Como The Mandalorian explica a economia brasileira

Onde a vida não tinha valor, a morte, às vezes, tinha seu preço. É aí que os assassinos de aluguel surgiram.”

Fosse você deixado ontem pela cegonha na porta da casa, talvez fosse confuso entender esse tal de câmbio, o sobe e desce do dólar e mais ainda, por que o que diz este ou aquele político afeta o equilíbrio da coisa toda.

Como quem fala de economia é o economista, aqui se usa gibi e nerdice pra entender o que parece indecifrável no editorial financeiro. A pergunta a ser esclarecida é: como explicar a subida do valor do dólar? Assistir The Mandalorian pode ajudar.

*** Atenção! Há oceanos de spoilers daqui pra frente. ***

Na última segunda-feira, dia 25/11, o ministro da economia Paulo Guedes cometeu a seguinte afirmação:

Quando o outro lado ganha, com dez meses você já chama todo mundo pra quebrar a rua? Que responsabilidade é essa? Não se assustem então se alguém pedir o AI-5

Uma das mais formidáveis demonstrações de imprevidência verbal, a menção ao Ato Institucional n. 5 pelo ministro sugere como “viável” a suspensão da democracia e do Estado de Direito como forma de prevenção à instabilidade política que, supostamente, o ex-presidente Lula seria capaz de incitar. A reação do câmbio foi imediata, levando o preço do dólar a R$4,24 no dia seguinte.

E por que isso aconteceu?

Pense em Star Wars.

The Mandalorian, de Jon Favreau, se passa cerca de cinco anos depois de O Retorno de Jedi, após a queda do Império. No primeiro episódio, Greef Karga tentou pagar o Mandalorian com créditos imperiais em troca de quatro prisioneiros fugitivos. Cascudo, o Mandalorian rejeitou, optando pelos Calamari Flan, moeda do planeta Mon Calamari, mesmo sendo uma quantia inferior ao combinado.

“O que não dá nem pra encher o tanque hoje em dia”

Empregador sovina, Karga sugeriu que o Mandalorian procurasse a autoridade da nova República caso estivesse insatisfeito, claramente uma piada. Afinal, pra garantir a ordem em casos de desentendimentos, o novo governo não dispunha nem de Stormtroopers, nem dos Cavaleiros Jedi, massacrados há décadas pela Ordem 66.

Pano de fundo dos episódios IV, V e VI, o Império trouxe uma relativa estabilidade em toda galáxia. Isso foi graças à presença da Armada Imperial em todos os cantos do espaço, e da “doutrina Tarkin”, que fez do medo de destruição pela Estrela da Morte uma ferramenta de dominação dos sistemas planetários.

Algo altamente efetivo, como demonstrado em Rogue One

As “províncias”, ou seja, os planetas, fossem da periferia como Tatooine, ou centrais, como Alderaan, dedicavam sua capacidade produtiva à sustentação do Império, suas tropas, suas naves, suas mordomias. Se recusassem, seriam ocupados pelas forças imperiais ou destruídos pela Estrela da Morte. “Pacificação” através do medo, portanto. E esteja você ciente ou não, o “medo”, é um fator essencial para compreender economia.

Uma economia estimulada pelo medo tende a ser mais “instável”, ou seja, com reduzida produtividade e baixo potencial de investimento futuro. Pense bem. Suponha que você tenha uma empresa, digamos, uma padaria. Suponha também que ela estivesse à beira de ser aniquilada por uma bazuca apontada para a porta da frente 24h por dia. Nessa circunstância, você, o dono, investiria na compra de mais farinha, fermento e leite para os próximos três meses ou apenas para mais uma semana?  O que seria mais razoável, investir em mais bens para a produção de médio e longo prazo? Ou comprar uma passagem para uma paróquia mais segura?

“Tô pensando em mudar pro interior”

No universo de Star Wars, não é exagero pensar, as moedas locais dos planetas tinham seu valor medido em relação aos “créditos imperiais”, que sustentavam a economia galáctica. Com a destruição da 2ª Estrela da Morte, a queda do imperador Shiev Palpatine e a morte de Darth Vader, a integridade financeira do Império se esfacelou uma vez que o medo era a principal força por trás do fluxo de produção das províncias.

No contexto de The Mandalorian, não existe mais moeda pois não há mais produção nem confiança entre os planetas, muito menos um “banco central” que faça a mediação entre a emissão de moeda/crédito e a produção das províncias. Neste cenário, alguns bens materiais, como o metal beskar, que já eram raros, tornam-se inestimáveis.

E o Mandalorian torrou todo o pagamento dele numa nova armadura

De forma implícita, o episódio VII – O Despertar da Força (J.J. Abrams, 2015) tornou clara a necessidade dos Cavaleiros Jedi na galáxia. No Império, a Armada Imperial e os Stormtroopers eram a face do medo. Na Velha República, os Jedi simbolizavam o que havia de mais venerável, esperança, solidariedade, altruísmo. Do ponto de vista financeiro, eles eram a garantia da estabilidade, algo que a General Leia buscava desesperadamente na figura mítica de Luke Skywalker, o Dom Sebastião de Star Wars.

“Ele voltará”, sussurravam milhões de acionistas.

A desconfiança da população sobre o governo, o medo das forças armadas (transformadas em milícias particulares) e a ausência das ordens militares regulares resulta num cenário de faroeste, como foi ao fim da Guerra de Secessão Americana (1861-1865). E este é o local simbólico a que remete as crônicas do mandaloriano. E como interpretou melhor do que qualquer historiador, disse Sergio Leone em Por um Punhado de Dólares (1965):

“Where life had no value, death, sometimes, had its price. That is why the bounty killers appeared.”

Onde a vida não tinha valor, a morte, às vezes, tinha seu preço. É aí que os assassinos de aluguel surgiram.”

Sempre bom lembrar, oficializado em 13 de dezembro 1968, no coração do governo militar e da Guerra Fria, o AI-5 foi ato normativo que dava direito ao chefe do poder executivo (o presidente) amplos poderes. Entre eles, de fechar o Congresso Nacional, interferir diretamente nos estados, de suspender direitos políticos (como votar, se reunir e expressar opiniões), o fim do habeas corpus, além de garantir o poder de decretar estado de sítio, a ser prorrogado a critério da presidência, entre outros. Formalização das intenções de um setor do governo ditatorial, o AI-5 foi devidamente revogado em 13 de outubro de 1978 por meio de Emenda Constitucional n.11, assinada pelo General Ernesto Geisel, um marco para o processo de redemocratização, que culminaria na promulgação da Constituição Brasileira, de 1988.

Pensando na afirmação do Ministro da Economia, ao incitar o uso de uma ferramenta que “legalizava” a arbitrariedade de um Estado que devia garantir direitos ao invés de subtraí-los, banaliza o uso da violência, do medo que ela carrega, e sinaliza um porvir ao estilo The Mandalorian. O investidor internacional (para fins da nossa analogia, o “padeiro” cheio de dólares no bolso) opta por investir menos no Brasil, afinal o futuro não parece promissor. Assim, quanto mais raro é o dólar, mais caro ele se torna, elevando seu valor em relação à nossa moeda.

Na ficção parece legal, mas na realidade, o mundo de The Mandalorian é um fim da picada, sem Estado nem lei, e que ele mesmo anseia que chegue ao fim. Afinal, ao salvar o Yodinha, ele toma uma decisão moral, baseada em esperança ao invés de mero lucro.

A despeito da sua religião exigir que esteja armado, o Mandalorian da série, aparentemente, é um peregrino em busca de paz. A série tem revelado (ou canonizado?) fartos detalhes sobre a cultura e religião dos mandalorianos, a ética daquela sociedade, como a caridade aos órfãos e a proteção da identidade em nome da ordem. Guerreiros errantes em busca de sobrevivência, cientes que são caçadores e presas ao mesmo tempo, cuja honra é ligada à indumentária e às ferramentas que utiliza. O que leva a perguntar, qual é a diferença entre os Mandalorianos e os Jedi?

Vamos deliberar.

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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2 respostas para Como The Mandalorian explica a economia brasileira

  1. Iran disse:

    A fala do ministro, sério?
    Não tem nada a ver sobre a advertência de observadores da OCDE sobre o retrocesso no combate à corrupção?? insegurança jurídica??

    • Velho Quadrinheiro disse:

      Olá Iran!

      Claro, sem dúvida que existe uma relação entre o aumento do dólar e, como vc descreveu, retrocesso em combate à corrupção e insegurança jurídica.

      Lembrando, a OCDE é uma “descendente” dos acordos de Bretton-Woods de 1944, em que foram delineados caminhos para criação de um sistema monetário internacional e de assistência aos países afetados pela 2a guerra. O Estado tornaria-se aquele ente “facilitador” da reconstituição econômica. O ente “facilitado” nessa relação é o investidor privado. Esta característica permanece como fator essencial para atuação da OCDE.

      Neste post usei o Mandalorian para explicar por que a figura do investidor internacional privado teria menos estímulos a participar da economia daquilo que chamei de planeta província, uma analogia ao Brasil. É uma ferramenta simples para esclarecer o câmbio de moedas. Uma análise financeira precisa vai muito além do que tratado aqui. Mas de todo modo, a aprovação da OCDE constituiria um “selo de garantia” ao investidor internacional. Essa garantia ficaria igualmente abalada em caso de radicalização política ou um enrijecimento da ordem social, como uma hipotética ditadura.

      A alternativa que parece mais viável – e pessoalmente, preferível – seria uma contínua reforma econômica, sustentada por via democrática, buscando conciliação de interesses de setores distintos, ao invés da supressão destes interesses em busca de uma cega estabilização, mais com cara de silenciamento, ao estilo Palpatine. XD

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