O que houve com a bússola moral de Dick Grayson?

Para melhor compreender a série, uma volta aos quadrinhos é necessária. 

 

 

 

Spoilers de todos os episódios da série lançados até o momento. Você foi avisado. 

 

A série de TV dos Titãs (lançada no serviço de streamming exclusivo da DC e aqui em breve na Netflix) vem apresentando um Dick Grayson atormentado, que ao mesmo tempo quer se livrar do manto do Robin (que ele considera uma herança maldita que o transformou numa pessoa sombria) e atuar como um vigilante independente (ou abandonar essa vida). O problema é que a bússola moral de Grayson oscila entre proteger a vida acima de tudo e matar os “vilões” sem nenhuma piedade.

Robin-Costume-List-03Nos quadrinhos, Grayson, o Robin original, teve sua história revisitada algumas vezes, mas o trauma essencial de presenciar a morte de seus pais e ser adotado por Bruce Wayne se manteve constante. Ainda que a busca pelo assassino de seus pais tenha sido um incentivo para sua parceria com o Batman, o primeiro Robin fazia o contraponto ao Cavaleiro das Trevas, servindo como o alívio cômico, como isca (com suas roupas coloridas) e mesmo como um recurso narrativo para explicar as ações do Batman, conhecido como “orelha”.

O segundo Robin, Jason Todd, que nos quadrinhos assume após Grayson adotar a identidade de Asa Noturna, é um órfão que vive nas ruas de Gotham cometendo pequenos delitos. Ele herda o uniforme e a função de equilibrar a sombra representada pelo Batman, mas sua motivação é mais frágil que a do seu antecessor. Todd quer agradar seu novo “pai”, mas ao mesmo tempo seu ódio (ressentimento) faz com que ele não siga a bússola moral de seu mentor.

O terceiro Robin, Tim Drake, é um detetive/hacker que descobre a identidade do Batman e se apresenta para a vaga de sidekick (já que Jason Todd fora assassinado pelo Coringa). Não há trauma na origem de Drake, apenas muita inteligência e muito treino físico. Seu uniforme é redesenhado para ser mais funcional e sombrio. Ainda que suas armas sejam o bastão e a funda e o “R” no peito que funciona como um shuriken, este Robin já não é um contraponto ao Batman. Ele passa a ser um personagem independente. (Hoje depois de tantos reboots, Tim Drake nunca foi um Robin, ele é o Red Robin do universo principal).

Então nos quadrinhos Grayson é o herdeiro da bússola moral do morcego (tanto que em muitas ocasiões ele substitui Bruce Wayne no papel de Batman), Todd (e sua morte violenta, tão violenta como sua breve vida) é o erro que Wayne carrega, e Drake é um vigilante autônomo.

Na série de TV dos Titãs, a história segue a origem do grupo nos quadrinhos, que se forma ao redor de Rachel (Ravena) e seu pai. A série introduz vários personagens importantes nos quadrinhos dos Titãs como Rapina e Columba e a Patrulha do Destino (grupo que abrigava o Mutano e que também terá uma série que estreará em 2019), e outros importantes no universo do morcego como Jason Todd. Mas o roteiro é conduzido pelo conflito de Dick Grayson que abandonou sua posição de Robin, mas não consegue se livrar da herança de sua atuação como vigilante e de seu velho uniforme.

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Ná série a roupa de Robin (tanto de Grayson como de Todd) é a que nos quadrinhos vestiu Tim Drake. Mas apesar dessa caracterização mais independente do Batman, os conflitos, inseguranças e traumas do primeiro e do segundo Robin estão todas lá. Jason Todd é exatamente o órfão ressentido que acha graça na violência que a vida de vigilante autoriza. Grayson ainda está formando sua própria bússola moral, oscilando (num mesmo episódio) entre controlar seus companheiros para que eles não explodam em violência sem sentido e decidir atear fogo em um manicômio cheio de pessoas e pacientes. Seu caminho para se tornar o Asa Noturna é acidentado (talvez essa seja a virada da primeira para a segunda temporada).

Apesar da violência da série (que é bem gráfica), ou talvez exatamente por isso, a série é uma das representações do universo DC mais interessantes que foram produzidas até agora. O debate essencial entre vigilantismo e violência, trauma e redenção, busca por uma figura paterna e oposição a essa figura, estão todos lá. Ainda fazendo uma alusão a Tim Drake, no seu quadrinho de estreia como Robin (que foi publicado por aqui em 1992), quando o herói iniciante vai fazer seu treinamento na França, uma especialista em artes marciais (Shiva) fica intrigada com a escolha de armas de combate do novo garoto prodígio (todas não letais). O diálogo segue assim:

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Para um Robin independente essa postura (de não matar) é uma escolha consciente, mas que, como apontou Shiva, só é possível por causa de um contexto de privilégio. Para um Robin movido pelo trauma, o juramento de não matar é antes de tudo uma forma de reprimir seus próprios demônios internos.

Ao que tudo indica, na série o caminho que levará Grayson a fazer a transição de Robin para Asa Noturna é transformar uma regra imposta em uma escolha livre, ainda que privilegiada. A série estreia por aqui no Netflix dia 11 de janeiro de 2019.

Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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Uma resposta para O que houve com a bússola moral de Dick Grayson?

  1. Victor Meneses disse:

    Sempre com um texto excelente, picareta! =)

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