O monge de cosplay – traços medievais na International San Diego Comic-Con 2018

Para quem é fã fiel, não basta ouvir, ler ou assistir, também é preciso vivenciar.

No último dia 23 de julho, o site Io9 reuniu uma seleção dos melhores cosplayers que apareceram na International San Diego Comic-Con 2018.

Realizado anualmente em julho nos Estados Unidos, a Comic Con se consolidou como o maior evento de quadrinhos, cinema, televisão e cultura nerd, uma vitrine para as editoras, produtoras de cinema e redes de televisão mostrarem seus projetos futuros. Mas claro, além disso, o evento é a oportunidade de reunir fãs, autores, diretores e atores para bate-papos e palestras, uma troca direta entre os maiores nomes da indústria cultural e seu público-alvo.

Congregados ali, autoridades e fãs, criadores e seguidores, o evento é uma assembleia de entusiastas, devotos dos super-heróis, seus antagonistas e coadjuvantes. Numa espécie de romaria, celebram ou reforçam o significado daquelas histórias que tanto amam. E isso, a propósito, é absolutamente medieval, no seu melhor sentido.

Mais como acim?”, perguntaria você, subtraído de corretor ortográfico e aula de história.

Em 1123 o abade Suger (amigo próximo do rei Luis VII, chegando a ser regente da França na ausência do rei durante a Segunda Cruzada) reergueu a abadia de Saint-Denis, ao norte de Paris e deu origem a um estilo arquitetônico que ajudou a definir a experiência cristã medieval. A abadia de Saint-Denis, com suas ogivas, seus vitrais, com a planta organizada em nave/transepto deu origem ao estilo gótico.

Nas palavras de Jacques Heers, a arte parisiense que nascia ali, a arte gótica,

“[Era] uma arte urbana que corresponde ao grande desenvolvimento das cidades, centros da vida econômica, da riqueza, da atividade espiritual e artística. É a era das grandes catedrais, posteriormente dos conventos de dominicanos e franciscanos. As catedrais, construídas sob a direção do bispo e da fábrica – ou obra – controlada por leigos, notáveis mercadores, simbolizam a nova riqueza das cidades. Impõem a todos um esforço financeiro considerável e assumem, na vida social, um lugar de primeiríssimo plano […].” (HEERS, Jacques. História Medieval, 1985, p. 155)

Em especial a partir do século XII, sob a doutrina cristã medieval, não bastava apenas assistir à missa e seguir as preleções do clérigo; o fiel buscava na catedral a vivência da fé, se possível, com o maior número de sentidos, como a visão, a audição e o olfato.  Esse “vivenciar” se dava ao percorrer os espaços da catedral, a partir dos “pés” da nave, ao se permitir ser “tocado” pelas luzes coloridas dos vitrais que narravam episódios sagrados, ao alcançar o transepto e o altar da igreja, ponto alto da experiência, onde são relembrados – e renovados – os enigmas da fé.

Lembra alguma coisa?

De novo, diz Jacques Heers,

“[…] A catedral não é somente um lugar de culto. Não reúne apenas os habitantes da vizinhança nas horas de missa e de preces. Acolhe multidões vindas para ouvir os sermões e os coros, admirar as procissões e as danças litúrgicas nas quais se manifesta o luxo dos costumes e dos ornamentos. Essas multidões participam também das grandes festas solenes, por vezes burlescas, assistem às primeiras representações dos dramas religiosos – os mistérios – representados de início na nave e, posteriormente, diante do portal principal da igreja. Dessa maneira, a catedral pode abrigar a população de toda a cidade, ou mesmo mais. Permite à cidade, como outrora os templos, o fórum, os teatros ou mesmo o circo nos centros romanos, afirmar sua influência e seu prestígio nas zonas rurais vizinhas. É um dos principais elementos desta civilização urbana, que floresce novamente.” (HEERS, J., 1985, p. 157)

Difícil não reconhecer, a descrição que Heers faz das catedrais lembra bastante o que acontece nas convenções como a Comic-Con. Os fãs parecem atraídos pela chance de experimentar algo a mais do que oferecem os filmes, séries ou histórias em quadrinhos. Reunidos, muitas vezes mascarados, mergulham num território de referências compartilhadas, códigos e narrativas com os quais desenvolveram relações afetivas – ou, num sentido oposto, de desafeto ou até ódio. Ao se fantasiarem e participarem dos painéis, eles prestam homenagem àquelas mensagens que tiveram contato ou então aos mistérios que as histórias despertaram dentro de cada um.

Pô Velho, que ezajero! Os supererói num são igual religiaum!!”, diz você, com nariz remelento e voz fanha. E eu concordo. Mas a relação que os fãs podem ter com eles são muito semelhantes à de um fiel com as narrativas cristãs medievais. Olha só.

Comentando sobre as reformas na abadia de Saint-Denis, escreveu o próprio Suger:

“[…] mandamos pintar, pelas hábeis mãos de muitos mestres de diversas regiões, uma notável variedade de novos vitrais, tanto em baixo como em cima, desde o primeiro, que principia com a Árvore de Jessé, na ábside da igreja, ao que está instalado sobre aporta principal, na entrada da mesma.” (Apud PEDREIRO-SANCHEZ, Maria Guadalupe, 1999, p. 119)

O vitral com a “Árvore de Jessé” que Suger se refere é este acima. O ícone é um tema recorrente no estilo gótico e simboliza a genealogia de Jesus Cristo desde Jessé, pai do rei David. Embora as temáticas dos vitrais variassem de catedral para catedral, ou que outras épocas elegessem episódios diferentes, como passagens do Apocalipse de São João, a Árvore de Jessé atravessou a Idade Média e chegou a ser representada na Igreja de São Francisco do Porto, cerca de duzentos anos depois de Saint-Denis. E por que isso é importante? Porque a Árvore de Jessé é uma versão medieval de um prequel, uma história que antecede ou relembra episódios já foram narrados para o público.

Fazendo uma revisão rápida do que o Io9 registrou, foram promovidos ao menos cinco painéis com personagens ou histórias que habitam algum momento anterior ao que o público poderia reconhecer como “cânone”. São eles:

Krypton

Star Trek Discovery

Star Wars nos quadrinhos

Star Wars – Clone Wars (de novo!)

Fantastic Beasts: The crimes of Grindelwald

Wonder Woman 1984

Num sentido mais raso, a conclusão seria que preservamos traços de uma mentalidade medieval, ávidos por histórias que mostram “como foi possível que” esse ou aquele herói chegou a se tornar o que conhecemos. Seria como se Kevin Feige, produtor da Marvel Studios, ou Patty Jenkins, diretora do novo filme da Mulher-Maravilha, fossem versões contemporâneas de Suger e guardassem sob suas vestes sacerdotais as chaves para mistérios que nós, fãs, estaremos ansiosos por desvendar nas próximas iterações que vierem às telas e às bancas.

Num sentido mais ousado é possível ir além. Num mundo mais globalizado e diverso, onde nenhuma religião poderia reunir ou pacificar tantos sem provocar mil novas Cruzadas, restou aos heróis da ficção, aos seus autores, editores e diretores, responderem por toda devoção, amor, expectativa ou desapontamento que o fã deposita nas histórias que considera sagradas.

No lugar dos santos, os heróis ocupam prateleiras, guiam e inspiram. Aos hereges e apóstatas, graças à internet, resta a agressão via twitter, o auto-exílio das redes sociais ou a imolação online, mesmo que simbólica.

De todo modo, a lição da história permanece: a catedral não requer fiéis. É o fiel que requer a catedral. E eles continuarão vindo por séculos depois de seus arquitetos há muito serem esquecidos.

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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