Palhaços do caos – do alívio cômico ao terror

joaquin-phoenix-transforms-into-the-joker-filming-riot-scene-05-1537706237Como a imagem de uma figura que fazia a alegria das crianças passou a ser associada ao crime e à violência sem sentido?

 

 

 

 

Esse texto é uma tradução com comentários e informações complementares do artigo The History and Psychology of Clowns Being Scary de Linda Rodriguez McRobbie, que você pode ler aqui. 

 

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As imagens da transformação do ator Joaquin Phoenix no Coringa viralizaram nos últimos dias. Os fãs estão incertos quanto ao futuro, já que os detalhes sobre o roteiro ainda não foram revelados (e os filmes da DC estão com muito problemas), mas a força da imagem é hipnótica. A maquiagem que esconde uma personalidade doentia nos assombra.

O papel de Heath Ledger como o vilão da DC Comics no filme O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan (2008), ou o Pennywise da nova versão do filme A Coisa (1990,2017) de Stephen King, são exemplos dessa associação entre a imagem do palhaço com o medo. Mas esse tipo de personagem tem um outro lado.

Para os meus avós, o palhaço era a alma do circo, o ícone da critica aos poderes estabelecidos, a voz que desafiava os costumes e o status quo. Me lembro que no Brasil palhaços famosos como Piolin (Abelardo Pinto), Arrelia (Waldemar Seyssel) e Carequinha (George Savalla), tinham programas na televisão, gravavam discos e apareciam em filmes e revistas. Então quando passamos a associar a imagem do palhaço ao crime, a violência sem limites, ao terror?

Palhaços, brincalhões, bobos e trapaceiros existem há séculos e aparecem em diversas culturas como no Egito dos faraós, na China imperial, em tribos indígena da América do Norte, no Império Romano e nos castelos da Europa medievais. Seu papel de divertir o público ou o rei dava a ele a liberdade para “desobedecer”, o que estabeleceu para o cômico o fardo de ser o único a dizer a verdade em contextos repletos de hipocrisias sociais. Mais recentemente (nos séculos XVIII e XIX), a figura predominante do palhaço da Europa Ocidental e da Grã-Bretanha era o palhaço de pantomima (humor físico).

Dois desses palhaços fizeram história e começaram a mudar a percepção do público sobre o personagem. O inglês Joseph Grimaldi (1778-1837) que estabeleceu a maquiagem pesada, as roupas coloridas e a postura embriagada para o personagem, e também foi o primeiro a fazer comédia usando sua própria vida como material para a piada. Seu sucesso e reconhecimento expunham sua depressão, seus problemas com o pai tirano, a morte da esposa e o alcoolismo do filho. Ele dizia: “Eu vivo triste o dia todo, mas faço você rir à noite” (I am GRIM ALL DAY, but I make you laugh at night – um trocadilho com seu nome). Morreu na miséria e foi biografado por um jovem Charles Dickens, que descreveu que cada risada de seu público atingia Grimaldi como uma agulhada de dor.

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O francês Jean-Gaspard Deburau (1796-1846) era tão famoso em Paris como Grimaldi era em Londres, mas enquanto o inglês era trágico, o francês era sinistro. Seu público frequentava o Boulevar do Crime (região de Paris que concentrava teatros populares que contavam histórias de crime), e depois de fracassar apresentando seu espetáculo no Palais-Royal para um público mais elitista, ficou amargo, vingativo e infeliz. Em 1836 ele matou a bengaladas um jovem que o insultou na rua.

Na segunda metade do século XIX as apresentações dos palhaços passaram a fazer parte do circo, que originalmente era um show equestre que foi se diversificando e abraçando diferentes tipos de artistas. Os palhaços faziam as vezes de caos cômico para se contrapor a seriedade e precisão dos acrobatas, mas o espaço cênico do circo era diferente do teatro e os críticos classificavam as performances como aterrorizantes, com suas proezas suicidas, seus gesticulações monstruosas e mímica frenética, lembrando o pátio de um manicômio. Em 1892 a ópera italiana Pagliacci (de Ruggero Leoncavallo) contava a história de um palhaço que fora traído pela esposa. Ele a mata no palco durante uma apresentação.

Na primeira metade do século XX tanto o circo quanto o palhaço passaram a atender ao público infantil (principalmente quando o circo vai da Inglaterra para os Estados Unidos). Podemos até fazer um paralelo entre essa mudança de público dos palhaços e o nascimento das histórias em quadrinhos que vieram do velho continente como folhetins e penny dreadfulls, se tornaram dimme novels e pulp fictions e finalmente comics voltados para crianças nos EUA. Quem de certa forma ilustra essa mudança é o palhaço “indigente” que não sorria -Weary Willie – inspirado no “vagabundo” de Charles Chaplin, criado na esteira da crise da quebra da bolsa de valores de Nova York (1929), após um divórcio, pelo trapezista Emmet Kelly.

unnamed.jpgKelly contracena com Jimmy Stewart no filme O maior espetáculo da terra (dirigido por Cecil B. DeMille em 1952). Stewart faz o papel do palhaço Buttons, que nunca tira a maquiagem. Ele é um médico que se esconde no papel de palhaço, fugindo da justiça por ter cometido eutanásia na própria esposa que sofria de uma doença terminal. Aqui mais uma vez o palhaço é uma máscara que esconde dores e arrependimentos. Só que quanto mais essa dicotomia se aproxima do universo infantil, mais perigosa ela se torna.

2fa0231c00000578-3370998-john-wayne-gacy-murdered-33-people-and-became-known-as-the-kille-m-35-1451165161050-jpg-jpgNos anos 1970, depois do estrondoso sucesso de palhaços como Bozo na televisão e de mascotes corporativos como Ronald McDonald, a imagem do palhaço triste mas de bom coração, foi destruída pelo assassinato de 35 jovens nos arredores de Chicago. Os crimes cometidos entre 1972 e 1978 por John Wayne Gacy, o palhaço Pogo (que ficou conhecido como o Palhaço Assassino) abalaram o país e estabeleceram um imaginário macabro em torno da figura do palhaço. Assim como Buttons, Pogo era o disfarce de um homem que havia cometido um crime (nesse caso abuso sexual de um menor). Só que nesse caso a maquiagem dava a ele acesso a mais vitimas.

Depois disso uma sequencia de palhaços macabros tomou de assalto a cultura de massa. Em 1982 a cena do boneco de palhaço do menino que ganha vida e tenta arrastá-lo para debaixo da cama no filme Poltergeist (de Steven Spielberg), o demônio disfarçado de palhaço do livro A Coisa (1986), a série Jogos Mortais (2004-2017) protagonizada por um boneco com cara de palhaço. Na era da massificação da imagem essa associação entre o palhaço e o terror passou a ser dominante.

no-primeiro-dia-em-que-publicou-algo-sobre-a-gangue-np-alertou-para-os-perigos-do-boato-1379516934024_400x600Na década de 1990 aqui no Brasil, o extinto tablóide Noticias Populares (NP) contou a história do palhaço Pogo, inspirando  e criando a lenda urbana da Gangue do Palhaço, que sequestrava crianças para vender seus órgãos em Osasco. A história cresceu em detalhes e o tablóide dedicou várias manchetes de capa à Gangue do Palhaço (o palhaço, seus dois ajudantes, uma bailarina e um anão em uma Kombi branca) que realizavam sequestros, tráfico de órgãos, prostituição e assassinato ritualístico. Depois de 2 anos o NP dizia que a bailarina havia matado o palhaço por causa de uma dívida, morrendo atropelada logo depois.

Em 2015 o policial militar Alden dos Santos divulgou um estudo sobre o significado das tatuagens dos presos. A imagem do palhaço tatuado estava associada a roubo e assassinato de policiais. Segundo Alden: “Portadores desta tatuagem demonstram frieza e desprezo pela própria vida. A maioria parece absorver as características deste personagem – insano, sarcástico, vida louca. Normalmente não se entregam fácil e partem para a violência”, É interessante notar que na descrição que ele faz existe um elemento sobrenatural, com os criminosos absorvendo as características do personagem, o que aponta para uma influência grande das narrativas ficcionais de terror na análise que ele produziu.

O fato é que hoje convivemos com os dois simbolismos mais fortes da figura do palhaço – de um lado o terror caótico e destrutivo que alimenta nossos medos mais básicos, e de outro a inocência divertida e leve. Ações como os Doutores da Alegria, baseados no trabalho de Patch Adams, quando submetidos a pesquisas de campo, apresentam resultados positivos relevantes na melhora de pacientes, especialmente crianças. O humor como terapia (alívio cômico), é capaz de nos fazer olhar com distanciamento para nossos próprios problemas e limitações, para podermos rir de nossas próprias dores.

As duas pontas são profundamente humanas, mas enquanto o medo é uma resposta defensiva irracional ao desconhecido, o humor é uma construção racional, um tipo de linguagem que foi desenvolvida e aprimorada. Alguém poderá argumentar que a segunda é mais humana, já que foi construída culturalmente, enquanto a primeira é instintiva, animalesca. No fim convivemos com a luz e a sombra dentro de nós. Uma coisa é certa – o alívio cômico não é o tipo de terapia que surtiria efeito no Coringa.

Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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