O outro lado da bola e a última linha de defesa do machismo

No futebol a homosexualidade ainda é um tabu e muito do que que envolve o esporte é tóxico e tem a mesma origem – a cultura machista.

Um casal gay é atacado por membros de uma torcida organizada. Um deles é espancado até a morte. A notícia chega aos ouvidos do craque do time (um dos jogadores mais respeitados e talentosos do país), pouco antes dele conceder uma entrevista para a televisão. Ao vivo em rede nacional ele se declara homossexual – o homem assassinado era seu ex-namorado.

B1 3Com essa premissa, O outro lado da bola (editora Record), escrito por Alvaro Campos e Alê Braga e ilustrado por Jean Diaz, abre a Caixa de Pandora dos bastidores da cultura do futebol no Brasil. Além da orientação sexual dos jogadores, levantam-se questões como a promiscuidade das relações entre políticos e dirigentes de clubes, a atuação mafiosa das torcidas organizadas, o silêncio em torno do abuso sexual de menores das categorias de base por técnicos, olheiros, árbitros e dirigentes.

Os milionários contratos de imagem que transformam a vida privada do jogador em um produto que é consumido pelos torcedores e enche os bolsos da imprensa e dos patrocinadores é apenas mais uma das camadas dessa cultura. Se de um lado exige-se amor à camisa, de outro enaltece-se a ostentação, o estilo “vida louca”, o valor astronômico do passe. Ao mesmo tempo que alguns afirmam sua identidade como “atletas de Cristo”, cantando músicas gospel no ônibus a caminho do estádio e fazendo preleções que mais parecem cultos religiosos, a identidade sexual é tabu e não existe espaço para outra além da heterossexualidade alpha.

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Em uma entrevista para o blog da Editora Record, os autores falam sobre a origem dessa cultura de violência e intolerância, que cria o ambiente para abusos, opressões e todo tipo de corrupção garantidas pela impunidade que mantém o status quo:

Os xingamentos usados no estádio, contra adversários e árbitros, sempre foram machistas e relacionados à homossexualidade, e considerados absolutamente normais e corriqueiros. As crianças aprendem a xingar nos estádios, com palavras sempre ligadas à homossexualidade.

Essa lavagem cerebral baseada na mentalidade da guerra, que elege inimigos e os diminui e humilha, que estimula a competição, a conquista, o comportamento sexual predatório, a “lealdade” entre os membros do grupo (principalmente para se protegerem e se acobertarem mutuamente), encontra no universo do futebol um espaço extremamente fértil. “Se hoje a sociedade recebe o tema (da homossexualidade) de uma forma muito mais natural em diversas áreas profissionais, no futebol a situação parece estar décadas atrasada”, nos dizem os autores. A última linha de defesa da masculinidade tóxica precisa ser vencida e O outro lado da bola levanta a urgência da questão.

Recomendo!

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Sobre Picareta Psíquico

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