremos. Adoro beber cerveja aqui no meu bairro com uma amiga que é candidata a vereadora este ano pelo PT e nossa conversa é sempre no mais alto nível – pois temos base para dialogar, nos respeitamos e nosso debate se dá no campo das ideias, não em ofensas pessoais. E não há nada que eu desaprove mais do que o Partido dos Trabalhadores. Não é ótimo isso? Debate, diálogo, ideias diferentes, visões de mundo diferentes… afinal, não é isso a Democracia? O texto do Terra Zero é de uma imaturidade gritante: só é arte se for de esquerda??? What the fuck?? Grande abraço!

  3. Hulk Cozzo disse:

    Direita, esquerda, o importante é continuar matando político!
    Esse é o nosso inimigo!
    Olha como eles se aproveitam da pandemia! Sanguessugas todos!!!

    • Que dá vontade, não posso negar, dá mesmo! Mas essa é também uma solução fácil, que não tem espaço num mundo complexo. Políticos são pessoas que saíram do meio da população brasileira, que representam valores que se afinam com os valores da população, e é por isso que as pessoas votam neles. Como eu disse no texto, o tal do buraco é mais em baixo.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s