Gotham City como umbral do Inferno

Por mim se vai à cidade dolente,/ por mim se vai para a eterna dor,/ por mim se vai para a perdida gente./ Moveu justiça o meu alto factor:/ formou-me a divina potestade,/ sapiência primeira, sumo amor./ Antes de mim não foi nada criado/ senão eterno, e eu eterno duro./ Deixai toda a esperança, vós que entrais”.

Dante em  A Divina Comédia

Por Renato Ferreira Machado* 

No terceiro canto do clássico A Divina Comédia, Dante e seu guia, Virgílio, chegam ao umbral do Inferno, em sua peregrinação rumo ao Paraíso. Deparam-se com um portal aberto, sem portas ou trancas, sobre o qual se lê a epígrafe deste texto. Segue-se a explicação de Virgílio, segundo o qual o Inferno seria o lugar onde se finda o livre-arbítrio e de onde aqueles que para lá foram enviados nunca mais sairão. Por isso, não há lugar para esperança no Inferno: a salvação e a redenção foram perdidas pelas almas a ele condenadas. Historicamente há uma série de complexos debates teológicos que se debruçam sobre esse assunto, com substanciais diferenças conceituais entre as diversas denominações cristãs. Todas, porém, discutem o mesmo ponto: há salvação para nossa existência? Na mais nova encarnação do Coringa no cinema a questão também parece ser essa. Haveria salvação para Arthur Fleck ou ele estaria condenado ao desespero eterno? E se for assim, o que leva Arthur à condenação, uma vez que ele parece não ter quase nenhum comando sobre sua própria vida? Seria a Gotham City de Todd Phillips o próprio umbral do Inferno?

Muitas têm sido as análises a respeito de Coringa, com diferentes pontos de vista e abordagens. O filme realmente se presta a isso. Se como qualquer obra de arte ele já se apresenta aberto a diferentes olhares, na qualidade de uma produção vinda do universo super-heróico que não compactua com as estéticas e narrativas geralmente adotadas em filmes desse tipo, a produção parece ser ainda mais provocativa. Coringa é um filme que adota uma estética setentista em suas composições visuais, sonoras e dramatúrgicas, o que já se revela nos próprios letreiros de apresentação do longa. Apesar de ainda utilizar a fórmula da Jornada do Herói, ainda que lida às avessas, o longa-metragem se lança em um estudo de personagem do qual emerge um suspense psicológico, evocando explicitamente filmes como Taxi Driver e O Rei da Comédia. Por isso, ao comentarmos este filme, desejamos manter o foco em um ponto específico que parece nortear a trama: a violência como experiência existencial de seus personagens e suas consequências.

Por isso, voltemos à obra de Dante. No sétimo círculo do inferno, dedicado aos que se perderam por causa da violência, existem três vales onde esta é classificada em diferentes tipos: contra o próximo, contra si e contra Deus. Estes vales levam a cachoeiras de sangue, caminho para o próximo círculo. Se a obra de Alighieri era uma grande metáfora sobre a Florença e a própria Europa Século XIV, o filme protagonizado por Joaquin Phoenix parece narrar simbolicamente os tempos em que vivemos a partir de uma dinâmica narrativa muito similar à Divina Comédia. A comédia do Coringa, porém, não parece levar seus peregrinos rumo ao Paraíso. Pelo contrário, sua jornada é aquela em que qualquer tipo de esperança é deixada para trás.

Encontramos Arthur Fleck habitando o Purgatório da indiferença. Em meio à cacofonia de Gotham ele não é visto, ouvido ou percebido, mesmo que esteja vestido de palhaço e dançando no meio da rua. Quando é roubado e agredido fisicamente acaba sendo responsabilizado pelo material de trabalho que perdeu. Arthur só é percebido quando não deseja: acometido por um problema neurológico, solta risadas contínuas sempre que passa por uma situação de stress. E assim acompanhamos sua rotina de idas e vindas entre o trabalho e o apartamento onde vive com sua mãe. Arthur sobe diariamente uma enorme escadaria para acessar seu prédio, como um Sísifo que empurra uma pedra morro acima apenas para vê-la rolar para baixo ao chegar no topo. Essa subida de degraus parece representar a esperança de redenção e justificação para a vida de Arthur, que almeja, sim, um paraíso: ser convidado a ir ao programa de entrevistas de Murray Franklin, onde todos que parecem ser importantes ou talentosos acabam aparecendo.

Arthur está investindo na carreira de Stand Up Comedy e o programa comandado pelo personagem de Robert De Niro representa sua consagração. Na penumbra do pequeno apartamento onde mora com sua mãe o programa é assistido em um aparelho de TV que parece iluminar toda aquela escuridão em que eles vivem. Arthur se imagina no programa, sendo elogiado e aplaudido simplesmente por dizer que cuida de sua mãe e que gosta do programa. Em sua imaginação ele é descoberto como um novo talento da comédia ao contar suas piadas para aquela platéia, via satélite. Aquele é o espaço onde ele faria outras pessoas rirem, ao invés de rir sem querer. Ele se sente próximo e íntimo do apresentador, mesmo nunca tendo chegado perto dele. Sua frágil ligação com a sanidade é mantida através de atendimentos terapêuticos proporcionados por um programa público. A mãe de Arthur, por sua vez, deposita suas esperanças em uma suposta correspondência que irá receber do milionário Thomas Wayne, que ela afirma ser pai de Arthur. Esse fio de esperança os mantém vivos e seguindo adiante.

Arthur adentra o círculo infernal da violência ao assassinar três pessoas, reagindo a uma surra que estava levando, após soltar mais uma risada involuntária. Ele passa a habitar o vale da violência contra o próximo portando uma arma e fazendo dela seu instrumento de poder frente à realidade. Ele tem consciência do erro que cometeu, mas tendo também ciência das consequências que o aguardavam, foge da cena do crime e finge não ter nada a ver com o ocorrido. O poder que aquela arma lhe confere cresce em seu interior, acenando para um reconhecimento que até agora ele não havia conquistado. Esta mesma arma, porém, é o pivô para que ele perca seu emprego como palhaço. Ele não poderia mais entreter crianças ou atrair fregueses para o comércio com suas performances de canto e dança. Aquela foi sua expulsão do Paraíso, um lugar onde ele convivia com outras pessoas e ocupava seu tempo servindo aos outros, mesmo sob duras exigências de sua chefia.

Mapa do Inferno (1485) por Sandro Botticelli

Aqui é importante dar uma palavra sobre o imaginário de Arthur. Ao longo do filme, somos iludidos pela visão de mundo do personagem, sendo conduzidos por uma narrativa na qual ele é reconhecido, amado e aceito. Assim como isso se dá em relação ao programa de auditório que ele assiste diariamente, também acontece em relação a pessoas como sua vizinha, que ele passa a imaginar como alguém apaixonada por ele. E este é exatamente o segundo vale do círculo infernal: a violência contra si mesmo. O ensimesmamento de Arthur, por mais que sua vida seja atingida por várias injustiças é profundamente tóxico para ele e para as pessoas que o cercam. E talvez seja isso, querer transformar a realidade naquilo que ele enxerga, que o torne um vilão.

Se no início da narrativa o personagem nos é apresentado como um pobre coitado, atormentado por todo tipo de problema, na medida em que a trama avança percebemos o quanto sua atitude diante destes mesmos problemas apenas torna tudo pior. Arthur quer “ser ele mesmo” e acredita ser um “talento não descoberto”, violentando a si mesmo com uma perspectiva equivocada da realidade. Ele quer ser reconhecido por um apresentador de TV  e não valoriza a ajuda que seus amigos lhe oferecem. Ele deseja ser filho do homem mais rico de Gotham e não consegue enxergar a verdade sobre sua própria mãe. Ele deseja ser amado e quase força uma mulher que não tem nada a ver com aquilo que ele imagina a se tornar seu par romântico. E isso chega ao extremo da eliminação das pessoas que, segundo sua visão, o impedem de concretizar seus sonhos.

Aliás, em uma dessas ações se dá o batismo de Arthur no círculo da violência: quando se prepara para finalmente ir ao programa de auditório que tanto admira, com seu rosto completamente pintado de branco, ele assassina cruelmente uma das poucas pessoas que ainda se importava com ele, ainda que por vias “tortas”.

Finalmente, no ato final do filme, Arthur adentra o mais profundo vale do círculo infernal da violência: ele assassina deus. Não o Deus judaico-cristão, mas seu deus, Murray Franklin, que o havia convidado para entrar no “reino” de seu programa de entrevistas. Murray era a referência máxima da mente perturbada de Arthur e, ao matá-lo, o próprio Arthur deixa de existir. A partir dali quem existe é o Coringa, catalisador da violência de Gotham, representante involuntário de uma multidão revoltosa que precisava apenas de permissão para ultrapassar qualquer limite civilizatório. Naquela noite de desespero, Arthur, agora o Coringa, refaz sua maquiagem pintando com sangue o eterno sorriso de seu rosto. Chegamos às cachoeiras de sangue onde termina o círculo infernal da violência. É lá que a própria família Wayne encontrará sua perdição, a não ser pelo pequeno Bruce, que testemunha a infernal realidade de sua cidade. A risada do Coringa é a trilha sonora deste cenário.

Coringa não é um filme simples e deve suscitar muitas análises daqui para frente. Sua complexidade autocontida descortina um universo de diálogos sobre a condição humana, sua aspiração por plenitude e as degradações que pode sofrer. Na qualidade de produção ligada ao universo super-heróico o filme dá um passo além em relação a tudo aquilo que vinha sendo feito até agora, desnudando um ícone cultural como o Coringa à camada mais profunda que ele poderia guardar em sua concepção. Mas talvez o mais perturbador seja como o filme mostra o que significa ser humano em nossos tempos.Afinal, a Divina Comédia também é sobre isso.

Renato Ferreira Machado é Doutor em Teologia e dedica-se à análise do campo simbólico religioso presentes nas seguintes produções artístico-culturais: histórias em quadrinhos de super-heróis, seriados de aventura, fantasia, terror e assemelhados e produções cinematográficas dos mesmos gêneros e cenas musicais underground, como o Punk e Pós-Punk Britânico, Punk e New Wave de Nova Yorque e música de protesto latino-americana. 

Sobre Universos Paralelos

O Grupo de Pesquisa Universos Paralelos: Arte Sequencial, Mediação Cultural e práticas pedagógicas tem como proposta aproximar e integrar produções artísticas e culturais de práticas pedagógicas, realizando pesquisas sobre o tema. A perspectiva de educação como mediação cultural, onde a realidade é reproduzida a partir de chaves de leitura pedagógicas, assim o grupo propõe um espaço de discussão, leitura e decodificação de produções e linguagens midiáticas que se fazem onipresentes em nosso cotidiano cultural.
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2 respostas para Gotham City como umbral do Inferno

  1. Lúcia Regina Lucas da Rosa disse:

    Muito boa análise! Pensando assim parece até que ameniza o trágico, uma vez que compreendemos o ambiente e momento dantesco do personagem.

  2. Pingback: Gotham City como umbral do Inferno — Quadrinheiros – Mixtureba

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