A barbárie como desejo e representação da virtude em Bacurau

Um contraponto importante para os filmes de super-heróis.

Bacurau, do diretor Juliano Dorneles e roteiro de Kleber Mendonça Filho, é um filme repleto de encruzilhadas. Mostra rastros, convida para trilhas perigosas e sugere rotas para escapar de um destino fatal.

Este post contém spoilers. Não avance se não quiser conhecer a trama do filme.

Para resumir bastante, no filme, Bacurau é uma cidadela no confim de Pernambuco transformada em zona de caça para o entretenimento de um grupo de americanos. Há quem agencie, há quem se oponha, mas a cidade vira cenário do choque de ecossistemas sociais, modelos de pensamento que se isolaram ao longo de décadas ou séculos, e que ali se encontram revelando a impossibilidade de reconciliação.

Os habitantes de Bacurau são o retrato de um Brasil pouco celebrado, mas íntimo de qualquer um que reconhece o sertão como realidade ou representação: o respeitado professor; os mascates de secos e molhados; a puta, o michê e a cafetina; a médica e o curandeiro; os matadores e assassinos; a gente de todo dia, que convive e se reconhece, enluta e celebra como parte de um mesmo grupo.

Os americanos, por sua vez, são tipos sociais que parecem saídos de um filme sobre zumbis: o homem branco divorciado frustrado; a mulher excitada pela ideia de massacrar pessoas; o sádico alemão naturalizado americano, que rejeita o rótulo de nazista. Um mosaico de “white trash” e “rednecks” ávidos por uma catarse violenta, “livres” de punição ou remorso, encontrada num canto distante do Brasil.

Desconcertante é a presença de outros três personagens. O prefeito é caricatura do político populista. Ele despeja livros apodrecidos na porta da escola e alimentos vencidos na praça central em busca de votos para próxima eleição. E os dois “sulistas”, que bloqueiam o sinal de celular no local, vestidos em ridículos trajes de trilheiros de moto, aspiram ser reconhecidos como iguais pelos americanos. Os três, ao seu modo, servem como os mediadores, os agentes facilitadores do massacre dos habitantes de Bacurau a pretexto da diversão – e dinheiro – dos estrangeiros.

Uma das ideias mais marcantes do filme é a presença ubíqua de celulares entre os habitantes de Bacurau, o uso de drones e tradutores digitais entre os “caçadores”. São ferramentas que todos reconhecem a utilidade e empregam com idêntica familiaridade. A tecnologia, e não as relações dos personagens com o Estado, com governos ou leis, revelam uma base comum de integração dos diferentes personagens. Diante da modernidade, todos revelam-se consumidores sem presunção de autoria, mas de uso e propriedade.

Esta forma peculiar de “absorver” a modernidade foi um dos objetos mais caros observados pela Cepal, durante a década de 60 e 70, nos estudos de Celso Furtado e Florestan Fernandes. Este descreveu a teoria do subdesenvolvimento como uma expressão da interação entre o “centro” e a “periferia” dos núcleos de poder produtivo internacional – na essência, os Estados Unidos.

No Brasil, ao invés de uma revolução liderada pela burguesia (opondo-se ao estatuto do Antigo Regime, escravista e oligárquico), houve uma recomposição das estruturas de poder, perpetuando a presença da velha oligarquia no aparelho do Estado “moderno”, uma “revolução passiva”, ao modelo prussiano. Nas palavras de Florestan Fernandes,

O que caracteriza o desencadeamento dessa era é o seu tom cinzento e morno, o seu todo vacilante, a frouxidão com que o País se entrega, sem profundas transformações iniciais em extensão e em profundidade, ao império do poder e da dominação especificamente nascidos do dinheiro. Na verdade, várias burguesias (ou ilhas burguesas), que se formaram em torno da plantação e das cidades, mais se justapõem do que se fundem, e o comércio vem a ser o seu ponto de encontro e área dentro da qual se definem seus interesses comuns. (A Revolução Burguesa no Brasil, 1976, p. 204)

Francisco de Oliveira, ao interpretar Celso Furtado, explica que “[…] a resolução da ‘questão social’, vale dizer, da criação e do reconhecimento da nova classe social criada pela própria ‘modernização conservadora’, se dá sempre na forma de uma tutela repressiva, com o que a dominação dificilmente transita para formas democrático-representativas” (Celso Furtado e o Brasil, 2000, p.124).

Furtado e JFK em 1961
Fonte

Ou seja, Florestan, Furtado e Oliveira interpretavam que o Brasil seria marcado por uma relação de sujeição aos “nexos centrais do capitalismo”. O Estado brasileiro, por sua vez, tutelaria novas classes trabalhadoras de forma repressiva, sem permitir que ela se organizasse como ente de representação democrática. O que o filme Bacurau revela, é justamente esta forma de distribuir os sujeitos e entidades: o Estado ao invés de zelar pelo cidadão, o reconhece como um “ativo” financeiro, algo a ser comercializado para estrangeiros dispostos a pagar.

Por outro lado, o filme traz outra mensagem, algo como uma promessa desafiadora: se ameaçada, a população irá se organizar e reagir de forma brutal, como preza a tradição local, celebrada no Museu da Cidade. A escolha de Pernambuco como local da história não é aleatória, afinal é paragem do cangaço, de Antônio Silvino, de Virgulino Ferreira da Silva.

Como observou o historiador britânico Eric Hobsbawm,

Lampião foi e ainda é um herói para sua gente, mas um herói ambíguo.

[…] Lampião assassinou um prisioneiro, embora sua mulher tivesse pago o resgate pedido; massacrava trabalhadores; torturou uma velha que o amaldiçoara (sem saber de quem se tratava) fazendo-a dançar com um pé de mandacarú até morrer; matou sadicamente um de seus homens, que o ofendera, obrigando-o a comer um quilo de sal; e incidentes semelhantes. Causar terror e ser impiedoso é um atributo mais importante para esse bandido do que ser amigo dos pobres. (Bandidos, 2010, pp. 88-89)

Sem grandes surpresas, o destino reservado aos americanos em Bacurau é temperado pela mitologia brasileira do cangaço. Sem escorregar numa proposição de civilidade, o que seria ingênuo, a opção é celebrar a vertente da brasilidade que pouco tem a ver com “democracia de raças”, “harmonia social” ou cordialidade. O filme deixa claro, trata-se aqui, ainda, da terra escaldante de deuses e diabos na forma de gente, onde a violência e brutalidade explodem na medida da ofensa sentida ou do desejo guardado.

É um limiar perigoso. Revestida de justiça, a violência tomada pelas próprias mãos convida o conforto do absurdo como alternativa viável. Não é. Mas até aí, qual é a diferença entre a opção dos habitantes de Bacurau e, por exemplo, os heróis da Marvel? Se você não se lembra este é o dilema de Guerra Civil, o mote de Watchmen, a encruzilhada de todo herói de quadrinhos e, por acaso, a semente de toda dissenção com pretensão político-social.

 

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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